Silvia Pereira

Jornalista com 30 anos de experiência em redações e blogueira de cinema, séries e literatura; Silvia Pereira adora ouvir, ler, assistir e - principalmente - escrever histórias.

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‘O Conto da Aia’: Distopia factível

Não me lembro de uma obra de ficção ter me amedrontado tão seriamente quanto “The Handmaids Tale” (“O Conto da Aia”). Seu potencial de realidade é cada dia maior nestes tempos, em que assistimos à escalada da intolerância e de discursos autoritários.

Inspirada no livro homônimo da escritora canadense Margareth Atwood, a obra se passa em um futuro próximo distópico, em que os antigos Estados Unidos – renomeado Gilead – são governados por uma teocracia cristã militarizada e autoritária.

Neste regime, as mulheres são subjugadas. Por lei, não têm permissão para trabalhar, possuir propriedades, controlar dinheiro ou até mesmo aprender a ler. Se não são esposas obedientes, tornam-se empregadas – as chamadas Marthas – ou pior: se pertencem à minoria que resta fecunda, em um mundo dominado pela infertilidade, tornam-se aias.

Cruamente falando, as aias são escravas sexuais mantidas pelas famílias da casta superior exclusivamente para gerarem seus filhos. Elas são fecundadas pelo marido em uma espécie de estupro consentido travestido de ritual religioso. Engravidadas, permanecem com a criança que geram até o desmame, antes de serem enviadas para outra família.

A história toda é narrada pelos olhos da aia June Osborn (Elisabeth Moss, de “Mad Men”), renomeada OfFred. Aliás, começa aí, pelo novo nome, a objetificação da figura da aia, que perde seu nome e passa a ser chamada, em cada casa que “serve”, pelo pronome Of (“de”, indicando posse de alguém) acrescido do primeiro nome do senhor que a fecundará. Assim, temos OfJoseph, OfBryan, OfJohn…

June inicia a história na casa do comandante Waterford, que tem um alto posto no regime. Sua mulher, Serena, é uma intelectual que participou da elaboração da nova ordem. Sem saber, no início, em quem confiar, mesmo entre os de sua casta, June tenta sobreviver ao processo de desidentificação, sem saber onde está a filha, que lhe foi tirada de ser escravizada.

Os horrores vão crescendo a cada episódio, mas, ao contrário de quando assistimos um filme de terror, o medo não passa duas horas depois. Fica com você, volta e se intensifica ante os noticiários, que mostram um Donald Trump eleito presidente com discurso xenófobo e ultranacionalista da nação mais potente do mundo e um Bolsonaro preconceituoso e autoritário eleito presidente do Brasil.

Você acredita cada vez mais que, sim, essa distopia é perigosamente possível.

 


Originalmente pelo serviço norte-americano de streaming Hulu, “O Conto da Aia” começou a ser exibida no Brasil em março de 2018, pelo canal pago Paramount Brasil.

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Amor de turma

Uma vez, assistindo na TV a um encontro de bandas brasileiras de rock dos anos 1980, ouvi de Paula Toller (ex-Kid Abelha) a expressão “amor de turma”, referindo-se ao sentimento que unia todos os músicos ali. Nunca mais esqueci, até porque ela volta à minha memória toda vez que me reencontro com um repertório de rock daquela época.

No último 4 de agosto a expressão me voltou enquanto eu ouvia a banda 33, de Ribeirão Preto, e depois o Ira! (com os remanescentes Nasi e Scandurra), no Invicta Nocaute Festival, evento de fábrica de cerveja artesanal de minha cidade.

Nasi continua desafinado e Scandurra arrasando na guitarra, que ele ainda toca invertida, porque canhoto (feríssima!).

Ainda é o Ira! E o “amor de turma” estava lá.

Gordo (que é bem magro, por sinal…rs) à direita na foto

Mas os melhores momentos foram com a banda 33, do “Gordo” (que é bem magro, na verdade…rs), baixista da minha época de faculdade, que eu não assistia há uns 20 anos, pelo menos. Ele já curtia rock naqueles tempos. Pelo repertório da sua 33, ainda curte os mesmos de então… os mesmos que eu, que todos nós naqueles anos de poetas jovens, bem letrados e idealistas, do quilate de Renato Russo, Herbert Vianna, Cazuza…

“Disciplina é liberdade / Compaixão é fortaleza / Ter bondade é ter coragem”

“We will… we will rock you!”

“Se eu tô alegre eu ponho os óculos e vejo tudo bem…”

“See the stone set in your eyes / See the thorn twist in your side / I’ ll wait for you…”

“Migalhas dormidas do teu pão / raspas e restos me interessam”

Gordo é irmão do “Véio” (Evandro Navarro), também músico, mas mais da MPB. Família abençoada deve ser esta, de gente que faz música com competência e brilho nos olhos.

Que bonito ver pessoas que não deixaram o tempo e as demandas da sobrevivência traírem suas vocações, que fazem de uma paixão seu projeto de vida!

Bom demais ver que o Gordo, grisalho (cinquentão?), ainda se arrepia cantando músicas de nossa época! Na “saideira”, com o público todo cantando à capela “Pais & Filhos”, do Legião, mostrou tatuagens nos dois braços. Entendi que deviam ser os nomes dos filhos (acertei, Véio?).

“Você culpa seu pais por tudo / Isso é absurdo / são crianças como você / o que você vai ser quando você crescer…

Ave, música!

Valeu, Gordo!

Beijo, Véio!

“É nóis”!

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Infância de verdade

Por muito tempo a memória mais forte de acontecimentos ruins da infância me impediram de perceber como foi livre, e em muitos aspectos saudável, meu crescimento numa avenida de terra à margem do ribeirão Preto.

Ainda se chamava Jerônimo Gonçalves quando nasci, mas mudou para Álvaro de Lima na década de 1970 – nunca soube por que, já que seu traçado sempre foi uma continuação da Jerônimo, mas desconfio que para descolar sua imagem pobre e ainda muito rural da outra, desde sempre um cartão postal da cidade.

Nossas casas humildes ficavam na pista sentido bairro, que àquela época tinha mão dupla, pois a do outro lado era quase totalmente tomada pelo mato – sem acesso possível por carro, só pedestres usavam sua pequena trilha pisada. Por ali víamos cabras pastando, cavalos amarrados a árvores, galinhas e pintinhos vagando soltos.

Pelos quatro longos quarteirões de terra, havia casas em que os moradores cultivavam hortas, onde íamos buscar verduras frescas por míseros centavos de cruzeiros. Os quintais espaçosos sempre tinham caldeirões sobre fogões de lenha improvisados para ferver roupas, que depois eram “quaradas” ao sol, sobre plásticos dispostos no chão.

As portas das casas ficavam abertas o dia todo. Vizinhos visitavam-se a qualquer hora, entrando sem bater (campainha? … um luxo desnecessário). As crianças entravam e saíam quando bem entendiam, bastando um grito para a mãe avisando – às vezes nem isso…

A rua ficava praticamente livre para as brincadeiras das crianças, que sempre implicavam intensa atividade física – corda, corrida, pega-pega, pique-esconde, bobinho, guerra… Contávamos nos dedos de uma mão as vezes, no dia, em que tínhamos de recolher as latas de óleo “Liza” da marcação do jogo de Bets para dar passagem a algum carro.

Nem sempre fui feliz naquela rua pobre. Mas fui criança de verdade! E isso não é pouco.

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Maior que o mundo

Du, Clara e eu em Granada: felicidade pura

Meu mundo cresceu!

Depois de ter encolhido ao tamanho de cinco centímetros de um salto fino de mulher, como explicado em crônica anterior, ele se ampliou para além de um oceano.

Foi graças a Du e Clara, aqueles mesmos, que desmontaram a vida no Brasil para viver na Espanha, lembram? Mais que inspiração para enfrentar os medos que me encolhiam, eles foram suporte carinhoso na realização de um sonho que eu sequer imaginava ao meu alcance: conhecer o Velho Mundo.

Até o início de minhas férias, em abril deste ano, eu e a amiga Marcinha – outra querida, citada por ter me feito o convite para o Chile – tínhamos feito planos para uma viagem por cidades de Minas Gerais. Mas sua tia adoeceu e ela reconsiderou.

Após uma consulta “hipotética” ao Du, pelo WhatsApp, fui convencida (ele é muito bom nisso) a me lançar na aventura além-mar. Daí que, entre decidir que ia, comprar passagens – em um processo dificílimo que consumiu um dia inteiro do querido Du na internet – e preparar bagagem, foram menos de TRÊS (!!!) dias.

Puerta del Sol, em Madri

Embarquei na madrugada de um domingo rumo a São Paulo e, depois, Madri, onde Du e Clara já me aguardavam com outro de seus impagáveis carinhos: um apartamento alugado via Air Bnb para nos hospedar por três dias na capital espanhola.

Lá eles me guiaram por um tour maravilhoso, que incluiu belezas arquitetônicas e delícias gastronômicas. No restante dos dez dias de minha viagem, só fizeram ser meus guias por Granada, a linda e adorável cidade da Andaluzia – Sul da Espanha – que escolheram para viver.

E eu, que mal andava meio quarteirão, encarei 10 km por dia de passeios – gastei tempo e alguns euros em curativos e escalda-pés para acalmar inchaços e bolhas, mas valeu a pena!

Descobri que os andaluzos são os brasileiros da Espanha; que Paella valenciana se come junto, em torno de um mesmo tacho; que vinhos maravilhosos podem ser comprados por 4 euros em um mercado de esquina e que a Andaluzia tem azeites tão deliciosos que eu tomaria de caneca se não temesse as calorias.

Márcio, meu marido, que não pôde me acompanhar na viagem, ainda encomendou-me o contato com um parente espanhol que só conhecia por Facebook. Pepe Pelegrina, que nem me conhecia até então, provou sua hospitalidade andaluz levando-me para conhecer a neve na estação de esqui de Sierra Nevada.

Eu com Clara, Du e Pepe em Granada

Detalhes sobre os maravilhosos passeios deixo para a matéria de turismo que estou preparando. Este texto é para falar sobre como a amizade, esse “amor” sem posse tão gostoso de sentir, tem o poder de ampliar mundos e transbordar o coração de felicidade.

E eu que não sabia que as minhas transcendem oceanos… e me fazem sentir maior que o mundo.

 

 

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Junhos!

Nunca pensei muito sobre o porquê das festas juninas e quermesses me despertarem bons e mágicos sentimentos todo inverno, mas ultimamente tenho rememorado lembranças de deliciosos junhos na avenida de terra na qual cresci, em Ribeirão Preto.

As festas do mês mobilizavam-nos em preparativos para grandes fogueiras à beira do ribeirão. Nós, crianças, saíamos a buscar pelos matos qualquer resto de madeira enjeitada para montar a estrutura gigante, que ultrapassa a altura de qualquer adulto das redondezas.

As crianças banhavam-se correndo após a tarde de brincadeiras para não perderem nenhum detalhe do ritual de acender a fogueira. Começava com a distribuição de pequenos pedaços de jornal pela grande pilha, que eram acesos com fósforos. Mas era preciso também bisnagar álcool pela madeira para incentivar o fogo rápido do papel a espalhar-se.

Era emocionante para nós testemunhar o fogo erguer-se altíssimo, iluminando a noite à beira do rio… a ausência de postes de luz multiplicando o número de estrelas à vista no céu.

Tão lindo!

As mães conformavam-se com o assalto às suas embalagens de Bombril, já que a sensação da noite era improvisar espetáculos de luzes com esponjas de aço em chamas. Acendíamos a pontinha delas na fogueira e as rodávamos com movimentos circulares dos braços, formando espirais de fogo lindíssimas os nossos olhos de crianças.

Os vizinhos dispunham suas cadeiras de cozinha a uma distância segura da fogueira para acompanhar com vigilante aprovação a farra dos mais jovens… e deitavam conversa sobre suas vidas para levar.

Algum adulto sempre chegava com bules enormes de alumínio – daqueles que hoje só se vê no Museu do Café – para servir quentão em copos americanos. Leves, eram liberados até mesmo para crianças… o gosto do gengibre descrevendo um caminho de fogo por nossas gargantas. Até hoje nutro um amor infantil pela raiz, que descobri recentemente ser contraindicada a hipertensos (desgosto dos desgostos!).

As fogueiras aqueciam o frio genuíno daqueles junhos pré-El Niños, mas o fogo consumia rapidamente o “gigante”. No dia seguinte era apenas um amontoado de cinzas espalhadas pelo vento livre da beira do rio, que liberava-nos de qualquer trabalho de limpeza.

Não precisávamos de quadrilhas, trilha sonora sertaneja, correio-elegante, camisas xadrezes ou jeans puídos para legitimar nossas modestas e pouco planejadas festas juninas. Éramos “caipiras” legítimos da cidade em nossa “avenida rural” cercada de asfalto em seus limites.

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Sofrer ensina… aos dispostos

O sofrimento ensina aos dispostos.

Só a eles…

Cheguei a esta conclusão refletindo sobre a espiral de violência que acomete nosso país e, em menor grau – mas não menos preocupante -, os Estados Unidos, com seus episódios de chacina de inocentes por atiradores civis.

A violência se retroalimenta quando as pessoas tentam sobreviver à dor devolvendo à sociedade o mesmo ódio de que são vítimas – adolescentes deslocados atiram em seus bullyers, policiais disparam a esmo em favelas onde seus colegas foram assassinados, criminosos pilham e exterminam a sociedade que os exclui…

De outro lado, mães como Lucinha Araújo e a ribeirão-pretana Marília Castelo Branco semeiam o bem entre outras famílias marcadas pelo sofrimento – a primeira criou a fundação Viva Cazuza, dedicada a atender crianças com a doença que matou seu filho, e a segunda a Síndrome do Amor, para dar suporte a famílias com casos de doenças raras, como a que ceifou a vida de seu Thales.

São exemplos de pessoas dispostas a refletir e a aprender com as próprias dores. Como recompensa, colhem gratidão e amor (o que sentem e o que recebem de volta), que lhes servem como apoios “mágicos”- chamemos assim por ora – para seguirem em frente.

Quem perde entes queridos ou enfrenta algum dos males deste século (depressão, pânico e afins) sabe como é difícil viver com essas dores. Mal comparando, é como tentar caminhar carregando nas costas um fardo mais pesado que o próprio peso.

Sobreviver a elas usando o ódio como apoio é a decisão instintiva, inerente a todas as espécies, por isso mais fácil. No entanto, torna o sofrimento inútil e fatal para a raça humana, pois o multiplica e espalha a dor, como uma epidemia a destruir vidas e desnortear famílias, instalando o caos.

Usar como apoio o amor ao próximo contraria este impulso primitivo, por isso demanda disposição e esforço.

O sofrimento só ensina quando aceitamos a oportunidade que ele abre à reflexão e ao aprendizado através do amor. Ouso dizer que é para aprender isso que vivemos neste mundo tão desigual e cheio de injustiças e ódio. Infelizmente, poucos de nós consegue.

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Os ídolos e nós

Meu pai na década de 1960: goleiro conhecido como Zague

Gylmar com Pelé na Copa de 1958: o ídolo de meu pai

O futebol é um grande celeiro de ídolos no Brasil. Os motivos pelos quais escolhemos um ou outro diz muito sobre nós.

O primeiro ídolo de meu pai foi Gylmar dos Santos Neves (1930-2013), goleiro da seleção brasileira que conquistou as duas primeiras Copas do Mundo para o Brasil, em 1958 e 1962. Quando papí (como eu e minhas irmãs o chamamos) iniciou-se nesta idolatria, por volta de seus 14 anos, Gylmar já era campeão paulista pelo Corinthians, não por acaso o time de coração de meu pai até hoje. Não por acaso também, ao ser recrutado na categoria juvenil de um clube de Bernardino de Campos (SP) – onde viria a conhecer minha mãe -, papí foi ser… goleiro! Ganhou a vida assim, sob o apelido de Zague (não confundir com o do Corinthians), até seus 29 anos, quando nasci.

Meu pai conta que não idolatrava Gylmar apenas por seus feitos em campo, que foram numerosos a propósito. “Ele era muito família, bom pai, bom caráter, um campeão em tudo… e considerado um dos homens mais elegantes do futebol”, conta-me papí, que também segue vaidoso até hoje.

Pesquisando sobre a vida de Gylmar, aliás, li uma crônica adorável de Milton Neves contando sobre como o casamento do goleiro sobreviveu a uma oposição de 17 anos do sogro. Teve três filhos com Rachel, com quem ficou por 59 anos, até o fim de sua vida, aos 83.

Já o primeiro ídolo do futebol do outro homem mais importante de minha vida foi Zico, o “galinho de Quintino”. Márcio, meu marido, também diz que não o tinha como ídolo apenas por sua “classe como jogador”. “Pelo caráter e personalidade também. Sempre se mostrou um cara do bem”, justifica uma das pessoas mais “do bem” que conheço.

Eu mesma guardo uma lembrança viva de Zico na Copa de 1982, a primeira a que assisti em minha vida. Em um dos episódios do jogo que mandou aquela seleção (MARAVILHOSA!) para casa, Zico caminha calmamente em direção ao juiz mostrando um enorme rasgo em sua camisa – prova de falta adversária na pequena área digna de penalidade máxima… que o juiz não deu. Nem por isso Zico fez cena. Voltou a jogar, com a classe e o profissionalismo de sempre.

Quanta diferença do grande ídolo brasileiro do futebol dessa geração Milennium!

No jogo da seleção brasileira contra a Costa Rica, na Copa da Rússia, o jogador mais caro do mundo encarou o juiz com ódio ou ironia mais de uma vez, socou a bola numa explosão que lhe valeu cartão amarelo e distribuiu palavrões perfeitamente traduzíveis por leitura labial na TV. Ao final, cena de choro e declaração unilateral em rede social – recusou-se a dar entrevistas.

Para o colega Alexandre Reis, este comportamento infantil nem é o maior defeito de Neymar Jr., mas a omissão política. Para o jornalista, um ídolo deveria usar sua influência para causas maiores, como o fez o seu próprio: Sócrates, mentor da Democracia corintiana e defensor declarado das Eleições Diretas em plena ditadura militar, embora, na vida pessoal, tenha sucumbido ao alcoolismo – uma doença que não se escolhe ter, mas pode-se escolher aprender a controlar.

Eu já não espero tanto. Para mim, tanto Sócrates tinha o direito de escolher como levar sua vida pessoal quanto Neymar o tem de preocupar-se mais em gastar seus milhões em diversões e hábitos caros – que inclui bancar o acompanhamento de seu cabelereireiro e “parças” aonde for – do que com a política brasileira.

O que me preocupa, na verdade, é saber o que leva a atual geração a eleger como ídolo um jogador que tenta forjar penalidades na malandragem, desrespeita a autoridade maior em campo e reage a provocações do adversário com xingamentos e insultos.

Será um indício de que valoriza-se, hoje, o sucesso pelo sucesso pura e simplesmente, não importando a conduta de quem o alcança?

E não me venham justificar o comportamento de Neymar com a grande pressão por resultados que sofre, pois não deve ser diferente da que já pesou sobre os ídolos que o antecederam. E deve ser a mesma – se não maior – sofrida pelo melhor do mundo, Cristiano Ronaldo. Se Neymar não sabe administrá-la com a mesma elegância, ao menos deveria fazê-lo com educação e respeito, pois não se é ídolo impunemente.

Um ídolo inspira uma geração… é seguido, imitado – como meu pai a Gylmar e como eu mesma a meus mestres José Eduardo e Ely Vieitez Lisboa, entre outros.

Se a escolha dos ídolos, sozinha, definissem o caráter de uma geração, eu temeria – e muito – pela que atualmente endeusa Neymar Jr. E isso explicaria muita coisa.

 

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Ele pode comer essa banana

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Meu Ofertório

A gratidão é um sentimento tão bom de sentir!

Hoje meus agradecimentos são múltiplos.

Obrigada a Caetano por existir… por ter tido Moreno, Zeca e Tom.

Obrigada a Moreno por ter aceitado a herança leve e diáfana de seu pai… obrigada a Zeca e Tom por saírem a sua imagem e semelhança e ainda assim serem tão únicos.

Obrigada por assimilarem a liberdade de um rebolado, de um beijo masculino no rosto de outro homem, por compartilharem seus dons, que em vocês Deus abençoou com tanta generosidade.

Obrigada por suas vozes tão exatas em meus ouvidos, por seus carismas arrebatadores, seus acordes tão além de tudo.

Obrigada Caetano… mil vezes obrigada por tornar a trilha sonora de minha vida tão rica, prazerosa e poética. Porque poesia transcende e preciso sair de mim de vez em quando para não enlouquecer ou morrer em vida.

Obrigada por todas as suas músicas, mas particularmente hoje por “Sem Lenço, Sem Documento”, “Trem das Cores”, “Oração ao Tempo” e principalmente “Força Estranha”… porque entendo sobre forças estranhas que nos levam a cantar e cantar e cantar… “por isso é que eu canto e não posso parar”.

Obrigada a todos os músicos da minha vida por alcançarem dentro de mim códigos que só a poesia sabe acessar… obrigada por emergi-los e inundar com eles meu consciente, fazendo transbordar emoções até então insuspeitas.

Obrigada Deus pela capacidade de transcender pela arte que coloca dentro de cada um de nós.

E por fim, obrigada meu amor por compartilhar tudo isso comigo.

Amém.

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Feiura exposta

A cada crise que enfrentamos no Brasil, ouço e vejo pessoas vociferando contra o governo – a maioria das vezes com muita razão -, mas o que mais me chama a atenção é a “feiura” que situações-limite como as provocadas pela greve dos caminhoneiros deixa exposta em indivíduos de toda a sociedade.

Sinto uma vergonha misturada com desesperança ver empresários aproveitando-se do desabastecimento iminente para praticar preços abusivos de combustíveis e alimentos, pessoas furando filas nos postos de gasolina, outras estocando só para a própria família provisões que fatalmente farão falta a outras.

Testemunhar esses comportamentos sempre me traz de volta à memória imagens de uma reportagem feita no Japão logo após o tsunami de 2011: cidadãos organizando-se voluntariamente em filas para comprar provisões, respeitando o limite de compras e dividindo o que têm de mais com quaisquer pessoas que tenham de menos.

E sinto inveja!

Ao mesmo tempo me vem um entendimento amargo do porquê sofremos as consequências funestas de redes de corrupção entranhadas por todas as instâncias dos Poderes que nos governam. Na raiz desses comportamentos estão os mesmos sentimentos que motivam os corruptos e corruptores demonizados nos discursos de ódio tão em voga atualmente: um profundo egoísmo e descaso com a sorte do outro.

O pior é que, se aproximarmos uma lente de aumento de pessoas flagradas comportando-se tão egoistamente, descobriremos, quase sempre, cidadãos que se acreditam tementes a Deus e cristãos… que (teoricamente) seguem os ensinamentos de um certo Jesus Cristo, que pregava o contrário do egoísmo.

Não adianta ir para as redes sociais xingar governantes se você não hesita em furar um sinal vermelho ou qualquer fila. Você ajuda a alimentar este efeito dominó da corrupção,  causa de todas as misérias que o cercam. Parabéns!

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‘Vá, coloque um vigia’…

“Porque assim me diz o Senhor: ‘Vá, coloque um vigia de prontidão para que anuncie tudo o que vier’.”
Isaías, 21:16

Saiu deste trecho da Bíblia o título do livro “Vá, Coloque Um Vigia” (2015), sequência do clássico “O Sol É Para Todos” (1960), vencedor do Pulitzer de 1961 – entre outros prêmios literários. Acompanhou seu lançamento a aura de “livro perdido de Harper Lee”, já que, apesar de escrito, provavelmente, na mesma década do primeiro, seu rascunho foi encontrado só há pouco mais de quatro anos, entre o espólio da autora (não se sabe por que ela não o deu a publicar antes). Seus herdeiros autorizaram a publicação nos Estados Unidos em 2014. Harper estava, então, senil perto dos 90 anos, sem condições de opinar a respeito – veio a falecer em 2016.

No livro, o versículo de Isaías é interpretado como uma metáfora da consciência (“Vá, coloque um vigia” para sua consciência…), fonte dos tormentos da protagonista durante seu processo de amadurecimento, descrito na obra.

Gregory Peck é Atticus Finch, Mary Badham é Jean Louise ‘Scout’ Finch e Phillip Alford Jeremy ‘Jem’ Finch no filme “O Sol É Para Todos” (1962)

E a protagonista é ninguém menos do que a querida Scout, apelido pelo qual Jean Louise Finch é tratada por todo o primeiro livro. Narrado em primeira pessoa por ela, dos 6 aos 10 anos, “O Sol É Para Todos” descreve, pelos olhos da menina e de seu irmão mais velho, Jem (de Jeremy), o processo em que o pai de ambos, o advogado Atticus Finch, defende um negro injustamente acusado de estupro por uma branca. Isso na pequena comunidade sulista – entenda-se extremamente racista – de Maycomb, no Alabama (EUA).

Vá, Coloque Um Vigia” encontra Scout adulta, aos 26 anos, com consciência e valores praticamente indissociados dos de seu pai. Entre flashbacks de sua adolescência e de sua ida para Nova York, acompanhamos a jovem descobrir-se um “peixe fora d’água” na cidade natal, até sofrer o “choque de realidade” que a fará rever o altar moral no qual colocava Atticus.

Neste ponto, a narrativa, que vinha morna e saudosista, comparando a velha e a atual Maycomb, mergulha em diálogos filosóficos: entre Jean Louise e sua própria consciência; entre ela e seu velho tio Jack (o médico intelectual-pensador da família), dela com o namorado e… o derradeiro… entre a protagonista e seu pai. No cerne de todos eles, a sociedade e seu comportamento de “manada”, seus preconceitos de raça e credo, temas atuais ainda hoje (infelizmente!), passados quase 60 anos.

Jean Louise precisa emergir de todos esses embates morais com identidade e valores próprios e, para isso, terá que decretar algumas “mortes” (de ao menos um ídolo, da própria inocência, entre outras personas).

Harper Lee em uma de suas últimas fotos, por volta dos 80 anos

Para quem aprecia leitura para além do simples entretenimento, é um prazer deixar-se enredar por esses diálogos, embalados por um humor irônico, que, em minha opinião, são a maior prova do grande intelecto da autora.

Por tudo isso, “Vá, Coloque Um Vigia”, como seu antecessor, é um daqueles livros para se ter e reler sempre que precisarmos nos reconectar com nossas noções de humanidade.

Super recomendo!

 


O Sol É Para Todos” foi adaptado para o cinema em 1963. Dirigida por Robert Mulligan (de “Houve Uma Vez Um Verão”), sua versão cinematográfica rendeu o Oscar de Melhor Ator para Gregory Peck (na foto com a autora, Harper Lee, em 1962, durante as filmagens), e de Melhor Roteiro Adaptado para Horton Foote. Também virou clássico! (Na torcida para algum diretor decidir filmar sua sequência em 3, 2, 1…)

 

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