Categoria: A Loka dos Livros

Crônicas da advogada, mediadora de leitura e sobretudo leitora Luciana Gerbovic.

Viagens na pandemia

Foi logo no primeiro mês de isolamento que meu filho mais velho me disse:

“Mãe, você está traumatizada com essa pandemia, né?”

E a resposta à minha pergunta “por que você está falando isso?” foi:

“Você está descobrindo que não suporta a sua família”.

“Não suporta” foi forte demais, respondi para ele. Mas, sim, eu continuei, ele não deixava de ter razão: é mais fácil (e saudável) conviver quando a gente não fica com a pessoa o dia todo, vinte e quatro horas por dia (literalmente e sem exageros). Seja essa pessoa quem for. Seja essa pessoa aquela para quem um dia você olhou e disse, acreditando que era verdade, até sendo verdade mesmo: eu passaria o resto da minha vida grudada em você (pequena homenagem ao dia dos namorados).

Eu, particularmente, acho que nunca disse essa frase para ninguém. A ideia de grude nunca me atraiu. Grudados em casa, então, so-cor-ro! Porque nem da ideia de casa eu gosto muito. Desde que saí da casa dos meus pais, minhas casas estão sempre com cara de quem acabou de receber os hóspedes. E faz um tempo que entendi a razão: nunca acho que cheguei ao meu lugar, toda casa me parece temporária e aquela arrumação definitiva fica sempre para depois. E tanto é assim que vendi uma casa própria e nunca consegui substitui-la (tem a falta de dinheiro suficiente, tem o pavor de fazer dívida com o banco por 475869097 meses com juros de 177294840292727174748484949393% ao mês e tem uma casa que nunca achei). Desde então, moro de aluguel. Se tiver que arrumar demais, se tiver que mexer demais, se simplesmente eu precisar mudar de bairro ou cidade, rescindo o contrato e mudo.

Talvez seja o sangue croata. Há relatos de que os ciganos se concentraram em países como Iugoslávia, Bulgária e Romênia.  Sempre gostei da rua, das casas dos outros, daquilo que não me é familiar. Na infância, tinha escovas de dentes nas casas de várias amigas. Bastava ouvir “quer dormir em …” para já responder com um “sim”. Talvez o final da pergunta nem fosse “em casa”, mas eu já estava pronta. Além da companhia das amigas, claro, tinha sempre uma comida que eu não conhecia (o lanche de frango da Tia Rê), um hábito que não existia na minha casa (tomar lanche da tarde na casa da Patrícia), um som (o violão do Tchê), espaços (o quintal com cachorros na casa da Mariana), luzes (amarelas na casa da Mette) e eu me encantava com cada detalhe capaz de ampliar meu mundo.

E, sim, eu gostava muito da casa dos meus pais. Gostava muito da minha casa. E na minha casa também eram várias as escovas de dentes das amigas. Cada uma com um nome, todas guardadas na primeira gaveta do gabinete embaixo da pia. Uma casa cheia de amigas e amigos. Então não era uma questão, como não é até hoje, de não gostar de ficar em casa. É só uma questão de “mas tem tanta coisa para ser vista lá fora”. Uma amiga, espírita, uma vez me disse que sou espírito jovem, encarnado poucas vezes, daí a vontade de conhecer tanto o mundo. Pode ser. Eu sei muito pouco sobre nada.

Mas sei que em 2020 resolvi voltar a fazer diário. No dia primeiro de janeiro listei todos os lugares que ainda quero conhecer e coloquei um asterisco naqueles que achei que seria possível conhecer ainda este ano. A lista segue lá e não deixei de acrescentar lugares. Não eliminei, ainda, os sonhos. Mas, por enquanto, viagens mesmo só com os livros (aliás, os únicos objetos definitivamente arrumados em todas as casas temporárias), em cantinhos da casa onde gosto de estar, de preferência longe dos meus filhos na hora da leitura. Até para eu poder olhar para eles depois de deixar o cantinho e me encher de amor e gratidão.

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Goela abaixo

Acordei e puxei o celular para ver as horas, mais tarde que o habitual. O sono foi todo entrecortado, como tem sido há muitas noites, ou dias, dias ou noites, dias e noites, perdi a conta, uma agonia que não diminui, salvo raríssimas exceções. Busquei um ânimo interno. Como tem acontecido há muitos dias também, o ânimo veio e durou do quarto à cozinha. Sim, tenho café preto quentinho. E pão. E frutas. E se nunca deixei comida ser jogada fora, neta que sou de fugidos da guerra na Europa, agora é que estou ainda mais vigilante. Da banana escura e mole vai sair um doce. Mas nem a ideia do doce me aquece. Só consigo pensar nas vidas negras que importam. No absurdo que é viver e ter que escrever e gritar essa frase. Escrever e gritar o óbvio que não é óbvio. Tomo café e penso nas vidas negras. Escovo os dentes e penso nas vidas negras. Troco de roupa e penso nas vidas negras. Mentira, quase não tenho trocado de roupa. Passo os dias de pijama e disfarço do peito para cima quando tenho reuniões e aulas on-line. Tento trabalhar. Tento escrever. Tento cozinhar. Esturriquei legumes em uma assadeira esquecida no forno. A água para o chá ferveu até sumir. Salguei tanto o peixe que ficou incomível, mas comemos mesmo assim – a guerra, lembra? Uma garfada e um gole d’água. O purê de batatas virou sopa. A sopa esquecida na panela virou um creme espesso. Também difícil de engolir. Assim como a notícia da criança de cinco anos que caiu de um prédio, onde estava porque precisou acompanhar a mãe no trabalho de empregada doméstica. E parece que a mãe foi andar com o cachorro da patroa e o filho ficou com a patroa. E parece que a patroa não olhou a criança, que queria a mãe, que andava com o cachorro da patroa. É isso mesmo: a empregada, mãe de uma criança que não está podendo frequentar a escola por causa de uma pandemia, passeava com o cachorro da patroa. E a criança, que queria a mãe que andava com o cachorro da patroa, caiu do prédio. Mas o cachorro passa bem.

E são tantos os dias em que sonho com uma vida em que teríamos que lidar apenas com todos os problemas inerentes à existência, que já são tantos. Mas não, eles parecem não bastar. Precisamos criar mais e mais e mais. E colocar no governo quem crie mais e mais e mais. Tanto sexo para ser feito, tanta música para ser cantada, tanta dança para ser dançada, tanta conversa para ser trocada, mas não. Criamos maldades.

E essa semana quem me salvou foi o Sérgio Sant’Anna, vítima fatal da COVID-19, mais uma, “mas é o destino de todo mundo”¹, né? Parece que foi isso, nem quero confirmar, fico na torcida para que não tenha sido, mas sei que foi, fui confirmar. Foi, é o destino de todo mundo, mas se pudermos adiantar alguns, não? De pretos e pobres de preferência, não? E o Sérgio me salvou com o livro “Amazona”, publicado em 1984, talvez mais atual do que à época. A genialidade e o humor do autor iluminaram os dias, em contraste com a escuridão sem luz no fim do túnel que é viver nesse país que anda para trás. Estamos sempre caindo na casa do “volte uma jogada”. Morremos asfixiados desde sempre. Mas quem é preto morre mais.

E eu queria falar de coisas boas. Nossa, isso é muito Regina Duarte, mas acho que não vou cortar a frase. Porque eu queria mesmo falar de coisas boas, todos nós queríamos, Regina, mas não dá. Em alguns momentos não dá e pronto e é preciso assumir. Como quando meu primeiro filho nasceu e foi levado para a UTI assim que me foi mostrado. Falei “seja bem-vindo, meu amor” e em seguida UTI. Eu jogada no buraco do mundo. Vinte e quatro horas de observação para os médicos descobrirem que tipo de cirurgia ele precisaria fazer. Vinte e quatro horas em que fiquei trancada no quarto, os peitos inchados e doloridos por causa de um leite não sugado, o corte da cesárea doendo da unha do dedinho do pé até o lóbulo da orelha, as batidas do coração suspensas, e meu pai fez uma piada. Uma piada da qual ninguém riu. Ao que ele, de dentro do seu pavor, soltou que era difícil aliviar tensão nessas horas. É, pai, eu respondi, porque em alguns momentos a tensão não é para ser aliviada e, sim, vivida. E esse texto, que nem gênero tem, ou melhor, não tem gênero, mas está na categoria dos textos ruins, vai ficar assim, porque é preciso respeitar o que sai agora. Uma frase e um gole d’água. Uma frase e um gole d’água. Vai assim mesmo. Porque está difícil de engolir. E vidas negras importam. Meudeus!

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Do susto inicial ou das criaturas ou de qualquer coisa que não sei nomear

Escrevo no dia do meu aniversário de 45 anos. Penso em partida de futebol, no apito que anuncia o final do primeiro tempo. O primeiro aniversário, e espero que único, passado em meio a uma pandemia que exige isolamento (no Brasil, por conta da consciência de cada um) social. Ver meus pais pela tela. E agradecer por ter meus pais do outro lado da tela. Mesmo que meu pai ainda esteja no hospital. Nesse andar também nascem bebês, minha mãe me conta, ainda que ela não saia do quarto onde está com o marido. Mas saber que há bebês é tão bom. É, mãe, é tão bom. Lembro do bebê de uma amiga, que conheci essa semana, também pela tela. Quando eu me tirar do isolamento, já que no Brasil é cada um por si – Deus acima de tudo, desde que o Diabo não atrapalhe -, não quero mais amigos pela tela.

Pelo rádio, enquanto escrevo, ouço a voz de Elis, “vivendo e aprendendo a jogar”. É, “nem sempre ganhando, nem sempre perdendo”, e o juiz apitando no meu ouvido. Nenhum cartão vermelho, alguns amarelos. Penso em “Encontros e despedidas”, “todos os dias é um vai-e-vem”, meus pais lá no hospital, onde também nascem bebês, eu em casa em busca de um raio de sol na mesa da cozinha, meus filhos na sala, o mais velho que acabou de vir até mim para me dar um beijo e dizer “mamãe bonita”, como ele faz várias vezes por dia. Tenho a sensação de que, quando estiver com o ninho vazio, é das vozes infantis que mais sentirei falta. “Mamãe bonita”.

O gato que chega e resolve se instalar sobre o teclado. Todos em busca de alguma quentura. A temperatura caiu muito essa semana, mas já estava frio lá fora. Há alguns meses. Terminei de ler Frankenstein, da Mary Shelley, essa semana. De quantas coisas falamos só de “ouvir falar”, sem saber exatamente do que se trata? Se ouvíssemos mais e falássemos menos… Frankenstein era uma dessas coisas para mim. A criatura sem nome, que passa os dias em busca de escuta. “Escute-me”, é só o que ela pede. Assim como meu outro gato, que mia aos meus pés. Assim como as crianças na sala que me chamam. Assim como mais uma menina negra baleada na cabeça.

Gosto de ouvir minha mãe contar sobre o dia em que nasci, assim como meus filhos gostam de ouvir sobre o nascimento deles. A história de cada um. A criatura de Frankenstein, como tantas criaturas criadas pela elite brasileira, sem ninguém para ouvir sua história. Nós somos as nossas histórias, a Michelle Obama disse isso e eu concordo. Não, não somos só as notas que tiramos nas provas. Somos tão mais. Mi nha mãe, que conta que ficou admirada ao ver meus olhos arregalados logo que me levaram para o colo dela. Ela esperando um repolhinho de olhos fechados e chega uma menina com os olhos bem abertos. Também conta que cheguei virando a cabeça, como se já quisesse entender onde estava. Acho que esse susto inicial, tão visível para minha mãe, nunca me abandonou. Sigo até hoje arregalando os olhos e virando a cabeça para tudo tentar enxergar. E entender. Acho também que enxergo muito, mas ainda entendo pouco. Talvez não vá mesmo entender. Mas uma coisa eu aprendi: a gente quer é escuta. Que no meu segundo tempo eu possa continuar com os ouvidos abertos. E que possa encontrar ouvidos dispostos também. Afinal, se olharmos lá no fundo, no fundo mesmo, queremos todos as mesmas coisas.

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Socorro, Guima!

João Pedro. 14 anos. Setenta tiros. Se-ten-ta-ti-ros. Dentro de casa. Setentatirosdentrodecasa. Ágata. 8 anos. Oitenta tiros. Oi-ten-ta-ti-ros. No carro. No carro da família. Oitentatirosemumcarrocomumafamíliadentro. Quem mais? Quantos nomes não sabemos? Alô, Brasil, quem vamos matar hoje? Quantas crianças? Mas crianças negras, hein! É, a carne negra é a mais barata do mercado. A primeira vez que li essa frase… só consegui paralisar.

E tem o Covid-19 e quase vinte mil mortos no Brasil. Quase vinte mil pessoas mortas e os feriados de novembro e julho e junho, nem sei mais que dia, mês ou ano é hoje, os feriados adiantados e nós vamos para a praia, que é para onde se vai nos feriados se você não for parte dessas famílias mortas pelo Estado dentro do carro ou dentro de casa. E não tem ministro da saúde. Nem da cultura. Mas não precisamos. Tem cloroquina e tubaína. E parece que tubaína era o apelido de uma tortura praticada na ditadura militar. Não vou conferir a veracidade da informação. Não quero saber. Não aguento. Tudo dói. A unha, o fio do cabelo, as solas dos pés e as palmas das mãos. A minha incapacidade dói. Ser essa pessoa que nada faz diante do horror dói. Dói em lugares fora do meu corpo, como se a alma fosse concreta. Uma dor que tento alisar com a mão, mas a mão não alcança. Porque não há algo para ser alcançado. Não há coisa a ser alcançada. Coisa.

Meu filho não dormiu uma noite inteira assustado com um vídeo que viu dentro de um jogo que nem sei qual é porque ou trabalho e cozinho e limpo ou vejo o que as crianças estão fazendo na Internet, aqui, ao meu lado. O vídeo era sobre pessoas que moram em uma cidade e tomam uma pílula da felicidade, mãe. O nome disso é São Paulo e Rivotril, respondo para o meu filho, que não entende, claro, ainda bem, e me olha arregalado e diz que felicidade não se toma. Felicidade se sente, mãe. Sim, meu filho, é isso, felicidade é rara e se sente, e geralmente naqueles momentos de distração, horinhas de descuido, como escreveu o velho e grande Guimarães Rosa! Salve, Guimarães! Felicidade singela que tem me escapado porque tem morte demais e descaso demais e ódio demais e falta de responsabilidade demais. Porque tem meu pai no hospital sem poder receber visitas e não, não é Covid-19. É que outros vírus e bactérias e células cancerígenas também não respeitam o isolamento e continuam por aí, rondando nossos corpos e o ar poluído que ainda respiramos. É que tem a vida.

E tem a Internet que cai. O aplicativo do banco que não funciona. O sobrepeso. A fruta que apodreceu e ninguém viu. O leite que azedou. O supermercado que não entregou. A ligação via Internet que precisa ser reiniciada uma, duas, três, não aguento mais, vezes. A minha angústia que é mais veloz que meus dedos no teclado e sai tudo errado, tudo confuso, tudo cansado.

Tem um grito aqui, preso entre o estômago e a garganta. Um grito que fermenta, sem buraco por onde sair. Vou inchar. Estou inchando. Estou inchada. Essa semana, acho eu, porque certeza não tenho nenhuma, só Guimarães pode me salvar.

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Os anos, os meses e os dias

Foi Dia das Mães.

Geralmente, nessas datas comerciais comemorativas que nós condenamos por serem comerciais, mas que aproveitamos para comemorar porque gostamos de símbolos e, bem, não resistimos aos apelos comerciais, nós escrevemos com antecedência sobre elas. Ou no dia da comemoração. Mas é que continuamos com os números indecentes da pandemia e seguimos para o terceiro mês de isolamento, de forma que só me lembrei do Dia das Mães no domingo em que se comemora o Dia das Mães. E só me lembrei porque mensagens com fotos de flores começaram a chegar pelo Whatsapp, o que me fez chamar meus filhos e dizer ei, hoje é Dia das Mães, coloquei a mesa do café, mas não vou tirá-la, nem vou fazer almoço, muito menos o jantar, e quero massagem nos pés, o que foi recebido com algumas gargalhadas. Não ganhei nenhum desses presentes. Mas mãe é essa coisa mole, que derrete feito a manteiga que passa no pão quando vê um bigode do leite que ela esquentou no rosto do filho.

Já são muitas as manhãs em que abro os olhos, quase sempre depois de ter passado horas na madrugada com eles abertos, e me pergunto em que mês estamos. Já entramos em abril? Então me lembro que sim, também teve um domingo de Páscoa que esqueci, um domingo de Páscoa sem ovos de chocolate para as crianças, que descobriram que ovos de chocolate não são itens essenciais, o que me fez lembrar de ter cozinhado carne vermelha na Sexta-feira Santa. Apesar de não ser cristã e muito menos católica, passei a vida comendo peixe nesse dia. A culpa sempre me caiu muito bem.

E teve o aniversário do meu pai. Sim, teve, puxo na memória. Papai fez setenta e cinco, o que me lembra que farei quarenta e cinco, e teve “parabéns” virtual, então sim, já entramos em abril. E já entramos em maio, mês do meu aniversário, que também deverá ter um “parabéns” virtual. E em algumas manhãs até me localizo no mês, mas tenho dificuldade com os dias. Passo a quarta achando que é quinta ou a quinta achando que é quarta. Não bastasse a falta de dinheiro, atrapalho-me também com os vencimentos das contas. Mas já é dia 10? O quê, já passou o dia 15? E pode ficar muito difícil respirar. Mas há a literatura, penso. E escolho uma escritora ou escritor para me acalmar.

Nessa semana foi Annie Ernaux, com o livro “Os Anos”. Eu sabia que tinha algo de muito especial ali. Abro o livro com carinho e aspiro fundo a primeira frase:

Todas as imagens vão desaparecer.

Tem muita imagem bonita que vai desaparecer. Mas as feias e cruéis também irão. Pode demorar muito, mas a Annie está certa, todas as imagens irão desaparecer. Dói. Mas também alivia.

Viva a literatura!

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Em busca do verde perdido

Depois de quarenta e oito dias dentro de um apartamento, no centro de São Paulo, com duas crianças transbordando energia represada, conseguimos colocar internet no sítio da família, onde cresci e de onde meus pais se mudaram há anos, o que nos permitiu mudar de paisagem. Assim que minha irmã me avisou, pelo Whatsapp que ora agradeço e ora amaldiçoo, “temos internet”, arrumei minha mala com um notebook, pouca roupa e muitos livros, mais as malas e o material escolar das crianças e fomos. Está certo que uma não colocou o material no carro, mas isso fica para outro dia para eu não me estressar (mais) de novo.

Há pelos menos dez anos eu não dormia no sítio, desde que meus pais se mudaram às pressas em razão de um assalto traumático. Mas o importante era sair do apartamento. O importante era o verde que não vemos em São Paulo. Como disse meu filho, assim que chegamos: “ver árvore dá uma esperança, né?”.

Com o sol já posto, a segunda pergunta do mesmo filho: “mãe, será que vou conseguir dormir aqui? É silêncio demais”, ele explicou. Eu, na cozinha, preparando um lanche, respondi: “não para mim”.

De fato, longe da zona urbana o silêncio pode ser ouvido, assim como a escuridão vista, mas a casa onde passei a infância e a adolescência fala. Na cozinha, onde agora eu preparava o misto quente, a voz de minha mãe nos chamando para comer. Os barulhos das panelas. Os latidos dos cachorros do lado de fora, com quem minha mãe conversava. Tinha um cachorro que chorava enquanto comíamos, contei para o meu filho, e sempre o colocávamos na conversa, para que não se sentisse deslocado. “Ele era fofinho?”, meu caçula pergunta. E contei a história da chegada do Tobias à nossa família, de laço e tudo, um presente para minha irmã.

Na sala a voz de meu pai, reclamando das novelas. “Vocês ficam vendo essa dramaturgia barata, com gente boa ou gente má, precisam ver arte de qualidade, o ser humano não é binário”. Não ligávamos para o que ele dizia, nem sabíamos o que era binário, e meu pai não deixava de nos alertar. Nunca deixou. Os passos apressados, meus e dos meus irmãos, no corredor dos quartos, o medo de andarmos no escuro de uma casa grande no meio do mato, como meus filhos agora. O vento que uiva e entra pelas janelas. Sempre foi assim, contei para meus meninos de olhos arregalados. Quando éramos crianças, minha mãe mandou cortar umas espumas para colocar no vão das janelas. Na falta dessas espumas, preencho os vãos com a própria cortina.

E tem os beijos que eu trocava com os namorados, no lado de fora da casa, na hora de me despedir. O sítio que era tão afastado da cidade, que me fazia pensar que nunca arrumaria um namorado com amor suficiente para ir até lá me ver. Mas fui muito querida, eles vieram. Conto sobre eles para meus filhos, que defendem o pai. O pai que é mais bonito. O pai que é mais legal. Assim como eu defendia meu pai quando, no quarto onde agora estou dormindo, minha mãe abria uma caixa de madeira onde guardava as cartas de um ex-namorado. “Que ridículo esse Toninho”, eu dizia para minha mãe, sem saber então que todas as cartas de amor são ridículas. E não entendia a bronca que tomava do meu pai: “não fale assim, sua mãe gostou dele e você tem que respeitar”. Frase que meu marido repete para os meus filhos.

Nas paredes da sala, os quadros que meu pai pintou e não levou quando se mudou. Tantas perguntas sem respostas em todos os cantos da casa. Em cada canto, uma madeleine*. Escolho mergulhá-las ou não no chá de hortelã, que recolho do que sobrou da horta.

Não consigo escrever como Proust, mas tenho aqui umas páginas em branco e uma pilha de livros, além daqueles que encontrei guardados, cobertos de poeira. Se o trabalho doméstico e o remunerado, mais as aulas das crianças permitirem, poderei fazer, ainda que doída, uma bela viagem.

 


(*) Bolachinhas francesas.
(*²) Valentin Louis Georges Eugène MARCEL PROUST foi um escritor francês, mais conhecido pela sua obra “Em Busca do Tempo Perdido”, publicada em sete partes, entre 1913 e 1927.

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Shhhhhhh

Eu tinha quatorze anos, disso me lembro bem, quando cheguei faminta da escola e fui direto para a cozinha. O almoço ainda não estava pronto, nem a mesa posta. No fogão, aquele pininho da panela de pressão girava e soltava um chiadinho. Tive dificuldade para soltar a trava de segurança e enxergar, afinal, o que minha mãe preparava. Foi quando ela, como se enviada pelos anjos, entrou na cozinha e soltou um berro de horror. Larguei o cabo da panela na hora e respondi: só queria ver o que tem para o almoço. E você não sabe que não pode abrir panela de pressão???, ela continuou berrando entre incrédula e aliviada. Não, eu não sabia. Está certo que ela não tinha me ensinado, mas eu era, mesmo, essa adolescente sem noção nenhuma de cozinha (ou seja, de química, de física e da realidade). Tenho uma tia que, com quase trinta anos e recém casada lá nos anos 1970, resolveu fazer uma feijoada para o marido, prato que ele adorava. Era um sábado e ela comprou feijoada enlatada para o grande dia. Não cozinhava nada. Absolutamente nada. Leu as instruções e pronto: colocou a lata, fechada, dentro da panela de pressão. Perdeu o almoço e quase perdeu também a inteireza do rosto quando a lata voou da panela e abriu um rombo no teto. Desconfio que, no lugar dessa tia, eu teria aberto a lata e despejado o conteúdo na panela, mas é essa a minha linhagem. Ao menos parte dela.

Cresci sabendo fazer só duas coisas, e olhe lá: ler e escrever. Escolhi profissões que dependem dessas habilidades. Enquanto morei sozinha gastei muito dinheiro em restaurantes, e depois de casada também. Até que vieram as crianças. E eu fiz as piores papinhas do mundo. Os bebês cuspiam e eu lhes dava razão. E mais dinheiro com comida pronta e cozinheiras. E minha mãe, a melhor mãe e avó do mundo, que sempre nos salvou. Quando não tínhamos alternativa, era macarrão com molho de tomate, macarrão com molho branco e macarrão na manteiga. E ovo mexido. Porque o frito não dá certo de jeito nenhum. E o macarrão podia variar: com ovo mexido e sem ovo mexido. E os meninos foram crescendo e dizendo que meu macarrão era o melhor do mundo. E eu só pensava: ah, quando o mundo deles se ampliar… Até que veio a pandemia do Covid-19 e o mundo de todo mundo se encolheu. Consegui, aos quarenta e cinco do segundo tempo antes de nos isolarmos em casa, um estoque de congelados. Mas o mundo ia se encolher ainda mais e por mais tempo. E eu, era o quê, afinal? Mãe de dois meninos famintos, como são todos os meninos em transição para a adolescência. Acordei um dia cheia de coragem e não deixei que ela sumisse entre o quarto e a cozinha, como acontece quase todas as manhãs. Estava obcecada: dessa vez o arroz ia ficar bom. E, sorte de principiante ou não, até meu marido se espantou: como você fez esse arroz tão soltinho? Encolhi os ombros discretamente, mas soltei fogos de artifício por dentro. E peguei todos os legumes que tinha na casa e fiz uma bela fornada regada a azeite. E teve peixe. E depois frango. E até a carne vermelha, meu maior pavor, já deu certo. Macia e bem temperada. Arrisquei feijão, que ficou comestível, mas a lentilha ficou boa mesmo. E fiz um purê de batatas, o prato preferido das crianças, que parecia uma nuvem. E teve até tortinha de maçã, que começaram feias, mas terminaram douradinhas e gostosas. Bolo de beterraba com chocolate. Pedi receitas pelas redes sociais. Ganhei várias e fiz algumas. As outras estão guardadas. Quero fazer todas, já gosto da minha comida. E tive até a ousadia de não seguir estritamente uma receita.

E deu certo. Deu certo! Pensei em pedir silêncio, como o poeta: nesse meu mundo encolhido e doído, nasceu uma flor. “Vejam!, pode ser feia, mas é uma flor”(*). E, em meio às panelas, à louça suja, à faxina, ao trabalho agora menos remunerado e às lições de casa das crianças, saíram também os textos jogados nas redes, uma tentativa de respiro e aproximação, porque sim, eu gosto tanto de gente, e chegou o convite para escrever nesse blog. Puxa, mais uma flor, ainda que feia. E talvez, mesmo nesse momento tão triste e duro para o mundo, a gente consiga cultivar um pequeno jardim.

Obrigada, Silvia!

 

(*) referência ao poema “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade

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Homeoffice

por Luciana Gerbovic

Hoje amanheci (já que não dormi) decidida a encerrar umas pendências do trabalho. Tudo ajeitado na minha mesa do “homeoffice”, que é a mesa de jantar mesmo, mas antes o café da manhã das crianças. Suco de laranja espremida na hora, ovo mexido, fruta, entuchando o que posso de bom e saudável nesses meninos.

Depois é colocá-los pra tirarem o pijama (por que, mãe, se ninguém sai de casa?), escovarem os dentes (por que, mãe,…), o cabelo (faz o que tô mandando e não pergunta) e finalmente ajeitar o material para as lições que a escola ia começar a mandar hoje. Mas tem que entrar no Googleclassroom e colocar os códigos. Tem que criar um e-mail pro mais velho e explicar pro mais novo que ele não terá esse esquema porque ele está no Fundamental I. Tem que se inteirar do esquema do Fundamental I. E tem que descobrir que o filho mais velho não acha mesmo o livro de Matemática e descobrir que o livro ficou na escola, e dar um jeito do livro voltar pra casa, mas aí já é hora do almoço e tem que ter legumes e verduras e peixe e comida fresca e depois do almoço pronto e da louça lavada tem o livro de Matemática que chegou e aí o filho pode começar a lição, mas ele está quase tão perdido quanto o Você Sabe Quem na presidência e resolvo sentar com ele, com todo o trauma que tenho das lições de Matemática, com toda a falta de paciência que tenho pra menino cheio de privilégio que não entendeu como deve se portar na escola e cuidar das coisas, mas sento e me encho do amor que sinto por ele e supervisiono a lição de expressões numéricas e acolho os erros e as dúvidas e o desleixo para transformá-los em desafios superados. E a lição fica tão caprichada que ele acha que o professor vai desconfiar que nem foi ele que fez.

E eu choro porque hoje à tarde eu deveria estar com meus alunos da Escrevedeira falando de literatura. E meus filhos me abraçam dizendo que logo estarei com eles. Enxugo as lágrimas e já é hora da janta. E tudo fresco de novo. Faço arroz e fica bom! E sirvo o jantar e enquanto o marido lava a louça e comenta que pelo WhatsApp os amigos acham que devia ter aplausos nas janelas para os maridos que estão em casa, eu berro em nome da luta feminista e digo que não vou jogar biscrok pra macho que tá fazendo o mínimo do mínimo do que poderia fazer e guardo a louça e coloco as crianças no banho e rezo pra virar lésbica depois que esse isolamento acabar porque de homem hétero já estou pelas tampas das panelas que eles não sabem onde ficam.

E faço um bate-papo virtual com as manas inteligentes da porra antes de regar as plantas. E tomo um banho e penso nas mulheres que não têm os meus privilégios, nos alunos que não têm os privilégios dos meus filhos, no trabalho doméstico que deveria ser remunerado e muito bem remunerado. E choro. E saio do banho e acho que mereço esticar as pernas no sofá.

Quase 23:00. E porra!, os trabalhos pendentes que assim continuaram, lá no meu “homeoffice”…

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