“Mãe, compra um suco?”. Já viram o preço de um copo de suco num restaurante comum? Em Brasília, custa em média R$ 6 o copo.
“Mãe, compra cartas Pokémon?”. Depois que passou a febre das figurinhas da copa, ele voltou a fuçar a caixa que guarda mais de 200 cartas desses bichinhos esquisitos.
“Mas, mãe, só custa R$ 6”. Paro, respiro, penso e tento explicar que é quase o valor de uma passagem de ida para o trabalho. O ticket de metrô em Brasília custa R$ 5.
Dias atrás, ele chorou quando me despedi para ir ao trabalho. Pedi calma. “Logo as coisas se resolvem e consigo organizar melhor a logística para ter mais tempo”, disse eu.
Há dois anos deixei o jornalismo para trabalhar como artista em eventos. Passei a ter mais flexibilidade de horário, porém, abri mão de certos luxos. Deixamos o carro, evitamos comer em restaurantes, quase não compramos roupas. Cinema é raro. Viagens nem se fala.
O primeiro mês foi surpreendente. Recebi melhor do que quando era jornalista. No segundo, não foi tão bom, mas o primeiro mês compensou. Daí para frente, só malabarismo com a vida. Alguns meses tranquilos, outros uma corrida contra o tempo para conseguir o suficiente para pagar as contas.
Quando percebi estava trabalhando mais do que trabalhava antes como jornalista. Eventos nos fins de semana e escolas durante a semana. Isso porque o aluguel aumentou, a conta de luz subiu, a vizinha que dividia a internet desistiu por conta da péssima qualidade do serviço da Vivo, além da compra no supermercado que ficou mais cara.
“Mãe, minha cabeça está doendo.”
“Leva no oftamo”, aconselham.
“Mãe, tem um dente nascendo por cima do outro.”
“Ixi, vai precisar de aparelho de dentes”, ressaltam.
“Mãe, não consigo respirar.”
“Puxa, é alergia!”, afirmam.
“Tô pirando”, desabafo.
“Psiquiatra, nêga. Remédio ajuda. Tem convênio?”, perguntam. Imagina! Convênio? Desde quando isso faz parte da realidade de um autônomo?
Há meses tento uma brecha de tempo para enfrentar a fila do SUS e marcar tantas consultas.
Dia desses ele chorou de novo quando me despedi para ir dar aulas.
“Filho, eu preciso pagar as contas. Temos que nos ajudar”, expliquei. E entrei no metrô, cabeça a mil. Parei na frente da escola. Travei. Naquele dia eu iria trabalhar 8 horas, com crianças do berçário e do maternal. Já tentou conseguir a atenção de crianças de 1, 2 anos? E de várias delas ao mesmo tempo? Tentou?
Da mesma forma que eu, elas estão ali por falta de opção. Na verdade, preferiam estar em casa com seus pais, num ambiente seguro e confortável e não sendo obrigadas a fazer atividades de circo, inglês, nutrição, música, pintura, colagem, massinha, etc, por tempo integral. “Pelo amor de Deus, são bebês”, gritei internamente… e não entrei na escola.
Voltei para o metrô e surpreendi meu filho em casa. Com olhos cheios de lágrimas, ele gritou: “Mãe! Não acredito. Você voltou”.
Não é de cortar o coração? Avisei na escola que não poderia continuar o trabalho. Chorei e questionei o sistema. “Não existe outra forma. Você tem que aceitar!”, afirmaram. Bati o pé, gritei, dormi e acordei… “Quem vai pagar o suco, presentear com a carta Pokémon, pagar os aparelhos de dentes, os remédios da alergia? Quem?”.
Bem, sou mãe solteira (sem pensão), jornalista com dez anos de experiência, artista com dois anos de erros e acertos. Sou idealista e questionadora. Estou à procura de um emprego que me permita ter tempo para o meu filho e ainda assim ter condições de pagar além do básico. Temas como feminismo, igualdade, direitos humanos, pedagogia alternativa e arte me interessam. Você, empregador ou empregadora que se interessa por esse perfil ou conhece alguém que se interesse, entre em contato.
Acho que não é pedir demais… É?
Carol Oliveira
Jornalista, artista e mãe solo
Esta crônica integra a série “Vozes que pariram“, deste blog de crônicas, que tira da invisibilidade histórias de lutas de mães com o objetivo de provocar debate, reflexão e, quiçá, mudanças de mentalidade que melhorem as relações. Envie sua contribuição para silviapereira@palavreira.com.br se conhecer uma história que promova o objetivo do projeto.
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Eu me formei jornalista aos 22 anos. Viajei para Europa para um intercâmbio de dois anos, com o intuito de me especializar e ter mais oportunidades na minha profissão. No entanto, em apenas três meses de aventura eu descobri que estava grávida e decidi voltar para o Brasil.

Pois um psicólogo norte-americano, Daniel Gilbert, desconstrói alguns dogmas e derruba barreiras seculares para elaborar um plano de felicidade que não requer habilidades especiais nem grandes posses materiais. Gilbert, além de tudo um exímio argumentador, não se baseia em suposições, mas em minuciosos estudos de comportamento que tornaram as conclusões de suas pesquisas um conjunto de observações com alicerces na Ciência e não em pirotecnias impalpáveis.
Gilbert não faz suposições nem análises subjetivas. Seus levantamentos são diretos, atingem os alvos sem muito trololó, como a pesquisa com cinco mil pessoas de todas as idades e classes sociais que respondiam coisas como “o que faria você feliz neste exato momento?”, após um telefonema de surpresa – no trabalho, de madrugada, durante as férias. Para o cientista, não se trata de desprezar o que já foi feito por grandes cérebros da história. Ele preza demais, por exemplo, as distintas correntes hedonistas, que basicamente defendem a “felicidade que é simples”, a realização do indivíduo com as coisas básicas a seu alcance e sem nenhum malabarismo financeiro. Mas pondera que os estudos acadêmicos do mundo moderno, individualista e tecnológico, foram revelando, nem sempre para o bem, as atitudes de pessoas de todas as idades, crenças e situações sociais.
Acordei de madrugada e me dei conta de que aquela era a 28ª cama diferente em que dormia nos últimos 28 dias, e a última. Não havia mais o que andar. Na manhã seguinte pegaríamos o caminho de volta ao Brasil.

Quero me redimir da culpa de ter usado o nariz do Pinocchio para contar algumas histórias. Saibam que se misturei realidade com mentirinhas foi unicamente com a boa intenção de imprimir nelas um pouco da magia que permeava nossos passos. E já que estamos na penúltima crônica da série, vou revelar a vocês uma verdade sólida.





De chocolate com pistache foi meu brioche do café da manhã. Um abuso! Mas era ele ou a fome. Depois me perguntariam se eu tinha perdido peso por andar 700 km, mas de que jeito se emagrece comendo essas coisas?






