‘Rebecca’, ou a arte de contar histórias

por Carmen Cagno

Joan Fontaine e Dame Judith Anderson no original de 1940 e Kristin Scott Thomas com Lily James na de 2020

Produzir remakes de grandes clássicos é um perigo. No caso da nova versão de “Rebecca”, lançada em outubro deste ano, trata-se de um verdadeiro desastre. Na modesta opinião de quem sempre se curvou diante do altar do grande Alfred Hitchcock, o diretor da nova versão, Ben Wheatley (“Free Fire”, “No Topo do Poder”), deveria, a partir de agora, subir a escadaria da Lapa de joelhos diariamente e bater no peito três vezes ao dia, pedindo perdão ao grande mestre do suspense pelo pecado cometido.     Sem contar a dívida eterna para com os verdadeiros amantes do cinema que tiveram que engolir essa bobagem que mais se assemelha a uma comédia romântica de quinta (afinal, existem comédias românticas boas).

Quem teve o prazer de assistir à versão de 1940 sabe do que estou falando. Além da história de Daphne du Maurier (1938), na qual o filme se baseia, “Rebecca, a mulher inesquecível” original é uma obra prima, com indicação aos Oscars de melhor filme, melhor diretor (Alfred Hitchcok), melhor ator (Lawrence Olivier), melhor atriz (Joan Fontaine), melhor atriz coadjuvante (Judith Anderson), melhor roteiro, efeitos especiais, edição, trilha sonora e fotografia. Levou os prêmios de melhor filme e fotografia em PB. Poderia ter levado todos.

Primeiro projeto norte-americano de Hitchcock, produzido por outra fera, David O. Selznick, trata-se de um suspense com tintas góticas, ambientado na Inglaterra e gira em torno da relação entre um riquíssimo herdeiro e uma garota simples e ingênua, atormentada pelo fantasma da antiga esposa do protagonista, morta em condições misteriosas. O filme se passa dentro dos limites da mansão Manderley – que a genialidade do diretor transformou em mais um personagem. É esse lugar imenso, ostensivo, sombrio um dos elementos fundamentais como cenário da história.

Com roteiro impecável de Michael Hogan e Joan Harrison assentado sobre a belíssima fotografia em branco e preto de George Barnes, com luz e enquadramentos que intensificam o clima de suspense, e trilha de Franz Waxman, o filme conta com algumas vigas de sustentação que constroem seu preciosismo. A principal delas, lógico, é a direção do mestre do suspense, que transforma Rebecca, a personagem fantasma, na verdadeira protagonista, através da qual cresce aos poucos o clima de tensão e mistério. Hitchcock constrói essa heroína invisível, idealizada e aparentemente indestrutível através de efeitos contundentes: os closes em seus monogramas espalhados por todos os objetos da casa, a câmera passeando obsessiva por suas roupas, seu quarto, seu perfume, suas lembranças e até seu cachorro, e os relatos dos personagens sobre a beleza e a personalidade da morta.

A frágil personagem de Fontaine, assim como nós, pobres espectadores, vamos sendo aos poucos conduzidos às dúvidas e ao temor em relação a essa mulher que dá nome ao filme, embora não apareça em nenhuma cena. O fantasma, o espectro, o intangível, portanto, o perfeito.

A grande alavanca para essa idealização, sem dúvida, é a governanta, magistralmente interpretada por Anderson – cruel, doentia, assustadora, ela mantém vivo e soberano o espectro da antiga patroa em cada cômodo da casa, aterrorizando crescentemente a frágil e insegura protagonista vivida por Fontaine.

A aparente indiferença e arrogância de Max de Winter, o viúvo de Rebecca, interpretado pelo grande Olivier, que vaga pela propriedade num silêncio atormentado, corrobora o clima de incerteza e tensão da jovem e ingênua personagem de Joan Fontaine, que não por acaso, não tem nome na história – falta-lhe identidade, personalidade, força, diante do turbilhão de Rebecca.

A atuação de Fontaine empresta a sua personagem uma sensação de enorme fragilidade. Seu corpo se curva, encolhe-se, seu rosto em primeiríssimo plano estampa o medo e a orfandade diante do poder da outra. Dizem as más línguas, inclusive, que a interpretação de Joan Fontaine foi “auxiliada” por Olivier, que queria para o papel sua então mulher, Vivien Leigh. Contrariado, teria fustigado a protagonista o tempo todo – para gáudio do diretor, que nunca se importou muito com o bem estar dos seus atores.

Além disso, o filme conta com a excelente performance do amante de Rebecca, interpretado pelo impagável George Sanders e seu cinismo sedutor e cafajeste que vai semeando dúvidas crescentes ao longo da história.

Muito bem. Encantados com as lembranças dessa obra prima, 80 anos depois somos apresentados à nova versão da história. Inteiramente apoiado no roteiro original, o filme ainda assim é um grande desastre, a começar pela direção, que não imprime em nenhuma cena a tensão e o suspense necessários. Não explora as dúvidas, a dramaticidade, a intensidade gótica da versão original.

Lawrence Olivier e Fontaine na versão de Hitchcock, e Armie Hammer com Lily James na de 2020: quanta diferença!

Wheatley limita-se a narrar o roteiro original, esquecendo-se de que, mais importante que a história, é a forma de contá-la. O resultado é um filme boboca, sem envergadura, pobre e mal feito. Com certeza, poucos diretores de cinema se igualam ao mestre inglês na arte da direção. Mas a impressão que se tem é que o atual diretor nem tentou fazer um bom trabalho. Além de aparentemente não ter exigido nada dos atores, não teve o cuidado de escolher um bom diretor de fotografia, ignorando iluminação e enquadramentos e desprezou até a direção de arte (vide o horrendo figurino da protagonista, que parece ter sido arrematado numa banca de liquidação).

A atuação de Lily James é fraca e inexpressiva. A atriz está longe de envergar o “aplomb” e a elegância discreta de Fontaine, além de não transmitir em nenhum momento a angústia indispensável à construção da personagem. Parece mais uma garota perdidinha e insatisfeita num filme de Sessão da Tarde. Armie Hammer jamais chegará aos pés de Olivier. Bonitinho, mas inexpressivo, não consegue emprestar a seu Max, em nenhum momento, a personalidade angustiada e misteriosa do protagonista lutando contra seus demônios e imprimindo à história a carga de mistério necessária.

E mesmo a excelente Kristin Scott Thomas não dá conta da perturbadora Mrs. Danver – é bonita e doce demais pra carregar personagem tão sombrio. Ou seja, tudo indica que o projeto de Wheatley foi muito mais comercial do que artístico. Poderia ter lançado mão de atores muito mais talentosos e competentes para interpretar os papéis principais e, sem dúvida, utilizado os infinitos recursos técnicos de que o cinema dispõe atualmente em favor de um resultado, no mínimo, mais sério. E mesmo nas raras tentativas de emprestar alguma dramaticidade à determinada cena, como no baile acontecido na mansão, o resultado é banal e forçado.

As grandes histórias, no cinema ou não, são aquelas que nos encantam, afligem, assustam, redimem e ajudam a reinventar o frio cotidiano da vida. Atrás delas estão os grandes contadores de histórias, que com talento, dedicação e afinco extrapolam os limites da realidade e nos permitem experimentar a dimensão da fantasia, justificando a vida através da arte.

Rebecca contada por Hitchcok é pura arte.

Rebecca contada por Wheatley não é nada.

 

 

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2 comentários

    • Érica Amêndola em 11 de novembro de 2020 às 23:23
    • Responder

    Jesusmariajosé!!! Que texto bem construído, justificado, apaixonado e, de quebra, sabedor do cinema e suas entranhas!!! Silvia Pereira, Carmem Cagno abrilhantou o Palavreiras de hoje!!! Ameeiii!!!

    • msuplicy em 11 de novembro de 2020 às 17:32
    • Responder

    Dei o nome de Rebecca a minha primeira cachorra de tão impressionada que fiquei ao assistir a primeira versão desse filme. Queria apenas que ela fosse tão “inesquecível” quanto a verdadeira protagonista da estória, que fosse onipresente na minha vida, mas nunca desejei que ela se tornasse um fantasma aterrorizante para quem viesse a seguir. E o destino quis que eu conseguisse. Ela durou apenas 5 anos, vitimada por uma leucemia. Minha segunda cachorra, tão tímida e assustadiça quanto a segunda esposa, sofreu as duras consequências da minha idolatria pela Rebecca. Soube, no entanto, ocupar aos poucos um lugar precioso no meu coração. Eu a chamava de minha filósofa canina preferida porque ela me forçava a refletir sobre a importância de amar sem perder a própria identidade.

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