Categoria: PALAVREIRA

Crônicas para compartilhar a escrita como expressão da alma e do olhar.

Crônica pra consolar gente grande

Balanço os músculos doridos de biribol abrigada numa rede à beira de uma piscina. Após meses (anos?) de perdas e lutos eu e Márcio nos soltamos, gratos, à rede invisível de novos afetos…

Leio ao celular notícias do mundo lá fora… a tristeza de notícias sobre governantes obtusos, o ódio vexatório destilado sobre a memória de um anjo chorado pelo avô encarcerado…

Mas a esperança também me alcança pelas letras de sambas-enredos cantados na maior folia do mundo.
Cantam Marielles, Dandaras, bodes expiatórios e todo o bom-senso.

Vendeu-se o Brasil num palanque da praça
E ao homem serviu ferro, lodo e mordaça
Vendeu-se o Brasil do sertão até o mangue
E o homem servil verteu lágrimas de sangue”

Penso, afinal, que existe esperança no mundo porque, mais uma vez, os gritos de alerta sobre o absurdo das coisas vêm pela Cultura, que o novo governo quer tanto sufocar.

As histórias “pra ninar gente grande” evocam “a história que a história não conta” nos versos verde-e-rosa de Mangueira, cantados na passarela carioca do samba.

É a manifestação do povo que sustenta a maior festa do mundo… uma porção do povo que convive com exclusões de todos os níveis, imprensada entre fuzis de criminosos (com e sem farda) entregue a poderes paralelos, milícias sem lei…

Há esperança afinal.

E ela também se entranha em mim daqui de nosso oásis rural, com nomes de Márcia, Paula, Adriano, Silvana, Beto, Luís, Tati, Tânia, João Paulo, Mateuses… ecoando amores de mães, pais, irmãos, santos, deuses, Jesus e tudo o mais que rima com afeto.

Penso que enquanto houver voz, amor e amigos sempre haverá esperança.

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Questões do luto

Há várias definições para luto no dicionário. Nenhuma descreve ou prepara para os sentimentos pós morte-velório-sepultamento.

Após testemunhar três perdas consecutivas de meu parceiro de vida – seu pai de câncer, em 2016; o irmão, de septicemia decorrente de diabetes, em 2017; e a mãe, também de sepse pós-cirurgia, no apagar das luzes de 2018 – sei alguma coisa sobre isso.

Quando a vida deve retomar seu curso é que a maior tristeza instala-se com todo o seu peso sobre o enlutado. É preciso remexer os pertences, percorrer os lugares e afetos repletos da “presença” de quem se foi. As lembranças e histórias que cada objeto, local ou pessoa evocam… até então ternas, felizes, acolhedoras… tornam-se opressoras. Parecem gritar a nova ausência.

As três perdas de Márcio foram doloridas, mas a do pai foi amortecida pelo luto solidário do irmão e a consciência de que era preciso cuidar da mãe. Logo em seguida, meu acidente de moto meio que o distraiu das tristezas (com ambas as pernas fraturadas, fiquei meses dependente dele para tudo).

A perda do irmão foi, de longe, a mais difícil. Repentina, implacável, trazendo no bojo muita culpa por não termos notado o quão necessitado de atenção estava o Nando. Mas a força espiritual de dona Jovelina, a mãe, também amorteceu as tristezas. E a evidência de que, mais do que nunca, ela demandaria companhia e atenção constantes distraiu-lhe, mais uma vez, das grandes dores. Ele deixava para chorar comigo, não só para poupar a mãe, mas para não envergonhar-se ante sua grande força.

Agora dona Jovelina também se foi. Os primos, tios e amigos acolhem-no com carinho e afeto incondicionais, mas sempre chega a hora de retomar o tal “curso da vida” para todo mundo – aliás, como deve ser.

É quando o enlutado sente-se separado do resto do mundo por uma divisória invisível. Já escrevi sobre isso: por mais que os afetos vivos entendam e já tenham passado pelo mesmo, é solitária a dor do luto em cada um.

Daí que, mesmo juntos, vivemos, eu e Márcio, lutos diferentes. O meu é temperado de impotência e compaixão. O dele pesado de saudades irremediáveis. Não há palavra que minore, abraço que atenue, afeto que substitua a dor de ausências inexoráveis.

Na casa de dona Jô, cada parede reclama sua “presença/ausência”. É dolorido encarar a grande interrogação que cada objeto e cômodo parece nos esfregar na cara. Para mim é difícil manusear os utensílios domésticos impecavelmente limpos e ariados, que ela não deixava ninguém mais orquestrar (para sua noção muito particular de hospitalidade, era impensável deixar uma visita ter qualquer trabalho em sua casa, mesmo tratando-se da companheira de 21 anos do filho).

Pergunto-me como ela aguentava o calor de fornalha da cozinha mal arejada. Aliás, faltam correntes de ar por toda a grande e velha casa, o que parece intensificar a sensação de sufocamento que vai no íntimo de Márcio.

De sua tristeza emergem, agora, muitas e novas perguntas: Por que a partida dos três tão perto? O que explica este plano de Deus? Estariam todos juntos? Estão todos bem?

Atrás de alguma resposta ou consolo, fomos assistir a palestra em um Centro Espírita. Foi melhor para mim do que para ele, pois as questões de seu luto permanecem. Também fazem parte desta fase pós-morte-velório-sepultamento.

Opino que o melhor remédio é “sair para o mundo”, esforçarmo-nos para retomarmos também o curso de nossas vidas, atualmente em um limbo cinza por conta do desemprego de ambos (mais esta!). Ele aquiesce.

Hoje arrumou-se, penteou o escasso cabelo recém-cortado e perfumou-se. Vestiu o sorriso de sempre – para todos os efeitos e aparências, é um exemplo de resignação – e saiu tratar de providências práticas: certidões, inventário, possibilidade de renda…

Amanhã começamos a remexer guarda-roupas e armários.

Que Deus nos ajude!

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Escuridéo

“Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz”
‘A Via Láctea’, Renato Russo

 

Na rua pobre onde cresci, as crianças não tinham muitos brinquedos, mas os adultos não precisavam se preocupar em prover nosso lazer. Éramos livres para brincar na rua ou em casas de vizinhos. Quando cansávamos das brincadeiras tradicionais, inventávamos novas contando só com nossa imaginação.

Se não me engano, foi a Elaine Reche, vizinha de infância, quem inventou uma a que demos o nome de “Escuridéo” – espécie de “Cabra Cega” adaptada para dentro de casa. Consistia em entrarmos todas (eu, Silvana Thomas e Jenifer Rodrigues) em um quarto escuríssimo pra nos esconder da escolhida para procurar pelas outras no escuro, de olhos vendados. Quem era procurado ficava livre para ir se esquivando da “cegueta”.

Para não sermos pegas, era importante fazer silêncio, pois todos os outros sentidos da vendada se aguçavam com a ausência de visão – audição principalmente.

Marcou-me a dificuldade que tínhamos para vedar a entrada de qualquer luz em um cômodo na preparação para a brincadeira. Não adiantava apenas fecharmos portas e janelas. Era preciso vedar frestas, cobrir luzinhas de rádios-relógios, espelhos…

Ainda assim, logo nossos olhos se adaptavam ao escuro, com a dilatação das pupilas ativada pela ausência de luz, e passávamos a divisar vultos de móveis e companheiras cada vez com mais detalhes.

Chegamos à conclusão de que a escuridão total é praticamente impossível durante o dia.

Os raios de Sol atravessam milhões de quilômetros para nos iluminar e possibilitar a vida na Terra. Mesmo quando estamos abrigados dentro de casa, não conseguimos impedir que sua luz se insinue por qualquer frestinha. Quem só consegue dormir no escuro total sabe como é difícil driblá-la quando amanhece.

No espaço, as luzes de astros e estrelas viajam milhões de anos-luz, fazendo-se ver em nosso céu noturno mesmo estando a muitas vidas humanas de distância.

A luz sempre vence o breu.

Um anjo deve ter me soprado hoje esta lembrança de “Escuridéo” enquanto eu refletia, desesperançosa e amedrontada, sobre nosso momento atual, não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Pessoas se agarram à raiva, ao ressentimento, ao ódio, fechando os olhos à luz dos ensinamentos deixados por Jesus, Buda, Maomé (sim!), Ghandi…

Fecham os olhos também à luz do conhecimento registrado pelos que viveram momentos políticos semelhantes antes de nós. Saber é luz por desvendar o desconhecido, que tememos por impulso e odiamos por extensão, pois nos faz sentir vulneráveis.

Pergunto-me o que Jesus diria se descesse à Terra no presente, vendo usarem o nome de nosso Pai por quem defende a segregação de minorias (ele, que defendeu Maria Madalena); o revide à violência com armamento de civis (ele, que deixou-se acusar para não insuflar a guerra) e a tortura (e foi tão torturado)?

Pelo andar dos ódios, percebo que a escuridão nos engolfará por um tempo, seja qual for o resultado das eleições brasileiras, pois há muitos recusando-se a olhar para a luz de ambos os lados.

Mas o  anjo me conforta com a memória de nossa brincadeira, com certeza para lembrar-me que, por mais que vendemos nossos olhos, tapemos frestas e fechemos portas, a luz sempre vence a escuridão no devido tempo.

Que assim seja então.

Deus e nossos anjos seguirão nos iluminando na longa noite que se aproxima. Que saibamos deixar suas luzes entrarem (é uma decisão interna).

#ódionão

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Paz! (Coexistir é preciso)

“O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro”.

Sempre achei esta frase de Saramago sábia e me pautei por ela em pleitos anteriores. Ultimamente, porém, ante o crescimento de discursos de intolerância e preconceitos, apavorei-me! Passei a me manifestar publicamente achando que era meu dever cidadão.

Que pretensão a minha!

Não mudei a opinião de ninguém e perdi amigos… pessoas que, mesmo tendo pontos de vista diferentes, querem o mesmo que eu (ainda que algumas o desejem só para seu grupo quando deveriam desejar para todos): uma boa vida… melhor, ao menos, que a que temos hoje.

Se eu ou elas estamos errados sobre como conseguir isso é a história que vai dizer, não eu… ou elas. Aliás, se queremos as mesmas coisas nem deveria existir essa distância – nós… eles.

Então, faço um mea culpa: eu deveria estar desde o começo me manifestando a favor da paz e não contra a guerra. Estar falando de boas propostas e não criticando as ruins. E, lembrando que ninguém tem a verdade absoluta sobre o que é bom ou ruim, volto à antiga isenção.

Nossos destinos serão como a maioria decidir, como convém numa democracia (que continuemos vivendo em uma!). E tentemos coexistir!

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Para a Lu, em seu aniversário

Intensa e cheia de vida

Por volta da época em que o ônibus espacial Challenger, da NASA, explodiu, e em que reportagens do Jornal Nacional incensavam os “fiscais do Sarney”, encontrei neste mundo minha irmã do coração.

Em um dos primeiros dias de aula no 2º colegial F, numa escola estadual de Ribeirão Preto (SP), eu já estava instalada numa carteira próxima ao fundão quando a vi entrar. Tinha o cabelo de um tom castanho aloirado incomum entre nós, a pele branquíssima e olhos verdes. A calça de abrigo cinza clara revelava uma magreza sem curvas, quase como a de um menino, não fossem os seios fartos, mal disfarçados pela camiseta larga. Chamou primeiro minha atenção a expressão de seu rosto: um misto de desafio e indiferença.

Sentou-se justo atrás de mim e logo puxou conversa. Fiquei levemente surpresa e muito grata – as pessoas não puxavam conversa comigo.

Não demorou a se mostrar uma pessoa cheia de atitude, opiniões e ideias originais – totalmente “fora da caixa”, pra usar uma expressão de hoje. Sua desenvoltura em se comunicar, usando expressões e gírias exatas, de um humor inteligente, encantou a todos. Em poucos meses, já era uma figura popular e querida.

Eu, que vinha de um longo histórico de impopularidade, curtia enquanto podia sua companhia, esperando a hora em que seria expulsa também do “Clube da Lu” – estava acostumada a ser excluída dos grupos tão logo detectavam minha inabilidade social.

Mas nunca aconteceu.

Esta é uma das coisas lindas na Luciana e a razão de nossa amizade durar mais de 30 anos: sempre teve um coração disponível e amoroso. Tem afeto para dar e vender e absolutamente nenhum tipo de preconceito. Nasceu aceitando todo tipo de diferença.

Já naquela época tinha muita facilidade de se apaixonar… por garotos, amizades, músicas, filmes, causas…

Também decepcionava-se e sofria com a mesma intensidade – nunca foi de meios termos.

Irmãs

Cativante, conquistou nossa família inteira sem esforço, apenas sendo! Morou em nossa casa duas vezes, antes e depois de ir encontrar a mãe em Maceió, pois havia fugido, apenas poucos meses após nos conhecermos, da casa do pai, com quem foi morar após o divórcio deles.

Trocou um quarto só seu em um apartamento grande e confortável para dormir no chão de meu quartículo, em um cubículo de Cohab modesto. Comeu nossa humilde comida e usou nosso apertado banheiro como se sempre tivesse sido uma de nós.

Até hoje a Lu chama minha mãe de “tia” e meu pai de “papi”, e eles a ela de “filha”. Em minha colação de grau em Jornalismo, ela estava com minha família na plateia, na merecida posição de “irmã do coração”.

Quando me separei de meu marido, uma vez, cercou-me de atenções e carinho mesmo de longe, gastando ligações de celular (não sei se tem ideia do quanto isso foi importante).

Achei que nossa amizade esfriaria com o tempo e a distância.

Também nunca aconteceu… graças a ela.

Em um tempo sem computadores e e-mails, escrevia cartas periodicamente, nos surpreendia vez ou outra com uma ligação interurbana e nunca esquecia datas e eventos importantes. Chegava a me dar broncas homéricas (merecidas) quando era eu quem passava muito tempo sem dar notícias.

Estilosa!

Não sei se ela sabe que sua amizade sempre me encheu de orgulho e alguma vaidade (admito!), pois sempre a achei – diferente de mim – linda, interessante, engraçada, muito estilosa e cheia de vida, coragem e histórias. Acumula um monte delas viajando para diferentes partes do mundo (inveja!), sempre em busca de conexões… com a natureza e pessoas de verdade (fotos aí embaixo pra provar).

E é tão talentosa! Tudo o que se propõe a fazer, faz bem – fotos, planos de marketing, design de interiores, look de moda…

Temos em comum o signo de Virgem e uma tendência a nos deprimir quando a vida se torna real demais – apesar do elemento Terra, nossas cabeças sempre estiveram no ar, dicotomia que nos exige, às vezes, uma flexibilidade emocional além de nossas forças.

Por falar em signo, hoje é seu aniversário e, em vez de fazer o tradicional telefonema de congratulações, decidi colocar no “papel” os motivos pelos quais ela consta na lista de “coisas pelas quais ser grata em minha vida”, encomendada por meu terapeuta.

Tive que resumir, pois não caberia nem mesmo no espaço infinito da internet o tamanho de minha gratidão pela Lu existir e ter me eleito, contra todas as probabilidades, entre seus afetos.

Feliz aniversário minha irmã do coração!

Gratidão eterna!

 

 “Cheia de vida e histórias. Acumula um monte delas viajando para diferentes partes do mundo, sempre em busca de conexões… com a natureza e pessoas de verdade”


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O coração de mamãe

Minha mãezinha tem um coração enorme, que no último ano voltou a nos dar sustos.

Neste sábado seu músculo coronário reclamou atenção por meio de dores desde o meio do peito até o ombro e braço esquerdos.

Fui encontrá-la na UPA da Vila Xavier, em Araraquara – cidade onde mora com minha irmã, tendo meu pai de irascível enfermeiro.

Soube que, mesmo reclamão e sofrendo, seu coração não deixou de preocupar-se com os seus. Enquanto eu não chegava de Ribeirão, fez meu pai deixá-la sozinha na unidade de saúde para ir preparar o almoço de minha irmã, que chegaria do trabalho.

Quando cheguei ela já estava medicada e sem dor, aguardando resultados de exames. Passou a gastar seu tempo a me perguntar como vai minha vida, como vão todos em Ribeirão e em Jaú (onde meu marido também está a cuidar de minha sogra) e a ruminar preocupações com seus gatos, que meu pai, já em casa, não saberia alimentar.

“Mamãe, vamos fazer assim: primeiro vamos cuidar da senhora. Depois se pensa nos gatos, que têm sete vidas”, disse eu.

Conformou-se.

E puxava papo, ora com paciente de uma cama vizinha, ora com o acompanhante de outro, sempre querendo se inteirar das pessoas.

Logo sua antena de generosidade sintoniza um paciente sem acompanhante que reclamava de fome, mas ainda não estava autorizado a deixar a unidade nem por um instante.

“Vai atrás de um salgado para ele, filha”, ordenou-me.

Depois de me informar com a enfermeira se era permitido, fui.

Mamãe sempre foi assim, de pensar demais nos outros, às vezes a ponto de esquecer de si. E sempre cheia de receios de incomodar. Se meu telefonema não a tivesse flagrado na UPA, eu sequer saberia que sofria dores. Tem pudores de avisar.

Quando me viu entrando na sala de observação, indignou-se: “Você veio, filha!” (em tom de censura).

Fui, mamãe. Meu coração sempre irá aonde o seu precisar do meu.

 

P.S. Ela já está bem e em casa.

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