Categoria: CINÉLIDE

Blog de cinema e séries da jornalista Silvia Pereira.

A primeira heroína que eu quis ser

Não me lembro quantos anos tinha quando assisti ao primeiro “Star Wars” da minha vida, mas sim o impacto que me causou. Tudo, do roteiro ao visual,  era original e revolucionário, mas nada me deu tanto prazer quanto assistir à personagem princesa Leia – a primeira heroína que eu quis ser!

Naquela década de 1980, eu estava acostumada a assistir mocinhas chorosas e frágeis no cinema e nas novelas.  O máximo de “girl power” a que as garotas de minha geração tinham acesso pela dramaturgia era a Mulher Maravilha da TV – fortona, mas derretida por seu sargento Rogers e usando um uniforme que era puro fetiche para o sexo oposto: maiô decotado, pernas de fora e botas de cano alto e saltos 10 (alguém aí já viu algum super-herói masculino quase mostrando a bunda?).

A princesa Leia era revolucionária total! Como assim uma heroína vestida até o pescoço, que guerreava de igual para igual e lado a lado com os homens e nunca chorava ou pulava no primeiro colo masculino ante uma ameaça?

E o que foi aquela despedida de seu apaixonado Han Solo, prestes a ser congelado e talvez morrer no processo!?! … Nenhuma lágrima e uma declaração de amor sem firulas ou gestos dramáticos. E quando ela vira prisioneira após tentar salvá-lo, até de coleira no pescoço e acorrentada a um monstrengo nojento e babão manda pose de “fodona”!

Hoje entendo porque a princesa Leia foi a primeira heroína com a qual me identifiquei: ela não era feminista simplesmente porque não precisava (aliás, não se vira qualquer tipo de militante por direitos porque se quer, mas porque se é vítima de alguma opressão), mas ai de quem atravessasse seu caminho!

Leia já se sentia, agia e era vista como uma igual pelo sexo oposto. Uma verdadeira “girl power”. Como não querer ser ela?

 

 

 

 

 

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‘The Post’: registro essencial

Nunca admirei ou tive vontades relacionadas aos Estados Unidos, mas uma inveja eu tenho desses “primos ricos” da América: a forma como sua imprensa resiste às pressões de poderosos e mantém o legado dos fundadores da Constituição para defender a liberdade de expressão – arrisco-me a dizer, o bem mais caro da democracia e sua mais eficiente ferramenta de manutenção.

Ao menos é isso o que nos fazem acreditar filmes como “Todos os Homens do Presidente” (sobre o escândalo Watergate, que culminou na renúncia do presidente Richard Nixon), “O Informante” (que desmascarou a indústria de cigarros); e agora “The Post: A Guerra Secreta”, concorrente em duas categorias do Oscar deste ano (Melhor Filme e Melhor Atriz para… adivinhe… Meryl Streep!).

Como os dois primeiros títulos citados, “The Post” narra uma história real, ambientada nos bastidores da imprensa norte-americana, que opõe um poder muito maior à liberdade de expressão de um veículo de comunicação.

A história começa com o jornal The Times publicando trechos de um relatório confidencial do governo que prova que os cinco presidentes anteriores dos Estados Unidos mentiram sobre a real situação do país na Guerra do Vietnã, que ceifou milhares de vidas de jovens americanos.

Acionado na Justiça pelo governo, sob alegação de ter atentado contra a segurança nacional, o Times é impedido de continuar publicando a história, à qual o The Post também acaba tendo acesso.

Resta à proprietária do The Post – já desacreditada por ser mulher e por ter herdado o negócio em circunstâncias nada ideais – a decisão de publicar ou não a história. Pesam sobre ela o fato de que, na mesma semana, o jornal abria seu capital na bolsa de valores para conseguir sobreviver financeiramente – o que significa que, enquanto empresa, poderia até fechar por insolvência se os bancos o considerassem um “mal negócio”.

Traduzindo: Katherine Graham (Streep) tinha a perder tudo; a ganhar, apenas um subjetivo sentimento de missão cumprida.

Todos sabemos como esta história acaba, até porque, real, está registrada em livros e jornais. Mas retratá-la em filme garante-lhe um alcance exponencial, no que reside uma das grandes missões do cinema: tornar a história verdadeira conhecida pelo maior número possível de pessoas… fazê-la exemplar, eterna.

Desta missão o diretor Steven Spielberg se desincumbe com louvor.

Como cinema, “The Post” não é assim uma obra-prima digna de prêmios, mas faz-se obrigatório de uma forma muito competente e honesta. O que não é pouco. Mais que isso: é essencial!

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‘Blade Runner 2049’: uma experiência e tanto!

A primeira coisa que chama a atenção sobre “Blade Runner 2049”, quando ainda se tem o primeiro filme fresco na memória, é a inesperada luz do dia nas primeiras cenas. Um dia nublado, em uma colônia agrícola fria, mas ainda “dia”. Demora um pouco para nos reencontrarmos com a atmosfera noir futurista tão “familiar” do primeiro filme: uma Los Angeles sempre noturna, claustrofóbica, hiper adensada em suas construções de concreto e ferro e imagética porque poluída de letreiros e publicidades holográficas gigantes.

Mas considero esperar uma cópia reeditada do primeiro “Blade Runner” um grande erro dos fãs e receita pra se decepcionar. Por isso meu conselho é que o espectador se liberte totalmente das expectativas relacionadas ao original para apreciar esta sequência, que tem seu valor próprio.

Nela, nosso caçador de androides agora é K., um modelo Nexus 8 de replicante, pertencente a uma linhagem de última geração, que já não tem data definida para “aposentadoria” (leia-se morte) e caracterizada pela obediência. Como o Rick Deckard de Harrison Ford, sua missão é “aposentar” modelos antigos de replicantes, que tornaram-se ilegais. Mas se esta premissa é a mesma, o desenvolvimento a partir daí é bem outro, muito mais denso e elaborado que o do primeiro filme.

Na pele de K., Ryan Reynolds descobre um segredo sem precedentes sobre um certo modelo antigo, desaparecido há três décadas, e recebe de sua chefe na Polícia de Los Angeles (Robin Wright envelhecida, mas ainda uma presença forte na tela) a missão de eliminar todos os seus rastros.

O trabalho implica uma investigação que desperta a atenção de Niander Wallace, herdeiro da Tyrell Corporation, e passará pela busca por Rick Deckard, desaparecido há 30 anos.

Wallace, que ergueu um novo império baseado na agricultura sintétita, não herdou apenas o espólio da falida Tyrell, mas também a síndrome de “Deus” do antigo criador de replicantes, como descobriremos. Um deus cego, porém, o que é uma genial ironia ante toda a simbologia criada pela franquia em torno do olhar – pela pupila se desmascara um replicante, por exemplo.

Não é a única analogia do filme. Se o primeiro evocava o mito da criatura que se rebela contra seu criador, neste temos simbolizada em um androide um anseio humano muito característico deste novo século: a busca sobre si mesmo, suas origens.

E como romance não pode faltar, o de K. é um simulacro, que pode ser considerado uma metáfora das relações fluídas deste século de solidão coletiva forjada pelo fenômeno das redes sociais.

Há muitas outras por todo o filme, mas detalhar mais implicaria spoilers. As interpretações acima não comprometem em nada todas as surpresas que se tem ao longo de quase 3h de filme, que se passam sem nenhum tédio.

A imersão recebe uma grande ajuda da trilha sonora, que quase nem deve ser chamada assim, já que os sons que acompanham toda a história parecem-se muito pouco com música. O tempo todo ouvimos um barulho desconfortável, como de máquinas “gritando” – se máquinas pudessem fazê-lo.

O francês Dennis Villeneuve cuida muito bem do legado de Ridley Scott e entrega um filme, em minha opinião, muito superior ao original de 1982. Não só a história, mas efeitos, direção de arte – esta então bem menos confusa – também funcionam muito melhor, sem, no entanto, roubarem as cenas. A história é a estrela e isso é muito bom!

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Memórias de cinema: ‘Flor do Pântano’

Minha relação com o cinema existe desde tenra idade. Posso dizer que a sétima arte ajudou a me formar em um tempo sem computadores, aparelhos celulares e videogames. Aquele período crucial da infância, que a literatura costuma identificar como a de início da formação da personalidade, passei descobrindo tesouros cinematográficos em frente à tela de uma TV em preto-e-branco.

No Brasil da década de 1970, enquanto a Ditadura Militar seguia perseguindo opositores do regime e censurando toda expressão artística que considerasse subversiva, minha vidinha era acordar de manhã na parte de cima de um beliche, ir à escola, fazer o dever de casa e sentar-me para assistir à Sessão da Tarde, enquanto as outras crianças de minha idade assistiam a desenhos de Tom & Jerry, Patolino, Frajola e Coiote, que eu odiava! (definitivamente não fui uma criança norma!)

Preferia assistir a filmes de Blake Edwards, Elia Kazan, Michael Curtis, Joseph Mankiewickz, Charles Vidor, entre muitos outros grandes diretores estabelecidos na velha Hollywood que ajudaram a escrever a história do cinema mundial. Admirava heroínas fortes como Katherine Hepburn em “Núpcias de Escândalo” (The Philadelphia Story, 1950); confiantes como Bette Davis em “A Malvada” (All About Eve, 1950); sensuais como Rita Hayworth em “Gilda” (Gilda, 1946) ou determinadas como Holly Goolightly em “Bonequinha de Luxo” (Breakfast at Tiffany’s, 1961).

Mas eram personagens simplórias que eu assumia quando me imaginava na continuação de um filme que havia acabado de assistir – hoje sei que são chamadas fanfic (de fan fiction) os roteiros que os próprios fãs criam a partir de personagens já existentes. Eu os criava em minha cabeça aos montes desde muito jovem.

A lembrança mais remota que tenho de um alter ego é a personagem Tammy, de Debbie Reynolds, em “Flor do Pântano” (Tammy and the bachelor, 1957).

No quintal gramado de nossa casa, antes de meu pai construir uma edícula para abrigar meus avós maternos, eu costumava colocar uma das extremidades de uma tábua longa apoiada sobre uma lata velha de tinta. Descia essa rampa improvisada imaginando-me Tammy galgando as escadarias da mansão sulista onde estava hospedada… seus anfitriões e convidados, acostumados a vê-la de tranças, metida em camisas de flanela xadrez e jeans sujos, sorviam surpresos e encantados a visão dela em um vestido do século 18.

Revivia secretamente Tammy salvando um belo homem do pântano, sendo acolhida pela família dele numa mansão sulista e metamorfoseando-se em uma linda mulher na festa em memória dos mortos na Guerra Civil.

Eu não lia contos de fadas, mas o cinema estava cheio delas. Não precisei ler “O Patinho Feio”. mas assisti às suas versões de saias em diferentes filmes – além de Tammy, todas as mocinhas ingênuas vividas por Debbie Reynolds ou Doris Day, inclusive a masculinizada Calamity Jane de “Ardida como Pimenta” (Calamity Jane, 1953), ou as adolescentes boazinhas de Sandra Dee naqueles filmes de praia da década de 1960.

Vejo hoje que Tammy – moleca, infantilizada, vivendo só com o avô numa casa isolada no meio de um pântano – era a imagem que eu já fazia, inconscientemente, de mim mesma.

Mesmo rodeada por uma família, com pais, avós e duas irmãs mais velhas, eu seguia isolada da companhia de outras crianças da mesma idade. Meu pântano era o ribeirão que nos isolava do centro urbano e em torno do qual víamos até vacas, cabras e cavalos pastando, tendo os prédios do Centro da cidade ao fundo. Meu mundo era pequeno.

Ainda sinto um genuíno prazer em rever esses filmes, mas, diferente de quando me projetava nas personagens, hoje os saboreio como espectadora, inundada de nostalgia de um tempo de pureza e magia. Mas, definitivamente não me projeto mais em nenhuma.

Cresci!

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‘Dunkirk’: cinema de imersão da melhor qualidade

Christopher Nolan fez de novo.

Com “Dunkirk”, drama de guerra sobre episódio real da Segunda Guerra mundial – a evacuação de mais de 300 mil soldados ingleses de praia de Dunquerque, na França, durante cerco do exército alemão -, volta a proporcionar cinema de imersão da melhor qualidade. Faz valer a pena deixarmos o conforto de nossas casas, com telas de alta definição, para nos internarmos dentro de uma sala escura de cinema por um ingresso já nada barato.

E olhe que desta vez o diretor saiu de sua, digamos, “zona de conforto” – se é que se pode chamar assim materializar na tela roteiros esquemáticos, cheio de cenas fantasiosas, como os de “A Origem” e “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Digo conforto referindo-me a todo o suporte de efeitos especiais e atuações memoráveis de alguns dos mais bem pagos atores da indústria, que ajudavam a “garantir o show” nos títulos citados.

Em “Dunkirk” os poucos efeitos especiais não visam criar ilusões ou sensações, mas reproduzir um episódio real com a máxima fidelidade. E o elenco, apesar de contar com medalhões aqui e ali, em papéis coadjuvantes – Kenneth Branagh como um oficial que comanda a evacuação, Tom Hardy como um piloto heroico, por exemplo -, é capitaneado mesmo por atores semi-desconhecidos e/ou estreantes. Harry Styles, da banda One Direction entre eles.

Também ao contrário das produções anteriores do diretor, “Dunkirk” não acompanha a jornada de um herói. Há vários, mas nenhum com superpoderes – bem ao contrário. Confrontados pela iminência da morte em batalha, estão todos com suas fragilidades expostas, o que dá a pequenos gestos de humanidade grandes dimensões.


Também ao contrário das produções anteriores do diretor,
“Dunkirk” não acompanha a jornada de um herói. Há vários,
mas nenhum com superpoderes – bem ao contrário.


É heroica a forma como o dono de uma das embarcações civis convocadas pelo exército inglês para buscar os soldados não hesita em levar o filho que lhe restou para uma missão com perigo de morte. Também heroicas as decisões do piloto do único avião inglês que permanece no ar tentando proteger a evacuação dos soldados por mar.

Mas também há decisões de um egoísmo desesperado entre as várias histórias contadas dentro da grande história da evacuação. – sim, também é um roteiro intrincado, com idas e voltas no tempo para mostrar diferentes pontos de vista de um mesmo momento da batalha, mas de que, novamente, Nolan se desincumbe muito bem, sem confundir (demais) o espectador atento.

E não tem como não ficar atento. O ritmo do filme hipnotiza a atenção, para o que tudo contribui: a montagem impecável, a trilha enxuta, as imagens bem cuidadas… Imersão!

Ao final, assistimos a um filme de guerra que não mostra nenhum sangue derramado, nenhuma cena de grande selvageria. O realismo de Nolan prescinde dessa crueza. É onde “Dunkirk” se encontra com os demais títulos do diretor: não precisa apelar para o óbvio.

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‘O Mínimo Para Viver’: perturbador!

Se você é do mesmo time das pessoas que consideram irresponsável falar sobre um problema com medo de multiplicá-lo, não leia este post.

Alerto porque, assim como ocorreu com a série “13 reasons Why” (“Os 13 Porquês” no Brasil), que trata de um suicídio motivado por bullying, já li pela internet alguns posts vociferando contra o filme “O Mínimo Para Viver” (To the Bone), da diretora estreante Marti Noxon, por considerarem que mostra a pessoas com predisposição à anorexia o “como fazer” para perder peso propositalmente.

Não discutirei este mérito, pois não sou especialista. Registrarei meu ponto de vista apenas como espectadora e ser humano, que achou de grande importância entender um pouco mais sobre as compulsões, os truques e a grande angústia que leva anoréxicos a evitarem comida, comprometendo a própria sobrevivência.

De fato, o filme é, no mínimo, perturbador!

Entendi que não trata-se apenas de uma dismorfia corporal (transtorno psicológico que faz o indivíduo se incomodar profundamente com “defeitos imaginários” ou triviais de seu corpo). Este é, antes, um do grande espectro de sintomas a convergirem para o gigantesco problema da Anorexia.

Da forma como entendemos a vida de Ellen – a protagonista, vivida por uma Lily Collins impressionantemente CADAVÉRICA -, é uma doença da alma, que leva à negação de tudo o que é vida por meio da recusa em comer e a obsessão por perder peso.

Tudo vale para alimentar essa obsessão: vomitar, correr, fazer exercícios escondido, tomar laxantes, entre outros inacreditáveis estratagemas que podem levar à morte.

No filme, acompanhamos um pedaço da vida de Ellen, 20 anos, a partir de sua expulsão da última clínica para a qual foi enviada pelo pai ausente e a madrasta preocupada-mas-bem-intencionada. Motivo: a ironia ácida de sua incontinência verbal começava a perturbar os demais pacientes.

Como último recurso, a madrasta falante tenta um especialista conhecido por seus métodos não-convencionais, interpretado por ninguém menos que Keanu Reeves (pausa para um suspiro), ainda lindo em seus 53 abençoados anos de vida.

Na casa que Ellen passa a dividir com outros recuperandos, ela tem contato com todo tipo de estratagemas para perder peso e também com o inglesinho e ex-bailarino Luke (Alex Sharp – estreante no cinema, mas já premiado por um musical da Broadway), que demonstra responder bem aos métodos do dr. Beckham.

Desenha-se um potencial romance, mas a compulsão da anorexia é mais importante, por isso a diretora atém-se a mostrar como a arte, o carinho e a atenção podem ajudar no processo de tratamento, e como um único e isolado incidente pode colocar tudo a perder.

Perto do final do filme, há uma cena tocantemente íntima entre Ellen e sua mãe bipolar, cheia de lições subliminares sobre amor, aceitação e disponibilidade, que fez eu me liquefazer em lágrimas. Para bom entendedor, dá pistas de como minar a fortaleza erguida pela doença em torno do anoréxico.

Talvez o segredo não seja tentar trazê-lo, à força, para o nosso “mundo real”, mas entrar no dele para explorar alternativas de resgate.

Dá pra entender que não existe um tratamento ou remédio milagroso, mas que cada doente demanda diferentes tentativas e que o único ingrediente indispensável é o amor.

Talvez, “O Mínimo Para Viver”, que está disponível para ser assistido na plataforma Netflix, não seja mesmo recomendável a quem já sofre com o problema, mas considero indispensável para quem deseja saber lidar com pessoas queridas acometidas por ele.

De minha parte, merece cinco estrelas.

 

 

 

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Uma Certa Inglesa Romântica

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro,
possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa
.”

Você não precisa concordar com o trecho acima para adorar a obra que ele abre.

O que… não reconheceu? Não sabe o que está perdendo! Pertence  a “Orgulho e Preconceito”, a obra mais famosa de Jane Austen, autora inglesa do século 19 que escreveu alguns dos romances mais cultuados e adaptados para teatro, cinema e TV do mundo.

Em sua curta vida (morreu em 1817, aos 42 anos, de um mal desconhecido), Austen escreveu apenas seis obras completas: “Razão e Sensibilidade”(1811), “Orgulho e Preconceito” (1813), “Mansfield Park” (1814), “Emma” (1815), “A Abadia de Northanger” e “Persuasão”. Deixou outras incompletas, que a dramaturgia mundial também diverte-se em completar por sua própria conta e risco, como “Lady Susan”, “Os Watson” e “Sanditon”.

Todas têm em comum uma história de amor ambientada na alta sociedade inglesa do século 19, narrada em texto elegante, mas temperado com fina ironia e uma sagaz crítica social.

Atribuo o fato de sua obra continuar a conquistar novos admiradores até hoje à sua universalidade. Para a época, traziam narrativas extremamente originais. Hoje em dia, a história de antipatia transformando-se em amor de “Orgulho e Preconceito”, por exemplo, pode não parecer nova por ter sido copiada à exaustão desde então. Mas na época em que foi escrita, era uma subversão à receitinha batida das histórias açucaradas do gênero, que traziam heroínas ingênuas, virtuosas e indefesas, à espera de serem salvas pelo arquétipo do príncipe encantado.

As heroínas de Austen não são absolutamente indefesas ou “burrinhas” – aliás, bem ao contrário – e mesmo tendo de seguir as convenções sociais da época, sabiam destacar-se acima delas. Os personagens também não obedeciam a maniqueísmos. Ou seja, nem as heroínas e seus amados eram apenas poços de virtudes, nem os vilões só maldades. A protagonista de “Emma”, por exemplo, é uma esnobe. De bom coração, é verdade, mas ainda assim esnobe e egocêntrica. E o famoso senhor Darcy de “Orgulho e Preconceito” é o mau-humorado e esnobe mais amado da história da literatura. Bem diferente dos heróis lindos e virtuosos da literatura romântica da era vitoriana.

Por isso é que, como as peças de Shakespeare, os personagens de Austen seguem atuais – universais, como a alma humana.

 

Adaptações

Você sabia que  “O Diário de Bridget Jones” (livro e filme) foi inspirado em “Orgulho e Preconceito” e “As Patricinhas de Beverly Hills” em “Emma“? Estes são apenas dois exemplos de como as obras da escritora britânica seguem atuais. Mas não os únicos.

Desde 1938, os romances da escritora vêm sendo adaptados para televisão e cinema insistentemente. Só “Orgulho e Preconceito” tinha (até a redação deste post) três adaptações produzidas pela TV britânica BBC e cinco para a tela grande, sendo a última de 2005, com Keyra Knightey e Matthew MacFadyen (ai ai…) nos papeis principais.

“Razão e Sensibilidade” foi adaptada três vezes para a televisão, também pela BBC, e sua única versão para cinema foi dirigida pelo aclamado diretor taiwanês Ang Lee (“O Segredo de Brokeback Mountain” e “As Aventuras de Pi”). Ainda que o roteiro tenha a assinatura de uma inglesa (a também atriz do filme Emma Thompson), o fato de um asiático ter traduzido tão bem a essência do romance dessa inglesa é mais uma prova da universalidade de sua obra.

“Emma” tem cinco versões para a TV [após este post foi lançada mais uma, em plena pandemia de coronavírus de 2020, assinada por Autumn de Wilde] e uma de suas adaptações para o cinema, de 1996, rendeu uma indicação ao Oscar para a atriz Gwineth Paltrow.

“Persuasão” – meu romance  preferido – teve três versões para a TV e só uma para cinema, mas já foi citado em mais de um filme (“A Casa do Lago” entre eles) como símbolo de um amor maduro, que levanta questões sobre a capacidade do sentimento resistir ao tempo, à distância e às mudanças interiores de seus amantes. Talvez por ter sido escrito nos últimos anos de vida de Austen é o de narrativa mais densa e interiorizada. Explora os aspectos psicológicos de sua protagonista, Anne Price – uma solteirona para os padrões da época.

“Mansfield Park” e “A Abadia de Northanger” são os romances menos populares da escritora, tendo sido, por isso, pouco adaptados: o primeiro duas vezes para a TV e uma para o cinema. No Brasil, o filme de “Mansfield Park”, que permite-se muitas liberdades para com a obra original, recebeu o título de “Palácio das Ilusões”.

Já “A Abadia…” foi adaptado três vezes só para TV e nenhuma para o cinema, talvez por ser o romance de Austen que mais destoa do perfil do restante de sua obra, com seus toques de suspense e narrativa ainda sem muita identidade. Afinal, apesar de ter sido publicado só após sua morte, foi o primeiro romance escrito pela inglesa. Como comentou um personagem do filme “Clube de Leitura de Jane Austen” (comédia romântica de 2007 em que seis personagens debatem as obras de Austen em reuniões mensais), a autora ainda devia estar experimentando as referências de suas escritoras preferidas à procura do próprio estilo.

Encontrou.

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Nossos idosos não são mais aqueles

Quando escrevi pela primeira vez sobre a série cômica “Grace & Frankie”, em 2015, achei que não houvesse mais o que explorar na história de dois casais idosos que se reconfiguram da forma mais inusitada (ou não nestes tempos “gay friendly”): os dois maridos “saem do armário” ao mesmo tempo para assumirem sua relação homo-extraconjugal, que já dura 20 anos – dos 40 que os dois casais mantinham amizade e vidas entrelaçadas.

Mas a série da Netflix chega à sua terceira temporada em grande forma, obrigada!

Embalada por um timing cômico sofisticado e, de certa forma, codificado – significa que nem todos vão entender as piadas, principalmente quem está na faixa abaixo dos 40 anos -, a série aborda com extrema verdade e inteligência os conflitos que o novo perfil de idosos têm tido de enfrentar atualmente.

Nossos idosos de hoje não são mais sombras das pessoas que foram apenas esperando para morrerem em cadeiras de balanço, camas de hospital ou quartos de asilo. Principalmente os das classes média acima, mantêm-se funcionais e lúcidos, o que, de certa forma, até os torna mais sensíveis aos tratamentos preconceituosos das novas gerações, pois eles não se sentem como os seus jovens o tratam: seres ultrapassados.


“Nossos idosos de hoje não são mais sombras das pessoas que foram apenas esperando para morrer em cadeiras de balanço”


Na segunda temporada, exibida em 2016, Grace e Frankie tiveram de lidar com o processo de despedida de uma amiga com câncer que manteve uma vida “solar”, positiva e generosa até o melancólico fim, enquanto Robert e Sal tentavam se entender após o primeiro descobrir que o segundo teve um “sexo de despedida” com a ex-mulher.

Grace e Frankie chegam ao último episódio enfrentando a triste conclusão de que são tratadas como peças inúteis no xadrez familiar, mas prometendo que darão a volta por cima iniciando um negócio próprio juntas.

A terceira temporada as encontra enfrentando as dificuldades de praxe para conseguir levantar capital para o novo negócio: fabricação de vibradores específicos para idosas, que respeitem as limitações físicas típicas da fase (artrite, por exemplo), tecido vaginal ultra-delicado e com baixa lubrificação (se você pensar bem, é um baita nicho… rs).

O problema é que nenhum banco se arrisca a conceder empréstimo com amortização de longo prazo para duas mulheres na casa dos 70 anos, a despeito delas gozarem de boa saúde, energia e de Grace ter um bem-sucedido currículo de empreendedora – afinal, ela montou do nada a empresa de produtos femininos que a filha mais velha agora administra e na qual ela não é mais bem-vinda.

Parece uma história triste – e no fundo é -, mas você não consegue chorar nesta série. Se tiver o repertório certo, vai é rir muito, mesmo que no fundo se entristeça por reconhecer que aquelas verdades temperadas com o humor inteligente da roteirista Martha Kauffman (de “Friends”) são é de chorar.

 

P.S. By the way, quero envelhecer como a Jane Fonda!

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‘A Nossa Luta’: você está acordado?

Em um dos últimos episódios da série “When We Rise” – que no Brasil será exibida pelo canal Sony sob o título “A Nossa Luta” -, o ativista gay pelos direitos humanos Cleve Jones descreve a um jovem que o entrevista uma ameaça que sua geração não previu: “vocês”, dispara ele – “Sua geração está dormindo (…) como é fazer parte de uma geração sem objetivos?”.

Cleve tem moral para fazer a provocação. Àquela altura, já acumulava, ao lado de outros biografados na série, como Roma Guy, Diane Jones, Ivory Aquino e Ken Jones, 40 anos de militância política pelos direitos humanos e civis da comunidade LGBT, responsável por conquistas como tratamento médico gratuito e irrestrito a doentes de Aids e a derrubada de leis que marginalizavam social e economicamente esta e outras minorias.

Tudo isso enfrentando obstáculos tão gigantescos quanto a epidemia de Aids, que começou sendo chamada de câncer gay e considerada por conservadores “uma resposta de Deus ao pecado da homossexualidade”.

Não pude evitar uma reflexão sobre se este questionamento não serve também para nossas últimas gerações brasileiras – a minha inclusa -, que gozam a liberdade civil pós-regime militar pela qual milhares morreram, mas, por outro lado, assistem quase passivamente a pessoas padecerem por falta de atendimento digno e eficiente de saúde e outros direitos essenciais, só preocupando-se com o seu quintal.


Dá inveja assistir o quão corajosos esses
militantes se mostravam, mesmo assistindo a
amigos morrerem de aids abandonados pelo sistema


Dá inveja assistir o quão corajosos esses militantes se mostravam, mesmo assistindo a amigos morrerem de aids abandonados pelo sistema ou perderem bens e direitos construídos numa vida inteira de relação para usurpadores protegidos pela lei americana, que não estendia os direitos civis a uniões homoafetivas.

Só a história de Cleve, que aos 18 anos deixou um lar rico, cujo pai psiquiatra queria “tratar” sua homossexualidade como doença mental (se preciso com eletrochoques), já emociona. Ele inicia sua militância como assessor do primeiro político assumidamente gay a ser eleito para um mandato político em São Francisco (Califórnia/EUA) – Harvey Milk, o biografado em “Milk – A Voz da Igualdade”, que rendeu um Oscar de Melhor Ator a Sean Penn, com direito a (merecidos) aplausos em pé.

A militância de Cleve e dos outros biografados não para quando Milk é assassinado. Ao contrário, cresce na adversidade.

O diretor Gus Van Sant faz um belíssimo trabalho entrelaçando as histórias pessoais cheias de episódios de discriminação, violência e discursos de ódio desses ativistas com a dos movimentos, sem esquecer o pano de fundo político de cada época.

“When We Rise” está no patamar de produções como “The Normal Heart” e “Stonewall”, que contextualizam as lutas da comunidade LGBT, mas que se parecem com todas as histórias de coragem de quem luta por seus direitos em meio à injustiça. Mais do que recomendáveis, elas deveriam ser obrigatórias para – quem sabe? – todos aprendermos a acordar também.

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‘Sonata de Outono’: bergman eterno

Liberei uma grande lufada de ar dos pulmões ao terminar de rever “Sonata de Outono” (Suécia, 1978), no Cine Arte 1, como se não respirasse há horas. Havia esquecido como o diretor Ingmar Bergman consegue ser impiedosamente denso abordando relações delicadas.

Eva (Liv Ullmann, atriz preferida e esposa de Bergman) recebe em casa a mãe, Charlotte (Ingrid Bergman sessentona e lindíssima), pianista famosa, que não via há sete anos. Parece um feliz reencontro, mas, aos poucos, quase sem percebermos como e quando, os diálogos vão evoluindo de pequenas demonstrações afetivas para um implacável acerto de contas entre filha oprimida e mãe ausente.

Não há vozes alteradas ou gestos dramáticos. Fiéis ao jeito frio de ser dos suecos, Liv e Ingrid são presenças cálidas, quase frágeis na tela. A violência está nos sentimentos que seus diálogos liberam e nas expressões que a câmera de Ingmar capta em closes fechadíssimos – uma de suas marcas.

Há uma cena em que Charlotte confessa a seu agente, com evidente auto-piedade, seu choque ao encontrar a filha mais nova e doente, Helena (Lena Nyman), muito pior que da última vez que a vira anos antes, quando a internou numa instituição – de onde Eva a tirou depois.

“Por que ela não morre?”, diz Charlotte com um ar blasè, como se comentasse o clima.

Assim é Bergman.

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