Categoria: A Loka dos Livros

Crônicas da advogada, mediadora de leitura e sobretudo leitora Luciana Gerbovic.

Cinco caixa-lotes e um abraço

Nunca precisei estudar muito Língua Portuguesa e História para tirar boas notas na escola. Eu prestava atenção porque gostava das aulas. Sei lá como isso se dá. Só sei que me lembro perfeitamente das aulas de alfabetização, mesmo com a vovó viu a uva. Para cada letra do alfabeto minha professora criou um personagem. Fez os desenhos no papel, pintou, plastificou e colou cada um em um espetinho de madeira de churrasco. Uma espécie de fantoches. Lembro que a letra “b” era uma bailarina. O corpinho delgado era a parte alongada do “b”. E um dia a bailarina se encontrou com o índio, corpo magrelo como o da letra “i” e juntos foram passear num “bi”. Fiquei maravilhada com esses encontros que de bi viraram bicicleta, bisteca, biblioteca e por aí vai, por aí fui.

Nunca tive dificuldade para entender a crase. Artigo mais preposição (sei ainda de cor toda a lista das preposições) sempre fez sentido para mim, assim como as frases subordinadas. Adorava fazer análise sintática. Com História era a mesma coisa. Não entendia o sofrimento das amigas que não entendiam História. Nem sei se um dia achei que havia algo para ser entendido, mas não é divertido saber o que aconteceu, como aconteceu? Não, muitas me diziam. E trocávamos lições e trabalhos de História pelos de Matemática e Física. Até hoje não me conformo que eu precisava ficar calculando quando o carrinho A encontraria o carrinho B na estrada X se A estivesse a sei lá quantos quilômetros por hora e B blá blá blá. Uma hora encontra, professora, eu queria dizer, e aí faz tchauzinho e tá resolvido.

Cheguei a tirar meio em uma prova de Física. Meu pai, depois de se recuperar do quase enfarto, disse que o meio ponto foi por eu saber meu nome (hoje talvez nem isso eu conseguiria). Mas a professora me chamou e me fez uma proposta: se eu te der uma nova prova, você estuda? Porque ela percebeu que eu realmente não estava nem aí para a Física. Aceitei a proposta, honrei a chance e tirei dez. Mas meu sangue continuou só borbulhando pelas Humanas. Se acho importante passarmos por tudo? Claro. Me arrependo de não ter estudado mais Matemática e Física (e Biologia também, vai)? Não. Mas a vida, ah, a vida…

Se a crase fazia sentido para mim, o mesmo não se dava com as operações com frações, por exemplo. E a pandemia me pega com um dos filhos bem nesse momento na escola. Por que, minhas deusas, eu preciso rever a soma, a subtração, a divisão e a multiplicação de frações próprias e impróprias? Impróprias são as palavras que eu tenho vontade de falar para o meu filho que me pede ajuda e que não tem nada a ver com o fato de ter uma mãe constituída inteiramente de Humanidades. E tem o outro que está aprendendo divisão e não usa mais chave para armar a operação. Tantos anos tentando fazer as contas armadas e agora não me servem de nada.

Hoje entendo minha mãe, que também não podia me ajudar com o método ultrapassado com o qual tinha aprendido. A gente envelhece de várias formas. Tenho vontade de me jogar aos pés de minha mãezinha e pedir perdão por tudo o que pensava quando ela não conseguia me ajudar. Talvez eu faça isso quando pudermos (se pudermos) encostar nas pessoas novamente. Talvez eu peça perdão por isso e por tanto mais, já que ela foi uma mulher adulta dedicada integralmente aos filhos e à casa. E não nos matou. Nem mesmo nos causou grandes traumas. Que feito! Não tem salário de CEO que pague essa trabalheira, mas isso fica para outro dia.

Por ora, olho minha pilha de livros para ler, o que tanto eu gostaria de fazer após todo o trabalho feito, enquanto aprendo a usar caixa-lote na divisão. Para cada caixa-lote, umas dez ou vinte páginas a menos na minha vida. Para quem é mortal e ama ler como eu, é muita coisa.

PS: termino agora de revisar esse texto. Meu filho mais novo entra no quarto: obrigado, mãe, por me ajudar com a lição de Matemática. Vinte páginas a menos, mas valeu a pena. Ah, a maternidade.

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Mais uma semana no país do passado

Estou me sentindo meio Regina Duarte, o que é horrível. Não, na verdade não é bem Regina Duarte. Porque ela tinha tantas coisas bonitas para falar. E eu não tenho. Ou até tenho. Começou a primavera e não foi sem alegria que percebi que a Terra, mesmo plana, continua girando e as flores entendem que uma estação nova começou. A luz do sol incidiu no gramado, um passarinho veio procurar o resto do meu lanche, uma árvore cujo nome desconheço amanheceu com a copa roxa e eu vi beleza em tudo isso. Vi. Eu juro. E até suspirei. Vi meu filho desligar a tela e andar de bicicleta. Suspirei também. E quase chorei.

Mas tudo isso não basta. Não tem bastado. As mortes ainda são muitas. Milhares. Teve o sete de setembro e o vírus CDF nem ligou para o feriado e foi trabalhar, que coisa! E nem só de COVID se morre nesse país. Os jovens negros nas periferias, por exemplo, continuam morrendo. A última estatística que temos é de 1 morte a cada 23 minutos. Não escrevi errado. Mi-nu-tos. E teve onça pintada nos olhando pelas telas com o olhar de quem morre aos poucos e sem amparo. Porque é assim que se morre no Brasil. Teve céu amarelo de tanto fogo. E aldeias queimadas e indígenas sem ter para onde ir (do pouco que já lhes resta) e parece que essas mortes vão grudando na pele e me pesando e me impedindo o sono e o descanso e a paz e a higiene e a vontade de sair da cama de manhã. Tudo tão seco que nem chorar mais tenho conseguido.

A internet por aqui também continua funcionando, ou melhor, quase sempre, o que é uma coisa boa também em época de isolamento, não? Apesar de que essa semana liguei quase chorando para o suporte da escola das crianças. Porque teve hacker-hater invadindo a aula das crianças. Sim, teve. E tivemos que mudar todos os acessos das crianças e na minha cabeça já não entra mais informação nova e sobrou para o rapaz do suporte que não sabia se me orientava ou me consolava.

E soube de mais invasões em congressos e aulas e seminários e palestras. Xingam as feministas. Xingam quem fala contra o racismo. Xingam quem se preocupa com a situação das pessoas encarceradas. Xingam quem luta contra a violência contra a mulher. Ah, é. Porque isso também não só continua acontecendo como também piorou. Mas xinga-se. Não basta não se preocupar com essas causas. Não basta querer que tudo continue como está ou sempre foi. É preciso ainda impedir que se lute contra toda essa violência. E impedir com mais violência. E não há ficção que resolva porque a boa ficção é boa justamente porque não é alienante. Por isso também o medo dela. Xinga-se quem defende o direito à leitura de literatura. Acaba-se com os programas existentes. Houve até reescrita de histórias para crianças. Porque agora tudo deve ser edificante na literatura. O país, que já era um grande cemitério, tornou-se também um crematório. Mas a literatura, veja bem, não pode mostrar as maldades. Somos tratados como grandes estúpidos incapazes de associar fome com bolacha.

É… eu até queria falar de coisas bonitas. Quem não queria, não é, Regina? Mas se os olhos estão abertos e se há ainda alguma ética, não dá para silenciar. Posso ser ficcionista, mas não sou uma mentirosa ardilosa, o que também teve esta semana.

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Verde é a cor da grama onde não pisamos mais

Acordei até que animada para uma reunião que teria logo cedo, o primeiro compromisso do dia depois de acordar os filhos e verificar o que iriam comer e se já não estavam atrasados para as aulas. O mais novo está em semana de Olimpíadas-virtuais-com-cara-de-gincana-mico e depois de termos gravado um vídeo, na noite anterior, em que simulávamos os movimentos do nado sincronizado no seco, ele me pediu para ajudar na composição de um grito de guerra com gravação de novo vídeo. Eram sete da manhã, verde é a cor da equipe do meu menino e mesmo xingando a ideia da escola, por mais que um lado meu entenda todo o esforço e até agradeça muito, não resisti à carinha dele me pedindo ajuda. Só eu poderia passar ridículo com ele, eu que já dancei o créu em um barquinho cheio de turistas na República Dominicana, o que fez meu filho corar ao se lembrar da cena, ao mesmo tempo em que confirmou a certeza de que eu passo ridículo rindo e seria a companhia ideal para a gravação do grito de guerra. Sete da manhã e pulei da cama, “claro que te ajudo, filho”, e me vesti toda de verde, vestido, colar, brincos e achei exagero os óculos, mudei para os de aro roxo, aprendi o grito com ele – ele que inventou, ensaiamos, igual ao ensaio do nado sincronizado no seco, trancados no banheiro para o pai e o irmão não verem, eu toda no verde e já pronta para a reunião que viria em seguida, veeeeeeeerde, veeeeeeeerde, verde é a cor da grama…, vi os vídeos com as outras mães, mães me comovem, cada coisa que fazemos, cada coisa que nossas mães fizeram por nós, rindo e sorrindo, veeeeeeeerde, veeeeeeeerde, acabou, ufa, o vídeo ficou bom, ele gostou, abri o computador para ir para a reunião, é assim que vamos agora, abre tela, fecha tela, abre tela, fecha tela, e atravessamos quilômetros. Essa semana fui até Angola, ouvi Ondjaki falando, outras pessoas de Angola e em Angola ali, na minha tela, a literatura em torno de nós, precisei ler Ondjaki para poder dormir – meu corpo é assim, se não lê pelo menos algumas páginas por dia não dorme à noite, roda roda roda na cama, e eu sei que é o livro que ficou faltando, então não resisto, assim como não resisti ao meu filho . E abro o livro e leio, às vezes atravesso a madrugada e ela não se torna mais um sapo boi gigante querendo me devorar. Às vezes poucas linhas fazem com que meus olhos se fechem e meu corpo se acalme, e essa noite foi assim, poucas páginas, e eu toda no verde com óculos roxos, cadê o link?, cadê o link?, outra pergunta que não aguentamos mais, cadê o link?, você tá mutado; caiu?, acho que caiu, voltou!; e dá um aperto, uma vontade de gritar que não farei mais nada a distância, mas tanta coisa melhorou a distância, e a reunião não era hoje. Acordei adiantada. Estou verde, brinquei com os outros participantes pelo Whatsapp, alguns achando que tinham perdido a reunião que era só amanhã diante da minha confusão. Mas amanhã estarei madura. Espero.

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Tem alguém aí? Ou você ‘prefere não’?

Fui até a academia esta semana. No espaço reservado para as bicicletas ergométricas, que foi o que fui fazer, onde antes podiam ficar umas dez pessoas, agora só duas. E eu estava sozinha. Coloquei os fones de ouvido, tentei ver ou ouvir algo pelo celular, mas nada está bom, nada serve, nada atrai, tirei os fones e fiquei vendo um jogo de tênis que passava na TV, que já estava ligada quando cheguei. Foi quando ela chegou, olhando para as bicicletas disponíveis longe de mim, escolheu uma, na outra ponta, mas antes de começar o exercício foi até o controle remoto da TV, que estava apoiado em uma bicicleta mais perto de mim, e começou a mudar os canais até achar um de receitas. Aumentou o volume no máximo possível. Mesmo se eu colocasse meus fones, ainda ouviria o sotaque francês do cozinheiro.

Fui atravessada pela lembrança de ver meu pai dirigindo na chuva e desacelerando o carro toda vez que passava em frente a um ponto de ônibus. Intrigada pela atitude – obedecia ele a uma lei de trânsito? -, perguntei por que ele sempre diminuía a velocidade quando estava chovendo e passava de carro por um ponto de ônibus e a resposta foi: “para não espirrar água nas pessoas que estão esperando ônibus já debaixo de chuva”. Meu pai, que só foi dirigir adulto e deve ter tomado muita água nos pontos, conseguiu me dar uma vida longe do transporte público, o qual passei a usar por escolha, mais adulta. E já tomei muita água na cara e no corpo em dias de espera na chuva. Porque tem motorista que não desacelera. E tem motorista (ainda a minoria) que aproxima o carro da calçada e acelera ainda mais. Tive a impressão de que minha colega de bicicleta era das que não desaceleram.

Saí da bicicleta e fui até ela, de máscara. Você vai achar muito ruim se eu agora voltar para o jogo de tênis no mesmo volume que você está ouvindo? Ela me olhou assustada. Era mesmo das que não desaceleram no ponto. Desculpa, eu nem imaginei que você estivesse vendo o jogo, pode mudar de novo, ela me disse. E eu expliquei que não estava vendo o jogo, que não vou fazer exercício para ver algo na TV, e se for sei que corro o risco de ter que combinar com os amiguinhos que também estão no mesmo espaço que eu com uma única tevê se posso ver o que quero com a anuência deles. “Eu nem te vi”, ela me disse, e continuava achando que eu só queria o controle de volta. “É esse o problema”, eu disse, “é justamente esse o problema, você nem me viu”. E voltei a ouvir minha voz insistente, dizendo para os meus filhos todas as vezes em que passamos pelos porteiros do prédio: falem oi, falem bom dia, boa tarde, boa noite, falem obrigado, falem tchau, peloamordedeus tem uma pessoa aí, abrindo e fechando a porta para vocês, é uma pessoa e vocês passam por ela como se ela não estivesse ali. E eles ainda passam, na maioria das vezes, como se não houvesse uma pessoa ali. E eu explico que eles têm direito à moradia, mas não a um porteiro para abrir e fechar a porta para eles. Isso não é um direito posto para vocês, entendem? Acho que ainda não, mas espero e me esforço para que entendam um dia.

E cheguei em casa e liguei para uma das minhas amigas mais antigas, que sabe de mim desde os 6 anos de idade, e perguntei se ela se lembrava da vez em que estávamos na padaria, pegando sorvete naqueles freezers horizontais com tampa que abre para cima, e ela, depois de pegar o sorvete que escolheu, soltou a tampa na minha mão, que ainda escolhia? E que o pai dela ficou como que possuído e gritou tanto que até minha dor na mão passou e quanto mais ela falava “desculpa, eu não vi”, mais o pai dela falava “pois é esse o problema, não ver o outro”? Ela não se lembrava, mas sou testemunha de que aprendeu a lição. “Nós temos sorte”, eu disse pra ela. “Muita”, ela concordou, mas também seguimos atentas às lições. Enxergar uma pessoa é uma escolha que se faz todos os dias.

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Tudo bem?

Assim que o mais recente livro da italiana Elena Ferrante entrou em pré-venda pedi o meu pelo Kindle. No dia 1° de setembro ele será baixado automaticamente, foi mais ou menos esse o teor da mensagem que recebi. E pouco demais da meia-noite lá estava ele, “A vida mentirosa dos adultos”, disponível no aparelhinho sem cheiro. Com meu pai no hospital em um entra-e-sai de cirurgias e exames, sem dormir há tantas noites, comecei a ler naquela madrugada mesmo. Não, ainda não terminei. Sim, já fui fisgada mais rapidamente por outros livros da italiana, mas continuo com ele, ainda pelas madrugadas insones e solitárias, entrando nessa vida mentirosa dos adultos que já conheço tão de perto.

Ontem saí do isolamento para ir ao enterro de uma pessoa muito querida, enquanto recebia a notícia de que meu pai ia sair da UTI. Fazia calor e o sol estava bem brilhante no meio da tarde, as gotas de suor que caíam das nossas testas se misturavam com as lágrimas debaixo das máscaras, o que fazia com que nos afastássemos um pouco do grupo de pessoas já distanciadas para enxugar esse líquido do rosto sem a máscara. Tira máscara, tira óculos, passei batom só para melar mais a máscara?, limpa o rosto com as mãos, põe máscara de novo, mais suor, mais lágrimas, alguns, como eu, de olhos fechados para escutar melhor o rabino que falou, atrás da máscara grossa, que o melhor que podemos fazer para honrar nossos mortos é continuar vivendo intensamente, de preferência colocando em prática os bons exemplos que nos deixaram, sugestionando também que seria bom praticarmos a justiça social. Achei simples e bonito, me afastei um pouco mais para enxugar mais uma vez o rosto.

Só se abraçaram aqueles que já estavam isolados juntos. Ou pelo menos a maioria fez assim, enquanto um vento soprava e levantava umas folhas do gramado agora aberto em um retângulo onde o caixão foi colocado. Peguei três punhados de terra para jogar sobre ele, fiquei com as mãos vermelhas e grossas, um pouco de vida na pele há tantos meses asséptica. Recusei o álcool gel que me ofereceram em seguida, uma das folhas ainda rolava sobre o gramado, alçando pequeninos voos. Ouvi um amém em uníssono. Dava para ouvir passarinhos e a sombra dos carros na estrada logo ali.

Terminada a cerimônia, fui apresentada a algumas pessoas, de longe, que por trás dos olhos inchados e das máscaras me diziam “prazer, tudo bem?”, e eu sorria, inclinava a cabeça para o lado e levantava os ombros. De onde vem essa nossa mania de perguntar “tudo bem?” em vez de perguntar “como você está?”, por exemplo? Em meio a essa pandemia, a cada “tudo bem?” que é dito já vem uma explicação: quer dizer, tudo bem não, né?, mas você entendeu? E precisamos de pandemia para repensar essa forma de perguntar? Quando é que, na vida adulta, está “tudo bem”? Essa pergunta, com a resposta “tudo bem”, é também parte da vida mentirosa dos adultos? Das mentiras que contamos não só para os outros, mas para nós mesmos? Sim, eu estou bem, eu estou aguentando, eu estou me fortalecendo, eu não estou desistindo, mas não está tudo bem. Tudo está bem longe de estar bem.

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[…]

Fim da trigésima quinta semana do ano. Fim de agosto. Fim do ano quase na esquina. Fim de tantas vidas conhecidas nesta semana. As notícias vão pulando nas telas do celular e do computador e as palavras não são encontradas. Ensaio, ensaio, ensaio, queria tanto dizer mais do que um “sinto muito”… não que eu não sinta, pelo contrário, é justamente mais do que isso, tenho é sentido no nível do indizível, do inominável, e ensaio, ensaio, ensaio e tudo o que consigo dizer ou escrever, no fim de tanto ensaio, é “sinto muito”.

Um minuto de silêncio. Desde que conheci a morte de perto, sempre achei tão pouco esse um minuto. Minha primeira grande paixão, aos 20 anos apertado dentro de um caixão rodeado de flores brancas, o cheiro até hoje nas minhas narinas, e eu não entendia como o mundo continuava fazendo barulho lá fora. A vontade de sair correndo daquele velório e gritar na rua “parem tudo, parem tudo, meu amor morreu”, mas os carros passavam e o padeiro vendia pão e o gari varria a rua e as mães se apertavam nos portões das escolas às cinco da tarde. Como no poema do Ferreira Gullar sobre a morte de Clarice Lispector.

As pessoas sendo enterradas, agora sem o ritual da despedida, pelo menos o ritual que conhecemos até agora e que, entendi, mais do que nunca agora, é tão importante. Consigo me lembrar dos abraços que recebi no dia em que enterrei esse namorado, mesmo passados já quase 30 anos. O que uma amiga falou no meu ouvido na hora do abraço. O abraço de uma professora que não conseguiu falar. As bocas abertas e nenhuma palavra a sair. Quantas pessoas passando, só hoje, pelo que passei naquele dia, sem os abraços?

E a quadra do clube aqui ao lado de casa está sendo reformada e tenho pegado no pé dos meus filhos para que entreguem as lições de casa no prazo e tenho me preocupado com o horário das refeições e feito planos tentando não sucumbir à vontade de deitar no sofá e chorar com os joelhos no peito, esforço que em algum momento vai romper e não sei o que levará de mim, mas agora também não é hora de antecipações, dar conta do presente já tem exigido muito do passado e do futuro. E sei que virou clichê, mas é verdade que eu queria estar escrevendo com mais esperança e menos cansaço, animada com a reforma da quadra e com o pão caseiro que ficou bom e com a quintadinha que descobri perto de casa cheia de orgânicos… mas são muitas as mortes e eu preciso escutar o silêncio.

 

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Verão, outono, inverno e inverno

O cenário lá fora está branco e cinza. Eu gosto. Acho que combina com xícara de chá, lâmpada amarela e um livro. Pena que não posso passar o dia assim. Meu filho não entendeu a lição sobre classe dos números no milhar, milhão, centena, dezena, valor relativo e absoluto. Mentira, quem não entendeu fui eu e já devo ter escrito tudo errado aqui, mas me esforcei para ajudá-lo, até que disse: “se estiver errado tua professora te explica e tudo bem não aprender isso agora, isso agora é um valor relativo, entendeu, filho?” E o dia cinza com uma camada de ar branca e espessa cortando o horizonte de prédios. Quantas pessoas morreram nas últimas 24 horas? Parei de ver. E me sinto mal por isso. E se vejo também me sinto mal, literalmente fico sem saída dentro de mim e desse apartamento. E que bom que eu tenho um apartamento. Pare de carregar as dores da humanidade nas costas, Luciana, minha terapeuta já cansou de me falar. Mas como faz?, ainda não aprendi.

Está muito frio hoje. Será que o Sr. Wilson, que costuma dormir na calçada, vem hoje? Onde ele estará agora? Ontem ele disse que não queria lanche nenhum. “Mas eu trago pro senhor, Sr. Wilson”. “Traz não, taz não”, a voz dele saía fraca como sempre. Talvez ele me quisesse distante para poder ler.  Já percebi que ele prefere os clássicos. E que não gosta muito de conversa. Em dias como o de hoje gosto de ler os russos. E já vi o Sr. Wilson com “Crime e Castigo”.

Proibiram a leitura livre nos presídios de São Paulo. Uma gente que nem gosta de ler, decidindo o que aqueles que já são privados de todos os direitos lerão. De preferência livros edificantes. Essa gente não entende nada de literatura. Ou entende e justamente tem medo dela. “Pra cima de mim, não, que fique tudo como está”. Estou cansada. Estamos cansados. Às vezes penso que é muita sacanagem ter que ser brasileira a viva toda. De algumas nacionalidades podíamos tirar férias. Vocês, do Brasil, têm direito a um ano, a cada década, de viver na Escandinávia. Ou também não será assim? Além de frio, que dia é hoje? Ouço meu filho terminar uma aula, “valeu, galera, até amanhã”, e as janelinhas se fechando e meu peito apertando. A galera… O frio na pandemia brasileira é ainda mais gelado. Será que em novembro vou poder fazer uma festa de aniversário com meus amigos, mãe?, o mais novo pergunta. Em março eu ri dessa pergunta feita pelo filho que aniversariou em junho. Agora não rio mais. Há meses não rio mais. Não sei nada, meu filho, não sei nada de nada.

Todos os dias um pouco do que eu era e pensava e sentia e sabia se esvai. Nada de concreto onde me segurar. A cabeça dói, a ponta do nariz dói, a lombar, o osso do nariz onde os óculos se apoiam, os dedos das mãos, os pulsos, apareceu um calombo no meu punho esquerdo e eu sei que só tenho a agradecer. Onde estará o Sr. Wilson? Se ele aparecer hoje, eu levo um lanche, mesmo ele dizendo não e não e não. E talvez “Noites Brancas”, de Dostoiévski. Se ele não leu ainda, acho que poderá gostar.

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Entre conchas, choros e sussurros, um pouco de alegria

Sempre gostei de antiguidades. Há uma senhora centenária que mora em mim e que fica toda eufórica quando encontra lugares ou coisas que lhe eram familiares. Foi assim que me senti quando conheci o centro antigo de São Paulo, por exemplo, sei lá quantos anos eu tinha. Nunca me diverti muito vendo arranha-céus espelhados com elevadores panorâmicos que falam com a gente, tão o contrário do que sinto ao ouvir o estalar do piso de madeira de casarões. Quem será que já passou por aqui?, fico imaginando. Amaram?, Sofreram? Riram? Dançaram nesse piso?

Meu filho me perguntou, ontem mesmo, qual era minha matéria preferida na escola. Sempre foi História. E ele não se conformou. Gostar de ficar sabendo dessas velharias, credo, mãe! Mas como entender as novidades, meu filho, sem saber das velharias? Não somos também parte das histórias dos nossos antepassados? Não carregamos deles mais do que a carga genética? Não somos frutos de escolhas passadas?

Essa semana comecei um curso de croata e quase todos ali, na tela do computador, mencionaram a vontade de se embrenhar mais nas raízes. Só de ouvir alguns sons emitidos pelo professor já fui parar na cozinha do meu tio-avô, onde minha bisavó croata, todos os sábados, se reunia com os filhos. Eu não entendia nada do que diziam, mas o som daquelas palavras, sempre entrecortado por risadas, era um fundo me sussurrando que tudo estava bem. Fazer aula de croata é voltar a esse quintal, como colocar aquelas conchas no ouvido e ouvir o mar. Ainda isolados por conta da pandemia, essa concha, que minha outra avó, a de família espanhola, mantinha na sala, me faz falta.

Essa semana também, depois de meses saindo muito pouco de casa, e ainda assim para ir praticamente à farmácia e ao supermercado, precisei arrumar os óculos quebrados. Andei um pouco pelas ruas do centro de São Paulo, dessa vez sem conseguir reparar nas belezas que meus olhos sempre procuram e enxergam. Dessa vez, mais do que nas outras, tudo o que eu via eram pessoas pedindo comida e dinheiro. Sim, há ainda mais gente nas ruas. Frequento o Centro há muitos anos. Há muitos anos também ando mais a pé e de transporte público do que de carro em São Paulo. Por escolha. Foi um ótimo tratamento, aliás, para a síndrome do pânico, cujas crises vieram quase todas enquanto eu estava engarrafada nas ruas, trancada dentro de um carro. Mas nessa última saída, a mais longa do ano, achei que a crise podia voltar. Comprei água com gás para um homem que passava mal na calçada, lanche para um pai com duas crianças, dei dinheiro, dei umas bolachas que tinha comprado para mim, a agonia me tomando enquanto meus olhos se enchiam daquele desespero todo. Voltou à memória a imagem antiga de uma mulher defecando na calçada, o corpo escorado na parede de um restaurante, olhando para os lados na tentativa de perceber se alguém a via ou não. Eu vi. Nunca mais esqueci. Tem gente que não tem nada. Absolutamente nada. Nem lugar para cagar, foi o que pensei. Passei dias com a imagem daquela mulher na retina. E como constatei essa semana, ainda a tenho aqui. Porque, eu queria contar para o meu filho, isso que vemos hoje já estava lá atrás, nas velharias. História é o caminho, meu filho, não só de onde viemos, mas também para onde iremos.

Estou para acabar a leitura de “Um defeito de cor”, da Ana Maria Gonçalves. Novecentas e quarenta e sete páginas. Já são uns dez dias não querendo fazer mais nada a não ser ler esse livro. Essa mulher negra defecando nas ruas de São Paulo já estava lá, nas ruas de Salvador e de São Sebastião no século XIX. O que fizemos nesses anos todos para melhorar? O que fizemos de efetivo em todos esses séculos? Temos um problema de fundação. Tem um monte de velharia, nas palavras do meu filho a nos mostrar isso. Entre pisar nas madeiras dos casarões e chamar os elevadores só com a voz, há ainda um monte de gente sem teto e sem canto para guardar suas conchas. Se olharmos para trás, dá para ver que o caminho escolhido apontava para isso. Se olharmos agora, dá para ver que lá na frente teremos a mesma sensação de termos pegado o caminho errado.

Voltei para casa como se tivesse entregado minha alma para tantos pedintes na rua. Escolhi um livro para ler com meu filho, um que nos contasse sobre histórias já passadas e ainda presentes. Um que nos mostrasse que estamos mais em círculo do que imaginamos. O sussurro das conchas a embalar nossos sonos. E no dia seguinte ele acordou querendo saber mais sobre os caminhos percorridos até aqui. E eu sigo na esperança de que conhecer o passado pode melhorar o futuro.

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Mundo encolhido

Da janela de onde trabalho, em casa, vejo a reabertura do clube. As oito quadras de tênis nunca estiveram tão cheias. Uma das primeiras atividades liberadas e imagino que até quem nunca pegou em uma raquete achou que agora era um bom momento para começar. Um jogador longe do outro, distância segura, super segura, eu vejo daqui, mas minha mente não consegue deixar de pensar nas gotas de suor que podem voar carregando vários coronazinhos. Sim, minha mente é invadida por essas imagens, coloca até asas em gotas de suor. Já achei também que vírus podia ter asas, mas quem entende do assunto me falou que não é assim e não viaja, Luciana!

Nas aulas de ciências, quando criança, tive que deixar a sala de aula várias vezes. Quando estudamos elefantíase, senti meus tornozelos inchando e meus pés se pregando no chão. Tive que correr para o banheiro antes que fosse tarde. E o livro com a ilustração do ciclo da esquistossomose? Pra quê, senhoras e senhoras, pra quê? Eu levantava os pés do chão (sim, de cimento, com piso, em uma escola urbana) com medo dos caramujos que podiam levar sei lá o quê para a minha corrente sanguínea. Nas aulas eu tive sintomas de catapora, sarampo, caxumba e rubéola. Se bobear até de gripe espanhola. Quando Pedro Collor morreu, um neurologista quase perdeu a paciência ao me convencer que minhas dores de cabeça não eram um tumor.

No surto da H1N1, eu no final de uma gestação, a família se preocupou com a quantidade de álcool gel que eu mantinha em casa. Meu filho nasceu e eu me perguntava se faria mal enfiá-lo na banheirinha com esse gel (o rosto para fora, claro). Nunca permiti que um médico me explicasse com detalhes algum procedimento mais invasivo que precisei fazer. Em uma das vezes, um exame ginecológico chato (mais chato do que normalmente é) e doído (mais doído do que normalmente é), o médico me explicou que ele era obrigado a dar detalhes de como seria o exame, justamente porque era muito mais chato e muito mais doído. Me recusei a ouvir. Ele reforçou que era obrigado a me explicar e começou. Eu tapei os ouvidos feito criança, com direito a “lálálálálá” e tudo.

Essa semana fui buscar uma encomenda na rua. Pra quê! Ao entrar no prédio de volta, de máscara, me deparo com um visitante, também mascarado, entrando comigo. Corri para o elevador enquanto ele era anunciado, o contrário do que costumo fazer, mas não deu tempo. Ele chegou e eu ainda esperava o elevador. Todo animadinho, com som portátil e tudo. O elevador chegou, ele abriu a porta, até me ofereceu passagem, e eu tensa como se tivesse que andar na prancha de um navio pirata. Não aguentei: vamos juntinhos mesmo? Meu medo falou mais alto que minha boa educação (apesar de eu saber ser bem mal educada). Ele entendeu. Pode ir, me disse. Agradeci, super envergonhada, quase gritei quando a porta já estava fechada: normalmente não sou assim!, mas deixei pra lá. Saí o mais rápido que pude quando o elevador chegou no meu andar. Pode ser muito cansativo carregar a minha mente. Por isso o dia acaba e abro um livro, acendo uma luminária nova que comprei de uma pessoa que faz uma por uma, com as próprias mãos. Luminária que está ao lado de alguns cadernos, também feitos por um único par de mãos. Reduzir um pouco o tamanho e o volume do mundo. Pode ser bom.

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Estou em reforma, desculpe a bagunça

Passei em frente à TV ligada e vi uma cena de novela, como acontece desde que me entendo por gente. Atores brancos e atrizes brancas. Foi só isso que consegui enxergar. E é só nisso que tenho pensado. Onde está população negra do meu país, população que, aliás, é a maior parte dele? Estudei em escolas particulares a minha vida toda. Na primeira, entrei com menos de um ano e saí com quatorze. Tive uma colega negra nesse tempo todo. Sim, eu me perguntava por que só ela. Sim, eu me enfureci quando um menino a chamou de café. “Não passa a bola para a café!” Corri atrás do moleque, chamando-o de leite. “Se ela é café, você é leite, e daí?” Eu devia ter menos de nove anos, foi como consegui agir. Eu não entendia bem o que estava acontecendo, mas sentia que era muito injusto. E me enfureci de novo quando vi que fui a única a me manifestar. “Você ouviu o que ele falou?”, mas a bola já estava em campo de novo, ninguém para dividir comigo a indignação. Tinha algo muito errado e quanto mais comecei a falar, mais comecei a ser vista como uma pessoa que cria problemas.

A mãe de uma amiga uma vez abaixou o vidro do carro para gritar para um menino negro que corria pela calçada. “Pega ladrão, pega ladrão!” Sim, era uma adulta que se deu a esse trabalho. Por pura diversão. Perguntei, de dentro do carro do qual ela tanto se orgulhava (coitada, só teria mesmo coisas materiais para se orgulhar), o que ela estava fazendo, ao que ela me respondeu: “você não sabe? Preto quando corre é porque está fugindo da polícia”. De novo, eu tinha menos de dez anos, e só consegui dizer algo como “credo, não é nada disso.” Ela insistiu, disse que eu ainda não sabia como eram as coisas. Hoje fico feliz em ver que até agora não aprendi como são as coisas do ponto de vista dela. Aliás, quero mais que ela me odeie. Essa visão de mundo não me interessa. Nunca me interessou e passou a me interessar menos ainda depois que me tornei mãe.

E mesmo com todo esse senso de justiça que costuma me guiar (de novo, posso não saber bem o que se passa, mas sinto que não deveria ser assim), não foi sem susto e tristeza que entendi que sou racista. Eu entendi que não tem como ter crescido no Brasil e não ser racista. Sou racista quando me omito, sou racista quando sinto mais medo ao cruzar com um negro do que com um branco numa rua deserta, sou racista quando sou atravessada por pensamentos como “nossa, um juiz negro!; nossa, uma médica negra!”, sendo que nunca ouço uma voz interna dizendo “nossa, um juiz branco!; nossa, uma médica branca!”.  Sim, o racismo está lá, na minha estrutura, no meu inconsciente. É muito mais perverso do que eu podia imaginar.

“Mas, Luciana”, outro dia alguém me falou, sempre em tom de consolo quando me assumo racista, consolo que não busco e que justamente confirma o racismo estrutural, “você trata os negros tão bem, nunca fez nada contra eles”. “Pois é”, respondi, “tratar bem uma pessoa é só questão de educação. Não fazer mal a alguém é só questão de humanidade. A não ser que alguém não considere uma pessoa negra, pessoa. Não é?” Pareceu que não para aquela pessoa, que insistiu, dizendo que ela até abraça e beija a faxineira. E eu olhando para aquela cena na TV, brancos e brancas brancos e brancas brancos e brancas. É só isso que enxergo agora. Como é viver em um lugar onde pessoas com a sua cor de pele são a maioria e nunca são vistas em lugares de poder e destaque? Restaurantes? Qual a cor da pele de quem está comendo e de quem está servindo? Como meus pais nunca me chamaram a atenção para isso? Nas capas de revistas, sejam elas de moda ou de negócios, qual a cor da pele das pessoas destacadas? Nas escolas, qual a cor da pele de quem dirige, de quem ensina e de quem limpa? E assim fui abrindo os olhos e não conseguindo mais fechá-los, a ponto de às vezes perder o sono.

Repasso as escolas onde estudei, os lugares em que trabalhei, os lugares onde estou hoje e exerço alguma influência. Alguma coisa está errada. Muito errada. Aquele silêncio todo da minha infância, como se o racismo não existisse, como se o fato de não escravizarmos mais as pessoas tivesse resolvido a questão, como se abraçarmos as empregadas domésticas bastasse, como se não maltratar alguém só por causa da cor da pele já fosse até mais do que suficiente, e não se fala mais no assunto, não pergunte, não me incomode, não me faça refletir sobre as razões de eu, branco, estar só entre iguais em lugares de poder e destaque, está tudo bem, tudo resolvido, não posso correr o risco de sair desse lugar tão confortável em que estou. E a frase de Angela Davis martelando na cabeça, “não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”, e meu pensamento todo tomado por essa missão.

Preciso desaprender para aprender tudo de novo. Amigas e colegas negras com uma paciência infinita para me ensinar. Não sei como não cortam a minha cabeça branca. Se fossem os brancos, penso, já teriam cortado. E a literatura (a literatura sempre) escrita por negras e negros, me ajudando na desconstrução (salve Cidinha da Silva, minha guia dessa semana). Que das ruínas eu seja capaz de me construir um ser humano melhor. Do jeito que está, já deu.

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