Silvia Pereira

Jornalista com 30 anos de experiência em redações e blogueira de cinema, séries e literatura; Silvia Pereira adora ouvir, ler, assistir e - principalmente - escrever histórias.

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Um cheiro de vó

Às vezes, do nada, me vem um cheiro característico da vó Ana. Dia desses o senti em local dos mais inusitados, no meio do pátio da empresa em que trabalho, praticamente vazio no final de tarde.

O cheiro da vó tinha uma mistura de pele antiga com fumo de corda, que ela costumava deixar pendurado em um gancho da sua cozinha. Às vezes eu a assistia montar seu cigarro de palha sentada numa cadeira que colocava na saída para o corredor – sempre o mesmo ritual de cortar um pedaço do rolo, desbastá-lo a canivete sobre um pedacinho de palha e depois enrolá-lo com dedos desfigurados de artrose.

Depois, segurando o cigarro entre os dedos polegar e indicador, sorver a fumaça numa primeira tragada comprida, que lhe encolhia as maçãs flácidas da face, para depois soltá-la no mundo em baforadas fartas.

O que será que ruminava sentada ali com aqueles olhos arregalados e de pupilas perdidas dentro de alguma lembrança?

A vó não era de conversar, principalmente coisas do coração. Não sabia.

Também não era de “melação” – como chamava jocosamente gestos físicos de carinhos. Não me lembro de uma vez em que eu tenha recebido um beijo gratuito seu ou mesmo um abraço.

Mas de seu fogão vintage todo branco de frisos pretos da marca Cosmopolitan sempre saíam, quando eu pedia, ainda que acompanhados de reprimendas, bolinhos de chuva (mesmo sem chuva), bolos de fubá, bananadas e – o que eu mais gostava – mingaus de fubá ou farinha de milho, para aquecer em dias de frio ou nos fazer suar em convalescenças de febre.

Seus últimos anos conosco coincidiram com minha fase de rebeldia adolescente. Jamais a desrespeitei – ai de mim se o fizesse com pais que castigavam severamente o desrespeito aos mais velhos! -, mas também nunca tive paciência com suas ranhetices e críticas indignadas com os avanços geracionais da mulher.

Arrependo-me.

Carrancuda, só vi a vó chorar uma vez, de emoção, no casamento de minha irmã do meio, Liz.

Nós a perdemos pouco tempo depois, aos 68 anos, com pele e corcunda de 90 e pulmões estragados pelos cigarros.

Mas tenho pra mim que seu espírito ainda está por aí a velar por nós deixando de aviso seu cheiro de pele antiga e fumo.

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Sobre a importância de uma imprensa forte

No mesmo dia em que a grande imprensa voltava toda a sua atenção à cobertura do deplorável assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, o ministro da Justiça, Torquato Jardim, dava no Fórum Econômico Mundial para a América Latina uma chocante declaração, que acabou passando despercebida: a de que os numerosos esquemas de corrupção dados a conhecer pela operação Lava Jato é apenas “10%, a ponta do iceberg” comparado às fraudes que ocorrem nos municípios brasileiros. Ele corroborou tais afirmações com dados de auditorias feitas pela Controladoria Geral da União – uma delas prova que dois terços dos municípios fraudam a compra de merendas escolares, por exemplo.

Nos dias seguintes a essas duas notícias, haters começaram a multiplicar fake news (notícias falsas) redes sociais afora com as mais chocantes calúnias sobre a vida e a atuação de Marielle. Acusaram-na de ex-mulher de traficante a integrante de facções criminosas, quando até organismos internacionais como ONU (Organização das Nações Unidas), OEA (Organização dos Estados Americanos) e Anistia Internacional conheciam seu trabalho em prol dos direitos humanos, especialmente entre as minorias LGBT, de negros, favelados e mulheres.

O que a morte de Marielle tem em comum com a declaração do ministro da Justiça sobre a corrupção no Brasil?

A imprensa!

Explicando melhor: um e outro caso fornecem exemplos de como a imprensa é determinante em nossa apreensão da realidade e tomada de posição do lado certo ou errado da história.

Vejamos:

O importante trabalho que era desenvolvido pela vereadora do PSOL só pôde ser conhecido, para além da órbita de militância social em que ela gravitava, graças à grande imprensa. E a elucidação de seu assassinato, com consequente punição dos responsáveis, só se dará quanto maior for a pressão exercida sobre os poderes pela opinião pública, cuja voz é ampliada… PELA IMPRENSA.

Ao mesmo tempo, a disseminação de notícias falsas sobre ela podem exercer uma pressão contrária, e os assassinos e/ou mandantes poderão continuar mantendo os esquemas que fazem do Rio de Janeiro o inferno que é hoje SE a imprensa “se esquecer” de cobrar soluções para o caso.

Voltando ao alto grau de corrupção nos municípios brasileiros, o ministro da Justiça o atribui ao fato de o jornalismo independente ficar concentrado em apenas cinco dos 26 estados do País – “não há jornais fazendo cobranças sobre ética no setor público em 80% do território nacional”, disse ele com todas as letras.

Dito tudo isso, fica claro o quanto o jornalismo sério e independente pode ampliar a voz de heroínas como Marielle e o como o “marrom” pode calá-las. Mais… sem o primeiro, não enxergamos as causas de nossas misérias sociais. Até dois anos atrás, só sofríamos seus sintomas: saúde, educação e segurança sucateados e ineficientes, criminalidade descontrolada, etc, etc, etc… Já hoje sabemos, graças à operação Lava Jato, com ampla cobertura da imprensa, que muito do dinheiro de nossos impostos tem sido desviado para esquemas corruptos.

E, segundo o próprio ministro da Justiça, ainda há muito a ser denunciado.

Então, que a Polícia Federal consiga desnudar todos e o jornalismo independente amplie-se para todos os estados brasileiros.

Que os jornalistas que estão se formando nas faculdades preocupem-se menos com a via mais rápida de serem bem-sucedidos na vida e mais com o que podem fazer para ajudar nesta ampliação da voz de suas comunidades. Que enxerguem-se mais como instrumentos a serviço de seu entorno, como o fez Marielle e o fizeram grandes jornalistas antes deles.

E que, por fim, os consumidores de notícias, POR FAVOR, sejam menos preguiçosos e procurem por fontes confiáveis de informação antes de compartilhar qualquer coisa que passe por sua timeline.

Uma imprensa forte não se faz apenas com bons jornalistas, mas com leitores que lhe valorizem!

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Sobre a estranha ordem das coisas

Ler sobre o novo livro do neurocientista António Damásio, “A Estranha Ordem das Coisas” (editora Temas e Debates), fechou minha garganta com um sentimento de urgência. Faz todo sentido o que ele diz sobre a necessidade de se educar massivamente as pessoas para que não nos matemos uns aos outros, pois é preciso contrariar nossos instintos mais básicos, que nos impelem a pensar primeiro em nossa sobrevivência.

“O que eu quero é proteger-me a mim, aos meus e à minha família. E os outros que se tramem. […] É preciso suplantar uma biologia muito forte”, exemplifica ele à reportagem da revista Prosa e Verso, associando este comportamento a situações como as que têm levado a um discurso anti-imigração e à ascensão de partidos neonazistas pelo mundo.

Antonio Damasio: o neurocientista das emoções

Ele não se refere, porém, àquele modelo alienante de educação doutrinária, em que o educado não questiona nada. Percorremos as últimas décadas lendo e escrevendo livros, compondo e cantando canções contra ela, mas passamos reto pelo ponto de equilíbrio e fomos parar no outro extremo.

Nosso país elegeu um presidente que age como se estivesse sempre em guerra – contra os opositores, contra a imprensa, contra quem discorda – e que defende o armamento da população contra a violência sem perceber o brutal e infeliz paradoxo que isso encerra.

Temos sido educados pela cartilha do individualismo exacerbado, que também é um modo de alienação, pois ignora tudo o que for o outro.

Se não, como explicar que lemos todos os dias, sem nos abalar muito, sobre bandidos que atiram com facilidade em grávidas desarmadas, executam cidadãos comuns por meros bens materiais, promovem chacinas ordenadas por facções do crime organizado e sobre jovens que atiram a esmo em escolas e se suicidam em seguida?

Lemos e assistimos sobre essas selvagerias e continuamos tocando nosso dia, agradecendo intimamente que não aconteceram conosco.

Será que tornamo-nos indiferentes ao que ocorre ao outro?

Se não, por que não estamos nas ruas exigindo educação de qualidade para todos, em vez de ficarmos praguejando nas redes sociais contra esta “estranha ordem das coisas”?

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Sobre a doença do Rio (e de nós todos)

Todos temos assistido perplexos à escalada da violência no Rio de Janeiro, que levou à convocação de tropas do Exército para reforçar a segurança no Estado e, na última sexta, à intervenção federal em sua segurança pública.

Repete-se, no Rio, o raciocínio que levou, há alguns anos, à instalação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) nos complexos de favelas. Novamente investe-se em um “remédio” com capacidade de atuar apenas nos sintomas da “doença” do Rio, que é a criminalidade.

Ao contrário do que possa parecer, suas numerosas causas não passam pela vulnerabilidade de polícias mal equipadas e mal pagas – esta é, antes, um dos sintomas, ao lado dos números crescentes de mortes de policiais e inocentes em crimes com abordagem violenta e tiroteios entre facções ou entre policiais e criminosos.

As verdadeiras causas são sociais e todas de responsabilidade de um Estado mal gerido e contaminado pela corrupção, que não cumpre seus deveres constitucionais de garantir direitos essenciais (saúde e educação no topo da lista) a todos os cidadãos, sem distinção de classe ou credo.

Excluídos, os mais pobres têm de escolher entre passar a vida toda dependendo da prestação ineficiente ou quase inexistente desses serviços públicos ou tornar-se parte do problema juntando-se ao crime organizado, que lhe proverá o que o Estado lhe nega (sensação de pertencimento inclusa). Da mesma forma, o policial é confrontado com sua própria escolha: trabalhar honestamente, com salário que não lhe permite morar muito longe das favelas, ou também fazer parte do problema tornando-se corrupto.

É claro que a intervenção do Exército diminuirá os números da criminalidade em um curto prazo, pois é treinado para a guerra – que é o que está ocorrendo hoje no Rio. Mas, assim que terminar, é muito provável que, em poucos anos, esses números voltem ao patamar de descontrole de hoje. Foi assim com o projeto das UPPs e assim será com a intervenção federal se nenhuma “vacina” social começar a ser colocada em prática pelo Estado desde já.

 

Publicado no jornal A Cidade em 21/2/2018

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‘The Post’: registro essencial

Nunca admirei ou tive vontades relacionadas aos Estados Unidos, mas uma inveja eu tenho desses “primos ricos” da América: a forma como sua imprensa resiste às pressões de poderosos e mantém o legado dos fundadores da Constituição para defender a liberdade de expressão – arrisco-me a dizer, o bem mais caro da democracia e sua mais eficiente ferramenta de manutenção.

Ao menos é isso o que nos fazem acreditar filmes como “Todos os Homens do Presidente” (sobre o escândalo Watergate, que culminou na renúncia do presidente Richard Nixon), “O Informante” (que desmascarou a indústria de cigarros); e agora “The Post: A Guerra Secreta”, concorrente em duas categorias do Oscar deste ano (Melhor Filme e Melhor Atriz para… adivinhe… Meryl Streep!).

Como os dois primeiros títulos citados, “The Post” narra uma história real, ambientada nos bastidores da imprensa norte-americana, que opõe um poder muito maior à liberdade de expressão de um veículo de comunicação.

A história começa com o jornal The Times publicando trechos de um relatório confidencial do governo que prova que os cinco presidentes anteriores dos Estados Unidos mentiram sobre a real situação do país na Guerra do Vietnã, que ceifou milhares de vidas de jovens americanos.

Acionado na Justiça pelo governo, sob alegação de ter atentado contra a segurança nacional, o Times é impedido de continuar publicando a história, à qual o The Post também acaba tendo acesso.

Resta à proprietária do The Post – já desacreditada por ser mulher e por ter herdado o negócio em circunstâncias nada ideais – a decisão de publicar ou não a história. Pesam sobre ela o fato de que, na mesma semana, o jornal abria seu capital na bolsa de valores para conseguir sobreviver financeiramente – o que significa que, enquanto empresa, poderia até fechar por insolvência se os bancos o considerassem um “mal negócio”.

Traduzindo: Katherine Graham (Streep) tinha a perder tudo; a ganhar, apenas um subjetivo sentimento de missão cumprida.

Todos sabemos como esta história acaba, até porque, real, está registrada em livros e jornais. Mas retratá-la em filme garante-lhe um alcance exponencial, no que reside uma das grandes missões do cinema: tornar a história verdadeira conhecida pelo maior número possível de pessoas… fazê-la exemplar, eterna.

Desta missão o diretor Steven Spielberg se desincumbe com louvor.

Como cinema, “The Post” não é assim uma obra-prima digna de prêmios, mas faz-se obrigatório de uma forma muito competente e honesta. O que não é pouco. Mais que isso: é essencial!

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Cinco centímetros

Meu mundo encolheu.

Ficou pequeno de repente ou será que está assim faz tempo e só me dei conta agora? Neste exato momento em que escrevo ele tem o tamanho do primeiro salto fino de 5 centímetros que coloco em quase dois anos.

Sei que ele tomou esta dimensão porque, pelos cerca de 200 metros caminhados entre o estacionamento de veículos e minha mesa de trabalho, equilibrar-me sobre aqueles finos 5 cm tornou-se o propósito da minha vida.

Não tinha me dado conta disso até chegar arfando ao destino.

“Correu Silvia?” – perguntou minha colega de trabalho ante meu descontrole respiratório.

“Quem me dera”. Andei foi bem devagarinho, cuidando de cada passo, esquadrinhando cada centímetro quadrado de piso antes de depositar sobre ele meu equilíbrio vacilante de acidentada.

Arfava era de algum tipo de emoção que não sei se consigo explicar… uma melancolia de finitude, como uma nostalgia de um sonho que, realizado, não parecia mais tão… sonho.

Talvez porque foi ali que me dei conta do tamaninho do meu mundo.

Lembrei-me do Du e da Clara, que acabaram de vender tudo o que tinham no Brasil para mudar-se de vez para a Espanha (isto sim de tirar o fôlego)… do querido Marcelo, vivendo há 20 anos em Londres a administrar saudades que mata por 30 dias ao ano… de minhas amigas, que já trilharam o Caminho de Santiago de Compostela e a Via Francígena, na Europa, e agora fazem planos de uma viagem ao Chile.

E eu limitando os meus a conseguir equilibrar-me sobre um salto fino de mulher.

Agora entendo o frio na barriga sentido quando me convidaram pra tal viagem: estava tão quentinho ali, encolhidinha que estava dentro de meus “não-planos” (aqueles que se faz quando não se tem plano algum) de voltar a usar salto ou decidir se poupo para trocar de carro ou faço reserva para um hipotético futuro desemprego!

Quando foi que fiquei tão pequenininha?

Será que consigo crescer de novo?

Barriguinha, prepare-se! Acho que vou levá-la (com frio e tudo) ao Chile.

 

* Publicada no jornal A Cidade em 15/2/2018

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Estamos prontos? *

Entramos em 2018 como em todos os anos anteriores: saboreando ceia, assistindo a fogos, superlotando shows da Virada, sujando praias no Réveillon e curando ressacas. Nos noticiários, o que tornou-se comum nos últimos quatro anos de atuação exemplar de Ministérios Públicos e Polícia Federal: denúncias e acusações de corrupção em todas as instâncias dos poderes Executivo e Legislativo.

Pergunto-me se todos nós, que formamos a grande massa de trabalhadores a arcar com as consequências dos desvios de verbas públicas, já nos conscientizamos de que 2018 não é um ano qualquer… que as eleições marcadas para o segundo semestre não têm a mesma importância das anteriores.

Serão as primeiras eleições presidenciais de uma época em que começamos a enxergar… a ter evidências da corrupção que sempre suspeitamos existir nos bastidores dos poderes que regem nossas vidas cidadãs, e que esse modus operandi contamina a máquina pública muito além do que imaginávamos ou temíamos.

“Minha dor é perceber que apesar de terem feito tudo o que” fizeram, os políticos ainda são os mesmos e vivem como seus antecessores (com o perdão da paráfrase remendada, mestre Belchior!). Ainda vemos um presidente pagar desgaste atrás de desgaste político para atender a fisiologismos partidários; a legisladores votarem – ou não – em projetos que mexem com nossas vidas motivados por acordos e barganhas que os beneficiam pessoalmente, sem a menor preocupação conosco, mas com nossos votos.

Fico pensando se estamos prontos – e, mais importante, se temos coragem – para trocar essa “escola política” por novos rostos e nomes. Mais: será que teremos outros rostos e nomes para formar uma “nova escola política”, na qual possamos depositar confiança e esperança?

2018 será o primeiro ano do resto de nossas vidas cidadãs. Estamos prontos para fazê-lo melhor?

 

* Artigo publicado no jornal A Cidade, em 1º de fevereiro de 2018

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Nada a comemorar

Quando uma condenação por corrupção ocorre em um desses países orientais supercivilizados, como a China, as reações, tanto da população quanto dos acusados, costumam ser de vergonha genuína. Pais perguntam-se: “o que fizemos de errado?” Políticos desculpam-se (quando não se suicidam).

No Brasil, os políticos negam tudo até a mais amarga condenação e a população divide-se em um “fla-flu” político. No caso específico da de Lula, muitos foram para a rua comemorá-la com fogos e pixulecos, como numa final de campeonato vencido por seu time – se o resultado tivesse sido outro, os partidários de Lula teriam feito o mesmo.

Desculpem se soo petista para uns e “coxinha” para outros (o “fla-flu” tende a essas simplificações), mas não consigo enxergar motivo para comemorar em nenhum dos casos. Não torci para o livramento de Lula, mas tampouco estou feliz com o que sua condenação e a de tantos outros dizem sobre nosso País e sobre nós mesmos. Nem com como isso reflete em nossa identidade cidadã ou em nossas noções internas de justiça, que influenciam nossas tomadas de decisões no dia a dia – de respeitar uma lei de trânsito a ensinar um filho que não se deve fingir uma falta no futebol.

Além do mais, a punição de um ou dez corruptos não acaba com toda a corrupção. Em estruturas de poder contaminadas, como as nossas têm se mostrado, sempre há os que ficam para inventar novos modos de corromper sem ser pego ou chegam novos corruptos para substituir os antigos.

O que rompe esse ciclo é educação e não estou falando só da formal – até porque esta muitos corruptos tiveram e da mais cara que o ensino particular pode fornecer -, mas da moral, que vem de berço e sofre uma grande influência do consciente coletivo, formado por um conjunto de práticas em sociedade.

Tantas condenações mostram o quanto estamos falhando nisso e que não temos, na verdade, nada a comemorar.

* Artigo publicado no jornal A Cidade em 25/1/2018

 

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Carta aberta a um deputado

Caro deputado Beto Mansur:

Entendo que, como vice-líder do governo Temer na Câmara Federal, o senhor tenha lá que defender as decisões do mandatário, mas saiba que isso não lhe dá o  direito de subestimar nossa inteligência.

Suas últimas declarações sobre as decisões judiciais que têm impedido a ministra Cristiane Brasil de tomar posse na pasta do Trabalho chegaram a me dar ânsias de indignação (“Não importa que um ministro do Trabalho algum dia teve uma ação judicial no Ministério do Trabalho. Senão nós vamos ficar preocupados agora que o ministro da Saúde não vai poder ser fumante, que o Ministro dos Transportes não vai poder ter multa de trânsito… Aí nós vamos ficar loucos no Brasil”).

Com o perdão do vocabulário, deputado, a quem o senhor acha que engana com esse papinho “malandro 171” versão “colarinho branco”?

É claro que um ministro do Trabalho com histórico de desrespeito às leis trabalhistas e um Ministro dos Transportes com multas de trânsito não têm moral nenhuma para assumir tais cargos e merecem toda a nossa desconfiança, por motivos óbvios (se não fazem a “lição de casa”, muito menos os deveres principais) – a analogia ao “ministro da Saúde fumante”, o senhor me desculpe, mas é digna de ignorar, pois fumar é uma escolha pessoal que não agride a lei nenhuma que um ministro da Saúde deva defender.

Mas é claro que o senhor sabe muito bem disso tudo, pois duvido que confiaria, por exemplo, o seu rico dinheirinho de parlamentar a um consultor de investimentos com histórico de perdas financeiras.

Da mesma forma, senhor Mansur, nós não temos que engolir diretores de Ciretran com 120 pontos na CNH ou ministras do Trabalho com R$ 74 mil em dívidas trabalhistas.

Sobre “ficar loucos no Brasil” à procura de ministeriáveis sem histórico desabonador o senhor fale apenas por si mesmo, pois este país tem, sim, gente honesta, competente e capaz de assumir cargos de gestão. Mas, claro, o senhor e seus pares não devem conhecer mesmo (cheguem, eleições!).

(*) Artigo publicado no jornal A Cidade em 18/1/2018

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Novo ano, velha saudade

O ano começou pra mim requentando saudade antiga de perdidos dezembros.

Mora dentro de mim desde a primeira infância, nascida de lembranças que até hoje me vêm como as mais felizes de todas, porque de uma felicidade genuína e plena, como só as crianças conseguem sentir.

Sobraram delas apenas flashes de imagens, mas a lembrança do sentimento está intacta, como se eu o tivesse sentido ontem.

Começavam sempre em dezembros essas lembranças, quando ouvíamos uma buzina alucinada à porta de nossa casa, na avenida de terra à beira de um ribeirão Preto margeado de mato.

Ainda enxergo na tela da memória meu tio Silvio (a quem devo meu nome) à direção de sua Belina, que chegava lotada com minha tia, primas e – nas últimas visitas de que me lembro – também de meu primo temporão, Silvinho.

Marlene, Silvinho, Márcia, tia Célia, tio Silvio e Margareth agachadinha: morro de saudades!

Chegavam sem avisar (era um tempo em que telefone em casa era coisa pra ricos) e não enxergávamos o menor problema ou indelicadeza nisso. Ao contrário, celebrávamos extasiados a surpresa, que sempre inundava os ânimos de minha família de um clima de festa, celebração, alegria.

A criança que fui respirava dentro desses dias como se dentro de um sonho bom, desses de que a gente nunca quer acordar.

As noites terminavam tarde e a hora de dormir transformava os chãos dos quartos e sala em um mar de colchões forrados com toda a roupa de cama que houvesse na casa.

Ainda me fecha a garganta a saudade de tardes de cantoria ao violão… a imagem de meu pai arranhando as cordas com seus poucos conhecimentos de acordes… o tio improvisando percussões e a filharada espalhada pelo chão acarpetado. A mãe e a tia ouviam tudo da cozinha, mobilizadas nos afazeres das refeições.

Às vezes o tio colocava a criançada mais nova no carro e saía a passear pelas ruas do bairro, àquela época muito tranquilo, meio esquecido até pelos carros, pois que suas ruas morriam todas no rio sem pontes.

Vez ou outra ocorria de rolar um sorvete, mas era raro. Não éramos famílias para ter dinheiro fácil para pequenos prazeres. Mas não lamentávamos porque, na verdade, não se sente falta do que não se permite desejar.

O tio sempre me cobria de mimos, abraços… chamegos que brotavam naturais, sem maldades, do mais puro amor.

As primas, muito mais velhas que eu, me mimavam.

Eram visitas em que eu me sentia envolvida em muito amor e alegria.

Cessaram de repente, por volta de minha puberdade, nunca entendi direito o porquê, e eu passei a cozinhar saudades silenciosas todo dezembro.

As famílias se distanciaram. Primas e primos casaram-se e tiveram filhos sem se avisar.

Enfim… a vida aconteceu nas distâncias, com cada um tangendo a sua sem pensar ou lembrar que um dia as pessoas se vão sem volta.

Nos últimos anos eu e minhas irmãs retomamos contatos via rede social com os primos, principalmente Silvinho que, prodígio desde criança, tornou-se pedagogo, enólogo por hobby, marido e pai amoroso, como o fora meu tio até o fim.

Tio Silvio morreu no último dezembro (logo neste mês).

Meu pai não pode despedir-se, pois recuperava-se no hospital de três cirurgias intestinais, que nos surpreenderam quando ainda lidávamos com um infarto sofrido por mamãe.

Não contamos logo. O médico aconselhou esperar ele ficar mais forte. Quando soube (fui eu a contar), chorou muito. “Ele não foi um irmão, foi um pai. Ajudou a me criar  e os outros irmãos”, justificava entre soluços.

Não chorei, pois o sabia sofrendo de um câncer avançado.

Evoquei o amor que ainda mora dentro de mim nas orações que lhe dediquei e agradeci a Deus por ele e por todo o amor que me fez sentir.

Descanse em paz meu amado tio!

Fica com Deus.

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