Categoria: PALAVREIRA

Crônicas para compartilhar a escrita como expressão da alma e do olhar.

Maior que o mundo

Du, Clara e eu em Granada: felicidade pura

Meu mundo cresceu!

Depois de ter encolhido ao tamanho de cinco centímetros de um salto fino de mulher, como explicado em crônica anterior, ele se ampliou para além de um oceano.

Foi graças a Du e Clara, aqueles mesmos, que desmontaram a vida no Brasil para viver na Espanha, lembram? Mais que inspiração para enfrentar os medos que me encolhiam, eles foram suporte carinhoso na realização de um sonho que eu sequer imaginava ao meu alcance: conhecer o Velho Mundo.

Até o início de minhas férias, em abril deste ano, eu e a amiga Marcinha – outra querida, citada por ter me feito o convite para o Chile – tínhamos feito planos para uma viagem por cidades de Minas Gerais. Mas sua tia adoeceu e ela reconsiderou.

Após uma consulta “hipotética” ao Du, pelo WhatsApp, fui convencida (ele é muito bom nisso) a me lançar na aventura além-mar. Daí que, entre decidir que ia, comprar passagens – em um processo dificílimo que consumiu um dia inteiro do querido Du na internet – e preparar bagagem, foram menos de TRÊS (!!!) dias.

Puerta del Sol, em Madri

Embarquei na madrugada de um domingo rumo a São Paulo e, depois, Madri, onde Du e Clara já me aguardavam com outro de seus impagáveis carinhos: um apartamento alugado via Air Bnb para nos hospedar por três dias na capital espanhola.

Lá eles me guiaram por um tour maravilhoso, que incluiu belezas arquitetônicas e delícias gastronômicas. No restante dos dez dias de minha viagem, só fizeram ser meus guias por Granada, a linda e adorável cidade da Andaluzia – Sul da Espanha – que escolheram para viver.

E eu, que mal andava meio quarteirão, encarei 10 km por dia de passeios – gastei tempo e alguns euros em curativos e escalda-pés para acalmar inchaços e bolhas, mas valeu a pena!

Descobri que os andaluzos são os brasileiros da Espanha; que Paella valenciana se come junto, em torno de um mesmo tacho; que vinhos maravilhosos podem ser comprados por 4 euros em um mercado de esquina e que a Andaluzia tem azeites tão deliciosos que eu tomaria de caneca se não temesse as calorias.

Márcio, meu marido, que não pôde me acompanhar na viagem, ainda encomendou-me o contato com um parente espanhol que só conhecia por Facebook. Pepe Pelegrina, que nem me conhecia até então, provou sua hospitalidade andaluz levando-me para conhecer a neve na estação de esqui de Sierra Nevada.

Eu com Clara, Du e Pepe em Granada

Detalhes sobre os maravilhosos passeios deixo para a matéria de turismo que estou preparando. Este texto é para falar sobre como a amizade, esse “amor” sem posse tão gostoso de sentir, tem o poder de ampliar mundos e transbordar o coração de felicidade.

E eu que não sabia que as minhas transcendem oceanos… e me fazem sentir maior que o mundo.

 

 

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Junhos!

Nunca pensei muito sobre o porquê das festas juninas e quermesses me despertarem bons e mágicos sentimentos todo inverno, mas ultimamente tenho rememorado lembranças de deliciosos junhos na avenida de terra na qual cresci, em Ribeirão Preto.

As festas do mês mobilizavam-nos em preparativos para grandes fogueiras à beira do ribeirão. Nós, crianças, saíamos a buscar pelos matos qualquer resto de madeira enjeitada para montar a estrutura gigante, que ultrapassa a altura de qualquer adulto das redondezas.

As crianças banhavam-se correndo após a tarde de brincadeiras para não perderem nenhum detalhe do ritual de acender a fogueira. Começava com a distribuição de pequenos pedaços de jornal pela grande pilha, que eram acesos com fósforos. Mas era preciso também bisnagar álcool pela madeira para incentivar o fogo rápido do papel a espalhar-se.

Era emocionante para nós testemunhar o fogo erguer-se altíssimo, iluminando a noite à beira do rio… a ausência de postes de luz multiplicando o número de estrelas à vista no céu.

Tão lindo!

As mães conformavam-se com o assalto às suas embalagens de Bombril, já que a sensação da noite era improvisar espetáculos de luzes com esponjas de aço em chamas. Acendíamos a pontinha delas na fogueira e as rodávamos com movimentos circulares dos braços, formando espirais de fogo lindíssimas os nossos olhos de crianças.

Os vizinhos dispunham suas cadeiras de cozinha a uma distância segura da fogueira para acompanhar com vigilante aprovação a farra dos mais jovens… e deitavam conversa sobre suas vidas para levar.

Algum adulto sempre chegava com bules enormes de alumínio – daqueles que hoje só se vê no Museu do Café – para servir quentão em copos americanos. Leves, eram liberados até mesmo para crianças… o gosto do gengibre descrevendo um caminho de fogo por nossas gargantas. Até hoje nutro um amor infantil pela raiz, que descobri recentemente ser contraindicada a hipertensos (desgosto dos desgostos!).

As fogueiras aqueciam o frio genuíno daqueles junhos pré-El Niños, mas o fogo consumia rapidamente o “gigante”. No dia seguinte era apenas um amontoado de cinzas espalhadas pelo vento livre da beira do rio, que liberava-nos de qualquer trabalho de limpeza.

Não precisávamos de quadrilhas, trilha sonora sertaneja, correio-elegante, camisas xadrezes ou jeans puídos para legitimar nossas modestas e pouco planejadas festas juninas. Éramos “caipiras” legítimos da cidade em nossa “avenida rural” cercada de asfalto em seus limites.

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Sofrer ensina… aos dispostos

O sofrimento ensina aos dispostos.

Só a eles…

Cheguei a esta conclusão refletindo sobre a espiral de violência que acomete nosso país e, em menor grau – mas não menos preocupante -, os Estados Unidos, com seus episódios de chacina de inocentes por atiradores civis.

A violência se retroalimenta quando as pessoas tentam sobreviver à dor devolvendo à sociedade o mesmo ódio de que são vítimas – adolescentes deslocados atiram em seus bullyers, policiais disparam a esmo em favelas onde seus colegas foram assassinados, criminosos pilham e exterminam a sociedade que os exclui…

De outro lado, mães como Lucinha Araújo e a ribeirão-pretana Marília Castelo Branco semeiam o bem entre outras famílias marcadas pelo sofrimento – a primeira criou a fundação Viva Cazuza, dedicada a atender crianças com a doença que matou seu filho, e a segunda a Síndrome do Amor, para dar suporte a famílias com casos de doenças raras, como a que ceifou a vida de seu Thales.

São exemplos de pessoas dispostas a refletir e a aprender com as próprias dores. Como recompensa, colhem gratidão e amor (o que sentem e o que recebem de volta), que lhes servem como apoios “mágicos”- chamemos assim por ora – para seguirem em frente.

Quem perde entes queridos ou enfrenta algum dos males deste século (depressão, pânico e afins) sabe como é difícil viver com essas dores. Mal comparando, é como tentar caminhar carregando nas costas um fardo mais pesado que o próprio peso.

Sobreviver a elas usando o ódio como apoio é a decisão instintiva, inerente a todas as espécies, por isso mais fácil. No entanto, torna o sofrimento inútil e fatal para a raça humana, pois o multiplica e espalha a dor, como uma epidemia a destruir vidas e desnortear famílias, instalando o caos.

Usar como apoio o amor ao próximo contraria este impulso primitivo, por isso demanda disposição e esforço.

O sofrimento só ensina quando aceitamos a oportunidade que ele abre à reflexão e ao aprendizado através do amor. Ouso dizer que é para aprender isso que vivemos neste mundo tão desigual e cheio de injustiças e ódio. Infelizmente, poucos de nós consegue.

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Piedade

Quando ouvi a chamada da notícia, imediatamente elaborei um juízo de valor: uma tia que esfaqueia o sobrinho de 1 ano só pode ser um monstro, um ser sem coração, que não merece perdão.

Mas veio a reportagem… a imagem de uma jovem assustada na TV… e desde então esta angústia sufocante que me forma volumes na garganta.

Vinte anos, dois filhos e um sobrinho para olhar, mas o rosto, moreno e redondo, é de menina. O cabelo rebelde foi domesticado à força em um coque improvisado no alto da cabeça. A voz é cansada. O olhar – triste de doer! – desenha uma expressão entregue, conformada, de quem conhece o destino que lhe aguarda… e o aceita, como se não pudesse ser pior que aquele que conhece.

“Eu fiquei nervosa”, disse ao microfone da reportagem. “Eles começaram a brigar… aí eu peguei e fiz isso”, admitiu.

Haverá quem veja frieza em sua confissão desarmada. Eu enxerguei um cansaço profundo, desses que se costuma sentir no fundo do poço escuro de uma depressão, quando já não nos importamos com o que virá, pois nada pode ser pior do que já é.

“Eu peguei a sacolinha em cima da mesa, coloquei na boquinha dele e comecei a dar facada nele”, continuou com a voz cansada que julgarão fria, por ser a de alguém que se assiste de fora, perdida que está de si mesma. Poderia estar falando de uma boneca da qual desgostou e decidiu arrancar olhos e cabelos (quem nunca maltratou a boneca em um arroubo de rebeldia infantil?!).


Haverá quem veja frieza em sua confissão desarmada. Eu enxerguei um cansaço profundo,
desses que se costuma sentir no fundo do poço escuro de uma depressão


Franciele ainda procurou ajuda na vizinhança. Chamaram a ambulância… e a polícia.

“Descontei nele”, não parava de confessar, como se pudesse explicar o inexplicável.

E agora… Quem terá piedade dessa mãe com rosto de menina e a adolescência abortada por uma gravidez aos 16?

Não a irmã, mãe do sobrinho vítima de seis perfurações de faca.

Algum familiar? Improvável!

O que será agora dessas quatro vidas – do sobrinho grave no hospital, dos dois filhos de Franciele… da própria – neste país com tradição de abandono da infância, de descaso com a pobreza e falta de atenção às mães-meninas?

Só me resta rezar, Franciele… por você, por seu filhos, por seu sobrinho que não teve culpa de nada – muito menos de nascer, de ser criança e chorar sob seus cuidados tão despreparados.

Que Deus tenha piedade de vocês!

Que tenha piedade de todos nós neste mundo desarrazoado.


"Sim! Que não ter um coração profundo
É os olhos fechar à dor do mundo,
ficar inútil nos amargos trilhos.

É como se o meu ser compadecido
não tivesse um soluço comovido
para sentir e para amar meus filhos!"
     Cruz e Souza, em seu poema 'Piedade'

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Os ídolos e nós

Meu pai na década de 1960: goleiro conhecido como Zague

Gylmar com Pelé na Copa de 1958: o ídolo de meu pai

O futebol é um grande celeiro de ídolos no Brasil. Os motivos pelos quais escolhemos um ou outro diz muito sobre nós.

O primeiro ídolo de meu pai foi Gylmar dos Santos Neves (1930-2013), goleiro da seleção brasileira que conquistou as duas primeiras Copas do Mundo para o Brasil, em 1958 e 1962. Quando papí (como eu e minhas irmãs o chamamos) iniciou-se nesta idolatria, por volta de seus 14 anos, Gylmar já era campeão paulista pelo Corinthians, não por acaso o time de coração de meu pai até hoje. Não por acaso também, ao ser recrutado na categoria juvenil de um clube de Bernardino de Campos (SP) – onde viria a conhecer minha mãe -, papí foi ser… goleiro! Ganhou a vida assim, sob o apelido de Zague (não confundir com o do Corinthians), até seus 29 anos, quando nasci.

Meu pai conta que não idolatrava Gylmar apenas por seus feitos em campo, que foram numerosos a propósito. “Ele era muito família, bom pai, bom caráter, um campeão em tudo… e considerado um dos homens mais elegantes do futebol”, conta-me papí, que também segue vaidoso até hoje.

Pesquisando sobre a vida de Gylmar, aliás, li uma crônica adorável de Milton Neves contando sobre como o casamento do goleiro sobreviveu a uma oposição de 17 anos do sogro. Teve três filhos com Rachel, com quem ficou por 59 anos, até o fim de sua vida, aos 83.

Já o primeiro ídolo do futebol do outro homem mais importante de minha vida foi Zico, o “galinho de Quintino”. Márcio, meu marido, também diz que não o tinha como ídolo apenas por sua “classe como jogador”. “Pelo caráter e personalidade também. Sempre se mostrou um cara do bem”, justifica uma das pessoas mais “do bem” que conheço.

Eu mesma guardo uma lembrança viva de Zico na Copa de 1982, a primeira a que assisti em minha vida. Em um dos episódios do jogo que mandou aquela seleção (MARAVILHOSA!) para casa, Zico caminha calmamente em direção ao juiz mostrando um enorme rasgo em sua camisa – prova de falta adversária na pequena área digna de penalidade máxima… que o juiz não deu. Nem por isso Zico fez cena. Voltou a jogar, com a classe e o profissionalismo de sempre.

Quanta diferença do grande ídolo brasileiro do futebol dessa geração Milennium!

No jogo da seleção brasileira contra a Costa Rica, na Copa da Rússia, o jogador mais caro do mundo encarou o juiz com ódio ou ironia mais de uma vez, socou a bola numa explosão que lhe valeu cartão amarelo e distribuiu palavrões perfeitamente traduzíveis por leitura labial na TV. Ao final, cena de choro e declaração unilateral em rede social – recusou-se a dar entrevistas.

Para o colega Alexandre Reis, este comportamento infantil nem é o maior defeito de Neymar Jr., mas a omissão política. Para o jornalista, um ídolo deveria usar sua influência para causas maiores, como o fez o seu próprio: Sócrates, mentor da Democracia corintiana e defensor declarado das Eleições Diretas em plena ditadura militar, embora, na vida pessoal, tenha sucumbido ao alcoolismo – uma doença que não se escolhe ter, mas pode-se escolher aprender a controlar.

Eu já não espero tanto. Para mim, tanto Sócrates tinha o direito de escolher como levar sua vida pessoal quanto Neymar o tem de preocupar-se mais em gastar seus milhões em diversões e hábitos caros – que inclui bancar o acompanhamento de seu cabelereireiro e “parças” aonde for – do que com a política brasileira.

O que me preocupa, na verdade, é saber o que leva a atual geração a eleger como ídolo um jogador que tenta forjar penalidades na malandragem, desrespeita a autoridade maior em campo e reage a provocações do adversário com xingamentos e insultos.

Será um indício de que valoriza-se, hoje, o sucesso pelo sucesso pura e simplesmente, não importando a conduta de quem o alcança?

E não me venham justificar o comportamento de Neymar com a grande pressão por resultados que sofre, pois não deve ser diferente da que já pesou sobre os ídolos que o antecederam. E deve ser a mesma – se não maior – sofrida pelo melhor do mundo, Cristiano Ronaldo. Se Neymar não sabe administrá-la com a mesma elegância, ao menos deveria fazê-lo com educação e respeito, pois não se é ídolo impunemente.

Um ídolo inspira uma geração… é seguido, imitado – como meu pai a Gylmar e como eu mesma a meus mestres José Eduardo e Ely Vieitez Lisboa, entre outros.

Se a escolha dos ídolos, sozinha, definissem o caráter de uma geração, eu temeria – e muito – pela que atualmente endeusa Neymar Jr. E isso explicaria muita coisa.

 

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Meu Ofertório

A gratidão é um sentimento tão bom de sentir!

Hoje meus agradecimentos são múltiplos.

Obrigada a Caetano por existir… por ter tido Moreno, Zeca e Tom.

Obrigada a Moreno por ter aceitado a herança leve e diáfana de seu pai… obrigada a Zeca e Tom por saírem a sua imagem e semelhança e ainda assim serem tão únicos.

Obrigada por assimilarem a liberdade de um rebolado, de um beijo masculino no rosto de outro homem, por compartilharem seus dons, que em vocês Deus abençoou com tanta generosidade.

Obrigada por suas vozes tão exatas em meus ouvidos, por seus carismas arrebatadores, seus acordes tão além de tudo.

Obrigada Caetano… mil vezes obrigada por tornar a trilha sonora de minha vida tão rica, prazerosa e poética. Porque poesia transcende e preciso sair de mim de vez em quando para não enlouquecer ou morrer em vida.

Obrigada por todas as suas músicas, mas particularmente hoje por “Sem Lenço, Sem Documento”, “Trem das Cores”, “Oração ao Tempo” e principalmente “Força Estranha”… porque entendo sobre forças estranhas que nos levam a cantar e cantar e cantar… “por isso é que eu canto e não posso parar”.

Obrigada a todos os músicos da minha vida por alcançarem dentro de mim códigos que só a poesia sabe acessar… obrigada por emergi-los e inundar com eles meu consciente, fazendo transbordar emoções até então insuspeitas.

Obrigada Deus pela capacidade de transcender pela arte que coloca dentro de cada um de nós.

E por fim, obrigada meu amor por compartilhar tudo isso comigo.

Amém.

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