Silvia Pereira

Jornalista com 30 anos de experiência em redações e blogueira de cinema, séries e literatura; Silvia Pereira adora ouvir, ler, assistir e - principalmente - escrever histórias.

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A luta de Jô

Ela perdeu o marido no mesmo ano em que a nora – esta que vos escreve – acidentou-se gravemente, exigindo cuidados integrais de seu caçula.

No ano seguinte, sepultou o filho mais velho um dia antes de seu aniversário de 81 anos.

Neste fim de ano, enquanto todos preparam-se para celebrar as festas de Natal e Ano Novo, é a leonina Jô quem luta, novamente como uma leoa, pela própria vida.

Suportou uma cirurgia delicada de 7 horas para receber a prótese feita sob medida para seu aneurisma da aorta.

Saiu da mesa de operações sem sensibilidade nas pernas, com os rins parados, dores constantes nas costas e enjoando ante qualquer comida. 

Suportou hemodiálises e quedas de pressão sem queixas. 

No dia em que receberia alta, veio o exame que acusou infecções por duas bactérias e a volta para a UTI.

Ainda assim continuou forçando-se a se alimentar e a tentar fazer cara boa para seu caçula, que não faz outra coisa nos últimos dias senão cuidar dela, velar seu sono, animá-la em seu despertar.

Foi ele quem primeiro notou sua respiração acelerada durante uma soneca. Alertados, os enfermeiros auscultaram e confirmaram a taquicardia (140 batimentos por minuto).

Depois vieram a confusão mental, mais quedas de pressão, tentativas dela de livrar-se das agulhas que invadem as veias frágeis para conduzir medicamentos…

Foi amarrada à cama “para seu próprio bem”.

A visão dela frágil, confusa, tentando livrar-se das amarras – lutando sempre! – foi demais para a fé de Márcio. Pela primeira vez, desde o início de suas perdas, questionou Deus. Desafiou-O, entre soluços, a transferir todo aquele sofrimento para si.

E eu, impotente, pedindo que seu sofrimento seja o meu…

É como sabemos que amamos alguém… quando a imagem da dor no outro é tão grande que a queremos nossa… só nossa.

Detectada uma terceira infecção, foi preciso entubá-la.

As chances dela sobreviver são pequenas, mas nos agarramos, novamente, à fé e oramos, oramos, oramos.

Enquanto isso, leoa, a leonina Jô segue lutando.

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Escuridéo

“Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz”
‘A Via Láctea’, Renato Russo

 

Na rua pobre onde cresci, as crianças não tinham muitos brinquedos, mas os adultos não precisavam se preocupar em prover nosso lazer. Éramos livres para brincar na rua ou em casas de vizinhos. Quando cansávamos das brincadeiras tradicionais, inventávamos novas contando só com nossa imaginação.

Se não me engano, foi a Elaine Reche, vizinha de infância, quem inventou uma a que demos o nome de “Escuridéo” – espécie de “Cabra Cega” adaptada para dentro de casa. Consistia em entrarmos todas (eu, Silvana Thomas e Jenifer Rodrigues) em um quarto escuríssimo pra nos esconder da escolhida para procurar pelas outras no escuro, de olhos vendados. Quem era procurado ficava livre para ir se esquivando da “cegueta”.

Para não sermos pegas, era importante fazer silêncio, pois todos os outros sentidos da vendada se aguçavam com a ausência de visão – audição principalmente.

Marcou-me a dificuldade que tínhamos para vedar a entrada de qualquer luz em um cômodo na preparação para a brincadeira. Não adiantava apenas fecharmos portas e janelas. Era preciso vedar frestas, cobrir luzinhas de rádios-relógios, espelhos…

Ainda assim, logo nossos olhos se adaptavam ao escuro, com a dilatação das pupilas ativada pela ausência de luz, e passávamos a divisar vultos de móveis e companheiras cada vez com mais detalhes.

Chegamos à conclusão de que a escuridão total é praticamente impossível durante o dia.

Os raios de Sol atravessam milhões de quilômetros para nos iluminar e possibilitar a vida na Terra. Mesmo quando estamos abrigados dentro de casa, não conseguimos impedir que sua luz se insinue por qualquer frestinha. Quem só consegue dormir no escuro total sabe como é difícil driblá-la quando amanhece.

No espaço, as luzes de astros e estrelas viajam milhões de anos-luz, fazendo-se ver em nosso céu noturno mesmo estando a muitas vidas humanas de distância.

A luz sempre vence o breu.

Um anjo deve ter me soprado hoje esta lembrança de “Escuridéo” enquanto eu refletia, desesperançosa e amedrontada, sobre nosso momento atual, não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Pessoas se agarram à raiva, ao ressentimento, ao ódio, fechando os olhos à luz dos ensinamentos deixados por Jesus, Buda, Maomé (sim!), Ghandi…

Fecham os olhos também à luz do conhecimento registrado pelos que viveram momentos políticos semelhantes antes de nós. Saber é luz por desvendar o desconhecido, que tememos por impulso e odiamos por extensão, pois nos faz sentir vulneráveis.

Pergunto-me o que Jesus diria se descesse à Terra no presente, vendo usarem o nome de nosso Pai por quem defende a segregação de minorias (ele, que defendeu Maria Madalena); o revide à violência com armamento de civis (ele, que deixou-se acusar para não insuflar a guerra) e a tortura (e foi tão torturado)?

Pelo andar dos ódios, percebo que a escuridão nos engolfará por um tempo, seja qual for o resultado das eleições brasileiras, pois há muitos recusando-se a olhar para a luz de ambos os lados.

Mas o  anjo me conforta com a memória de nossa brincadeira, com certeza para lembrar-me que, por mais que vendemos nossos olhos, tapemos frestas e fechemos portas, a luz sempre vence a escuridão no devido tempo.

Que assim seja então.

Deus e nossos anjos seguirão nos iluminando na longa noite que se aproxima. Que saibamos deixar suas luzes entrarem (é uma decisão interna).

#ódionão

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Diário de Viagem: Granada – II

“Sete dias em apenas uma cidade?”, questionam muitos conhecidos sobre minha primeira viagem internacional. A série “Diário de Viagem: Granada”, a que dou continuidade com esta postagem, vai explicar porque sete dias ainda não foram suficientes para eu conhecer toda a beleza e história da capital da Andaluzia, na Espanha. Estava devendo esses relatos a muitos amigos e leitores. Espero que apreciem.

 

Cheguei a Granada em uma manhã da Primavera europeia.

Minha primeira visão da capital Andaluza, emoldurada pela janela do ônibus que tomei em Madri – deve-se desembarcar no aeroporto Madrid-Barajas, o mais próximo -, foi dos picos brancos de Sierra Nevada, o maciço montanhoso considerado Reserva da Biosfera pela Unesco.  Um dos cartões postais da província, a serra tem seus picos nevados o ano todo, razão pela qual abriga um pueblo (povoado) com estação de esqui.

Por ter reservado três dias para conhecer um pouco da capital espanhola, já cheguei com o olhar encantado pelas belezas arquitetônicas, museus e parques madrilenhos. Mas nada me preparou para a imersão que vivenciaria na secular Granada, fundada pelos mouros na Idade Média e tomada por reis católicos em 1492, mas cujos primeiros vestígios arqueológicos datam do século VII a.C..

Entendi logo porque meus anfitriões – brasileiros que escolheram Granada para curtir sua aposentadoria – decidiram não ter carro na cidade de 234 mil habitantes e 88 km² de área.

O metrô de superfície é limpo, eficiente e fácil de usar. Estacionadas por vários locais públicos, vê-se bicicletas amarelas de um serviço de aluguel por aplicativo, que podem ser usadas e deixadas em qualquer outro ponto para o próximo usuário. Ciclovias acompanham as largas calçadas das principais artérias da cidade.

Não há engarrafamento no trânsito e o tráfego, até nas vias mais movimentadas, flui contínuo e silencioso.

A paisagem urbana conjuga arquitetura milenar e contemporânea mesmo na parte moderna da cidade. Mas o que me tirou o fôlego mesmo foi a primeira visita ao Centro Histórico, que guarda vestígios da ocupação moura em edificações preservadas por séculos.

 

Centro histórico

Margem do rio Genil

Granada foi edificada na ampla depressão formada pelo rio Genil, para o qual confluem os rios Darro e Beiro.

Nosso caminho a pé até o Centro Histórico se deu a partir do Genil, margeado por calçadas no nível mais alto e, em alguns trechos, por passarelas de pedestres no nível da água, às quais se tem acesso por escadas.

Naquela primavera, a passarela estava emoldurada por flores de todos os matizes na maior parte do caminho.

Para chegar ao Centro, viramos na Acera Del Darro, passando pela Fonte de Las Granadas e seguimos pela Carrera de Las Virgens, que passa pela fachada da linda Igreja da Virgen de Las Angustias.

Chegamos por ela à Calle de los Reyes, que percorremos por um pequeno trecho, passando pela Plaza Del Carmen, onde fica a Prefeitura, para entrarmos por um beco que levou à Plaza Bib-Rambla, que concentra lojinhas e quiosques de vendas de suvenires.

Plaza Bib-Rambla

Dali meus anfitriões me conduziram por outro beco, onde tive meu primeiro grande choque de encantamento na cidade. Em um instante, estava apreciando lenços em uma vitrine. No outro, ao me virar, quedava boquiaberta ante a fachada grandiosa da Catedral de La Encarnacion, construída no século 14, após a tomada da cidade pelos reis Felipe de Castela e Isabela la Catolica.

Fachada da Catedral de la Encarnacion

Com projeto assinado pelo arquiteto Diego de Siloé e contribuições dos arquitetos e artistas Enrique Egas e Alonso Cano, o templo católico representa o Renascimento Espanhol. Particularmente, o entendi como uma resposta católica à opulência da cultura moura, cujos vestígios ainda podem ser encontrados até hoje por toda Granada, ainda habitada também por muçulmanos – pelas ruas, em meio a turistas, vê-se mulheres de véu na cabeça trajando trajes caríssimos e joias idem.

Interior da Catedral de la Encarnacion

A catedral valeu um tour guiado por seu interior suntuosíssimo (5 euros a entrada), que permite a apreciação de vários altares com esculturas e pinturas da mais rica arte sacra do período.

O tour termina em uma lojinha de suvenires com saída na direção da Gran Via de Colón, a avenida principal do Centro. Por ela voltamos à praça Isabela La Catolica e seguimos pela Calle de los Reyes até a Plaza Nueva, que abriga o edifício (também de arquitetura secular) Palacio de La Justicia, entre outras edificações antigas ocupadas por pequenos comércios.

Palacio de la Justicia

 

“A rua mais linda do mundo”

Hora de entrar na que meu anfitrião, Eduardo, considera “a rua mais linda do mundo”: Carrera Del Darro, que, obviamente, margeia o rio Darro.

Carrera del Darro, “a rua mais linda do mundo”, segundo Eduardo.

Igreja de São Paulo e São Pedro Apóstolos

Caminhamos a pé por seu leito carroçável de pedras, ladeado, no caminho, por mais edificações do período medieval. Entre elas, a Igreja de São Pedro e São Paulo Apóstolo.

Por ela chegamos ao Paseo de los Tristes – assim chamado por ter sido, no passado, o caminho para o cemitério – de onde se vislumbra, de um lado, no alto de uma montanha, a fortaleza de Alhambra (sobre a qual escreverei numa próxima postagem). De outro, as ruelas medievais do bairro Albaicín, de origem cigana, que também conduzem montanha acima.

Andar pelas ruelas estreitas e sinuosas do bairro dá a deliciosa sensação de imersão em tempos antigos, com seu casario modesto conservado, a despeito das lojinhas de artigos atuais que encontramos pelo caminho.

No ponto mais alto do bairro está o Mirador de San Nicolás, de onde turistas podem tirar fotos panorâmicas maravilhosas da cidade e, particularmente, da fortaleza de Alhambra, que nos observa agora do mesmo nível, do outro lado do vale do Darro.

Vista do Mirante de San Nicolás

Ao longe, a silhueta da Sierra Nevada, que nos espreita de qualquer canto da cidade.

Descobri que mirantes, talvez por nos colocarem mais próximos do céu, são bons lugares para nos sentirmos gratos pela vida!

 

Galeria
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Paz! (Coexistir é preciso)

“O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro”.

Sempre achei esta frase de Saramago sábia e me pautei por ela em pleitos anteriores. Ultimamente, porém, ante o crescimento de discursos de intolerância e preconceitos, apavorei-me! Passei a me manifestar publicamente achando que era meu dever cidadão.

Que pretensão a minha!

Não mudei a opinião de ninguém e perdi amigos… pessoas que, mesmo tendo pontos de vista diferentes, querem o mesmo que eu (ainda que algumas o desejem só para seu grupo quando deveriam desejar para todos): uma boa vida… melhor, ao menos, que a que temos hoje.

Se eu ou elas estamos errados sobre como conseguir isso é a história que vai dizer, não eu… ou elas. Aliás, se queremos as mesmas coisas nem deveria existir essa distância – nós… eles.

Então, faço um mea culpa: eu deveria estar desde o começo me manifestando a favor da paz e não contra a guerra. Estar falando de boas propostas e não criticando as ruins. E, lembrando que ninguém tem a verdade absoluta sobre o que é bom ou ruim, volto à antiga isenção.

Nossos destinos serão como a maioria decidir, como convém numa democracia (que continuemos vivendo em uma!). E tentemos coexistir!

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Para a Lu, em seu aniversário

Intensa e cheia de vida

Por volta da época em que o ônibus espacial Challenger, da NASA, explodiu, e em que reportagens do Jornal Nacional incensavam os “fiscais do Sarney”, encontrei neste mundo minha irmã do coração.

Em um dos primeiros dias de aula no 2º colegial F, numa escola estadual de Ribeirão Preto (SP), eu já estava instalada numa carteira próxima ao fundão quando a vi entrar. Tinha o cabelo de um tom castanho aloirado incomum entre nós, a pele branquíssima e olhos verdes. A calça de abrigo cinza clara revelava uma magreza sem curvas, quase como a de um menino, não fossem os seios fartos, mal disfarçados pela camiseta larga. Chamou primeiro minha atenção a expressão de seu rosto: um misto de desafio e indiferença.

Sentou-se justo atrás de mim e logo puxou conversa. Fiquei levemente surpresa e muito grata – as pessoas não puxavam conversa comigo.

Não demorou a se mostrar uma pessoa cheia de atitude, opiniões e ideias originais – totalmente “fora da caixa”, pra usar uma expressão de hoje. Sua desenvoltura em se comunicar, usando expressões e gírias exatas, de um humor inteligente, encantou a todos. Em poucos meses, já era uma figura popular e querida.

Eu, que vinha de um longo histórico de impopularidade, curtia enquanto podia sua companhia, esperando a hora em que seria expulsa também do “Clube da Lu” – estava acostumada a ser excluída dos grupos tão logo detectavam minha inabilidade social.

Mas nunca aconteceu.

Esta é uma das coisas lindas na Luciana e a razão de nossa amizade durar mais de 30 anos: sempre teve um coração disponível e amoroso. Tem afeto para dar e vender e absolutamente nenhum tipo de preconceito. Nasceu aceitando todo tipo de diferença.

Já naquela época tinha muita facilidade de se apaixonar… por garotos, amizades, músicas, filmes, causas…

Também decepcionava-se e sofria com a mesma intensidade – nunca foi de meios termos.

Irmãs

Cativante, conquistou nossa família inteira sem esforço, apenas sendo! Morou em nossa casa duas vezes, antes e depois de ir encontrar a mãe em Maceió, pois havia fugido, apenas poucos meses após nos conhecermos, da casa do pai, com quem foi morar após o divórcio deles.

Trocou um quarto só seu em um apartamento grande e confortável para dormir no chão de meu quartículo, em um cubículo de Cohab modesto. Comeu nossa humilde comida e usou nosso apertado banheiro como se sempre tivesse sido uma de nós.

Até hoje a Lu chama minha mãe de “tia” e meu pai de “papi”, e eles a ela de “filha”. Em minha colação de grau em Jornalismo, ela estava com minha família na plateia, na merecida posição de “irmã do coração”.

Quando me separei de meu marido, uma vez, cercou-me de atenções e carinho mesmo de longe, gastando ligações de celular (não sei se tem ideia do quanto isso foi importante).

Achei que nossa amizade esfriaria com o tempo e a distância.

Também nunca aconteceu… graças a ela.

Em um tempo sem computadores e e-mails, escrevia cartas periodicamente, nos surpreendia vez ou outra com uma ligação interurbana e nunca esquecia datas e eventos importantes. Chegava a me dar broncas homéricas (merecidas) quando era eu quem passava muito tempo sem dar notícias.

Estilosa!

Não sei se ela sabe que sua amizade sempre me encheu de orgulho e alguma vaidade (admito!), pois sempre a achei – diferente de mim – linda, interessante, engraçada, muito estilosa e cheia de vida, coragem e histórias. Acumula um monte delas viajando para diferentes partes do mundo (inveja!), sempre em busca de conexões… com a natureza e pessoas de verdade (fotos aí embaixo pra provar).

E é tão talentosa! Tudo o que se propõe a fazer, faz bem – fotos, planos de marketing, design de interiores, look de moda…

Temos em comum o signo de Virgem e uma tendência a nos deprimir quando a vida se torna real demais – apesar do elemento Terra, nossas cabeças sempre estiveram no ar, dicotomia que nos exige, às vezes, uma flexibilidade emocional além de nossas forças.

Por falar em signo, hoje é seu aniversário e, em vez de fazer o tradicional telefonema de congratulações, decidi colocar no “papel” os motivos pelos quais ela consta na lista de “coisas pelas quais ser grata em minha vida”, encomendada por meu terapeuta.

Tive que resumir, pois não caberia nem mesmo no espaço infinito da internet o tamanho de minha gratidão pela Lu existir e ter me eleito, contra todas as probabilidades, entre seus afetos.

Feliz aniversário minha irmã do coração!

Gratidão eterna!

 

 “Cheia de vida e histórias. Acumula um monte delas viajando para diferentes partes do mundo, sempre em busca de conexões… com a natureza e pessoas de verdade”


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O coração de mamãe

Minha mãezinha tem um coração enorme, que no último ano voltou a nos dar sustos.

Neste sábado seu músculo coronário reclamou atenção por meio de dores desde o meio do peito até o ombro e braço esquerdos.

Fui encontrá-la na UPA da Vila Xavier, em Araraquara – cidade onde mora com minha irmã, tendo meu pai de irascível enfermeiro.

Soube que, mesmo reclamão e sofrendo, seu coração não deixou de preocupar-se com os seus. Enquanto eu não chegava de Ribeirão, fez meu pai deixá-la sozinha na unidade de saúde para ir preparar o almoço de minha irmã, que chegaria do trabalho.

Quando cheguei ela já estava medicada e sem dor, aguardando resultados de exames. Passou a gastar seu tempo a me perguntar como vai minha vida, como vão todos em Ribeirão e em Jaú (onde meu marido também está a cuidar de minha sogra) e a ruminar preocupações com seus gatos, que meu pai, já em casa, não saberia alimentar.

“Mamãe, vamos fazer assim: primeiro vamos cuidar da senhora. Depois se pensa nos gatos, que têm sete vidas”, disse eu.

Conformou-se.

E puxava papo, ora com paciente de uma cama vizinha, ora com o acompanhante de outro, sempre querendo se inteirar das pessoas.

Logo sua antena de generosidade sintoniza um paciente sem acompanhante que reclamava de fome, mas ainda não estava autorizado a deixar a unidade nem por um instante.

“Vai atrás de um salgado para ele, filha”, ordenou-me.

Depois de me informar com a enfermeira se era permitido, fui.

Mamãe sempre foi assim, de pensar demais nos outros, às vezes a ponto de esquecer de si. E sempre cheia de receios de incomodar. Se meu telefonema não a tivesse flagrado na UPA, eu sequer saberia que sofria dores. Tem pudores de avisar.

Quando me viu entrando na sala de observação, indignou-se: “Você veio, filha!” (em tom de censura).

Fui, mamãe. Meu coração sempre irá aonde o seu precisar do meu.

 

P.S. Ela já está bem e em casa.

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Voz a quem pariu

A garota de 20 anos estava escondida no quarto de casal da madrinha, enquanto esta conversava com o pai do bebê que crescia em seu útero. Só se lembra do homem por quem era apaixonada dizer, sem gaguejar, que não queria aquela criança… não assumiria. Simples assim.

Em outro dia foi a mãe dele que visitou a sua para dizer que o bebê podia ser de qualquer um.

Anos depois, quando já existia o exame de DNA, a mãe provou a paternidade do pai ausente, mas ele assumiu, pra si e para a própria família, que foi forjado… e sumiu no mundo para não pagar pensão.

Quando reapareceu, foi porque a avó do já pré-adolescente engoliu o orgulho em favor do desejo do neto de conhecer o pai e o procurou. A mãe concedeu. Pai e filho se conheceram. E só.

Não sei se foi falado a este pai sobre os anos de trabalho em dois empregos da mãe, do filho sendo criado por todos, dos conflitos que a criança vivenciou, dos perrengues financeiros que a família toda passou… só sei que ele ganhou de presente um filho crescido, que passou a ver de vez em quando.

Acompanhei de perto este caso, que é de minhas relações, mas preservo as identidades em respeito à relação entre pai e filho, que só agora começa a se consolidar.

Conheço muitos outros casos de pais que só se tornaram “presentes” depois dos filhos criados. Eles nunca são cobrados  pelos anos de ausência porque as mães amam demais seus filhos para privá-los do pai “pródigo”. Engolem seus sacrifícios mais uma vez…

Até quando? Eu me pergunto sempre que assisto a mais uma reportagem sobre a questão do aborto.

Nessas discussões, que sempre opõem religião x direitos femininos, nunca – salvo um comentário da amiga Márcia Intrabartollo em rede social – vi questionarem o papel do “doador do esperma” nas situações que levam uma mulher a tomar a dificílima­­­, dolorida (física e emocionalmente) e perigosa (clínica e criminalmente) decisão de abortar.

Até onde me informei até hoje, na maioria dos casos de aborto há por trás uma mãe abandonada ou um pai que fez pressão para não assumir mais uma boca para alimentar na família. Onde está a criminalização deles?

Tenho em torno de mim, em diferentes níveis de relações, vários casos de mulheres que assumiram os filhos sozinhas, e de outras que têm o pai de seu filho presente, mas “nos termos deles”.

São mulheres que têm jornadas triplas: no trabalho formal, em casa e na criação dos filhos. Algumas transformam-se irremediavelmente, como a do caso que narro no início deste texto. A jovem sonhadora e romântica deu lugar a uma mulher dura, irascível, implacável em suas relações. Forte sim… mas a que custos!

Recentemente, o depoimento de uma colega de profissão numa rede social me lembrou o quanto os sacrifícios da mulher na criação dos filhos ainda são invisíveis!

Decidi aí iniciar um trabalho para torná-los mais visíveis para, talvez – quem sabe? – contribuir para alguma conscientização e, quiçá, mudança de mentalidades (ah… esperanças… o que somos sem elas?).

A partir de agora, o blog “Palavreira” está aberto a depoimentos de mães que queiram contar suas histórias de lutas. Pretendo reuni-los numa seção que chamarei “Vozes que pariram“.

Quaisquer mães… solteiras, casadas, com pais presentes ou não, com parceiros que dividam ou não as alegrias (são muitas também, acredito!) e dificuldades de criar outro ser humano, que sintam-se discriminadas no trabalho, no grupo social ou o que o valha…

Não precisam se identificar. Podem usar codinomes (desde que eu saiba quem são) ou não usarem nome nenhum…

E se não se sentirem à vontade para escrever de próprio punho, me chamem. Vou até onde estiverem ouvir suas histórias para reproduzi-las em texto.

Só quero dar-lhes vozes, ampliá-las, fazê-las ouvidas…

Passou da hora!

 

P.S. Para me contatar, use o link para meu e-mail à direita na página.

Leia o primeiro depoimento da série

Sou uma mãe ‘do caralho’! (Carol Oliveira)

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Estamos todos bem

Querido Nando,

Hoje faz um ano que você partiu.

O dia não está diferente. O céu não está nublado. Faz só um friozinho bom à sombra, que valoriza o beijo do sol em nossas peles nos pedaços desabrigados das calçadas.

Estamos todos bem.

Márcio tem cuidado com extremo carinho e atenção da mãe de vocês. A idade tem cobrado dela algumas faturas, mas nada com que ela não saiba lidar com a força e – invejo ao dizer – o humor jovial de sempre.

Ela nos dá lições de resiliência todos os dias.

Confesso que não sou das melhores alunas. Márcio sim.

Ele sente muito sua falta. Manda dizer que você está sempre em seus pensamentos e que encontrou seu pai outro dia, em um sonho. Seo Dema estava bem. Descontraído, sorriu um riso velhaco de quem é pego numa traquinagem e depois se foi, tranquilo.

Sua mãe sonhou outro dia com pessoas de branco entrando em sua casa e sentando-se ao sofá da sala, indiferentes aos questionamentos que ela fazia a um e outro. Tenho para mim que são os anjos que sempre a rodearam e agora sentiram ser hora de dar testemunhos de suas presenças.

É que ela precisou ser internada outro dia, por conta de uma infecção urinária e um quadro de desidratação e anemia – tem comido como um passarinho e, como é praxe em sua idade, já não sente tanta sede.

Você pode imaginar o susto que o Márcio deve ter levado ao deparar-se com o diagnóstico da infecção que desencadeou todo o processo da sua partida.

Mas ele herdou de sua mãe a fé (a calma apaziguadora é dele mesmo!). Assumiu que o susto só ocorreu para que os médicos pedissem os exames que acabaram constatando o problema maior, que, silencioso, poderia sequestrá-la de nós sem aviso: um aneurisma da aorta que requer procedimento urgente.

Márcio já providenciou tudo: exames, consultas, dieta reforçada, solicitações ao convênio…

Você se orgulharia de ver como ele tem lidado com tudo sem revolta – só uma tristezinha aqui e ali, como lembrança das saudades de vocês.

Você e seu pai estão sempre em nossas orações, ao lado de minha família. Por falar nela, minha mãezinha tem convivido com dores diárias de sua artrose, também com a resignação exemplar de sempre. Papí segue com qualidade de vida melhor, embora desconfortável com a bolsa de ileostomia que tornou-se sua companheira.

Já eu vou como Deus quer e minhas ansiedades permitem. Também sigo toureando saudades de vivos e desencarnados, ligando meu barco de viver diariamente na carga extra, enquanto ele não aprende a velejar sozinho, com vento próprio.

Espero em Deus que você esteja mesmo bem, Nando. Márcio tem certeza de que está. Diz que lembra de você sempre com muita gratidão. Por tudo – por ajudá-lo, apoiá-lo, lhe dar rumo na vida, por ter sido seu segundo pai… – e que tenta, todos os dias, ser o ser humano “do bem” que você sempre foi. Sou prova de que tem conseguido.

Obrigada por tudo. Fique com Deus e todo nosso amor!

Até mais…

 

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Luto

Uma Leonina Chamada Jô

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‘O Conto da Aia’: Distopia factível

Não me lembro de uma obra de ficção ter me amedrontado tão seriamente quanto “O Conto da Aia” (“The Handmaids Tale”). Seu potencial de realidade é cada dia maior nestes tempos, em que assistimos à escalada da intolerância e de discursos autoritários.

Inspirada no livro homônimo da escritora canadense Margareth Atwood, a obra se passa em um futuro próximo distópico, em que os antigos Estados Unidos – renomeado Gilead – são governados por uma teocracia cristã militarizada e autoritária.

Neste regime, as mulheres são subjugadas. Por lei, não têm permissão para trabalhar, possuir propriedades, controlar dinheiro ou até mesmo aprender a ler. Se não são esposas obedientes, tornam-se empregadas – as chamadas Marthas – ou pior: se pertencem à minoria que resta fecunda, em um mundo dominado pela infertilidade, tornam-se aias.

Cruamente falando, as aias são escravas sexuais mantidas pelas famílias da casta superior exclusivamente para gerarem seus filhos. Elas são fecundadas pelo marido em uma espécie de estupro consentido travestido de ritual religioso. Engravidadas, permanecem com a criança que geram até o desmame, antes de serem enviadas para outra família.

A história toda é narrada pelos olhos da aia June Osborn (Elisabeth Moss, de “Mad Men”), renomeada OfFred. Aliás, começa aí, pelo novo nome, a objetificação da figura da aia, que perde seu nome e passa a ser chamada, em cada casa que “serve”, pelo pronome Of (“de”, indicando posse de alguém) acrescido do primeiro nome do senhor que a fecundará. Assim, temos OfJoseph, OfBryan, OfJohn…

June inicia a história na casa do comandante Waterford, que tem um alto posto no regime. Sua mulher, Serena, é uma intelectual que participou da elaboração da nova ordem. Sem saber, no início, em quem confiar, mesmo entre os de sua casta, June tenta sobreviver ao processo de desidentificação, sem saber onde está a filha, que lhe foi tirada de ser escravizada.

Os horrores vão crescendo a cada episódio, mas, ao contrário de quando assistimos um filme de terror, o medo não passa duas horas depois. Fica com você, volta e se intensifica ante os noticiários, que mostram um Donald Trump eleito presidente com discurso xenófobo e ultranacionalista da nação mais potente do mundo e um Bolsonaro preconceituoso e autoritário eleito presidente do Brasil.

Você acredita cada vez mais que, sim, essa distopia é perigosamente possível.

 


Originalmente pelo serviço norte-americano de streaming Hulu, “O Conto da Aia” começou a ser exibida no Brasil em março de 2018, pelo canal pago Paramount Brasil.

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Amor de turma

Uma vez, assistindo na TV a um encontro de bandas brasileiras de rock dos anos 1980, ouvi de Paula Toller (ex-Kid Abelha) a expressão “amor de turma”, referindo-se ao sentimento que unia todos os músicos ali. Nunca mais esqueci, até porque ela volta à minha memória toda vez que me reencontro com um repertório de rock daquela época.

No último 4 de agosto a expressão me voltou enquanto eu ouvia a banda 33, de Ribeirão Preto, e depois o Ira! (com os remanescentes Nasi e Scandurra), no Invicta Nocaute Festival, evento de fábrica de cerveja artesanal de minha cidade.

Nasi continua desafinado e Scandurra arrasando na guitarra, que ele ainda toca invertida, porque canhoto (feríssima!).

Ainda é o Ira! E o “amor de turma” estava lá.

Gordo (que é bem magro, por sinal…rs) à direita na foto

Mas os melhores momentos foram com a banda 33, do “Gordo” (que é bem magro, na verdade…rs), baixista da minha época de faculdade, que eu não assistia há uns 20 anos, pelo menos. Ele já curtia rock naqueles tempos. Pelo repertório da sua 33, ainda curte os mesmos de então… os mesmos que eu, que todos nós naqueles anos de poetas jovens, bem letrados e idealistas, do quilate de Renato Russo, Herbert Vianna, Cazuza…

“Disciplina é liberdade / Compaixão é fortaleza / Ter bondade é ter coragem”

“We will… we will rock you!”

“Se eu tô alegre eu ponho os óculos e vejo tudo bem…”

“See the stone set in your eyes / See the thorn twist in your side / I’ ll wait for you…”

“Migalhas dormidas do teu pão / raspas e restos me interessam”

Gordo é irmão do “Véio” (Evandro Navarro), também músico, mas mais da MPB. Família abençoada deve ser esta, de gente que faz música com competência e brilho nos olhos.

Que bonito ver pessoas que não deixaram o tempo e as demandas da sobrevivência traírem suas vocações, que fazem de uma paixão seu projeto de vida!

Bom demais ver que o Gordo, grisalho (cinquentão?), ainda se arrepia cantando músicas de nossa época! Na “saideira”, com o público todo cantando à capela “Pais & Filhos”, do Legião, mostrou tatuagens nos dois braços. Entendi que deviam ser os nomes dos filhos (acertei, Véio?).

“Você culpa seu pais por tudo / Isso é absurdo / são crianças como você / o que você vai ser quando você crescer…

Ave, música!

Valeu, Gordo!

Beijo, Véio!

“É nóis”!

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