Silvia Pereira

Jornalista com 30 anos de experiência em redações e blogueira de cinema, séries e literatura; Silvia Pereira adora ouvir, ler, assistir e - principalmente - escrever histórias.

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Vamp filosofia

Acabo de assistir ao que acredito seja o ápice da segunda temporada da série “True Blood”, o episódio 9, “I Will Rise Up”. Duvido que algum outro momento da série consiga suplantar a beleza das últimas cenas deste episódio, em que um vampiro milenar e sábio renuncia à eternidade.

Não entrarei em detalhes sobre a cena e nem sobre os últimos dois saborosos episódios que contaram com a presença do personagem Godric, um vampiro de 1.800 anos (não quero estragar o prazer de quem acompanha a série). Basta saberem que fiquei tão tocada com a forma como se deu a saída de cena de tão rico personagem que não resisti a compartilhar isso no CINÉLIDE.

“True Blood” é mesmo surpreendente. Quando se pensa que trata mais de sexo, surpreende com um romance denso; enquanto em um núcleo costura uma aventura bem amarrada, no outro equilibra referências super atuais de ódio e incompreensão social. E agora surpreende de novo com um personagem que instiga questionamentos filosóficos sobre co-existência neste mundo louco. Adorei!

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True Blood: amor, sexo, tensão social e humor de HQ

“- Não repare se, por acaso, eu parecer um pouco… morta”. Esta frase é dita por uma vampira adolescente ao namorado humano, com quem pretende perder a virgindade – mas não antes de render-se ao seu reparador sono diurno. “Fico meio doente de dia”, explica docemente, ainda de presas à mostra.

Em um outro capítulo da segunda temporada do seriado “True Blood” – que no Brasil vai ao ar pela HBO -, um vampiro milenar trucida um humano após ser “atacado” por ele com uma corrente de prata (metal que, nesta série, queima a pele dos sugadores de sangue). Após o massacre, ele se vira para o outro prisioneiro humano, que assiste a tudo apavorado, e pergunta:

“- Tem sangue no meu cabelo?” Só então percebemos que o vampirão alto e atlético veste uma capa de cabeleireiro e traz algumas das madeixas aloirada embaladas em papel alumínio.

– Tem um pouco sim”, responde o humano em voz trêmula.

-Droga! Pat [a cabeleireira] vai me matar”.

Este tipo de humor prevalece em quase todas as cenas de “True Blood” – SIM, mais uma série sobre vampiros, estes personagens fantásticos que escritores e roteiristas das mais variadas épocas e mídias adoram explorar dramaturgicamente. Da literatura aos quadrinhos, da TV ao cinema, a lista de produtos envolvendo estes mortos-vivos é grande. Tanto que dei de ombros quando ouvi falar sobre mais uma série sobre vampiros, por achar que não havia mais ângulos a explorar.

O argumento de “True Blood”, porém, me surpreendeu. Aqui os vampiros “saem do armário” (digo, do caixão) e passam a conviver entre humanos após terem seus direitos civis assegurados por lei, mas sob a condição de deixarem de matar para se alimentar. Isto se torna possível com a produção, em escala industrial, da bebida Tru-Blood (trocadilho com o nome da série, que significa “sangue genuíno”), espécie de sangue artificial que supre as necessidades alimentares dos vampiros.

Mas como estamos falando da sociedade humana, na qual nenhuma transição social se dá sem guerra civil, declarada ou não, assim como ocorreu quando os negros foram libertados e os gays conquistaram direitos civis específicos, algumas parcelas da população discordam da integração e vão à luta. Não por acaso, aliás, o seriado se passa no sul dos EUA, berço da Klu Klux Klan (é impagável assistir a vampiros falarem inglês com sotaque sulista).

Do lado dos vampiros também há os que desprezam a nova política, tornando necessária uma organização social paralela, que pune quem fere os estatutos da espécie. Assim é que a comunidade vampira também tem seus xerifes de área, magistrados, governadores e até uma rainha, que volta e meia vai à TV participar de debates com políticos contrários à integração.

E esta prossegue mesmo aos trancos e barrancos, trazendo em seu bojo, como qualquer mudança, muito preconceito, conseqüências boas (como a abertura de um novo nicho de mercado para os vampiros, com criação até de quartos de hotéis à prova de sol, por exemplo) e ruins (no mercado negro, comercializa-se sangue de vampiro, que tem nos humanos mais ou menos os mesmos efeitos que a cocaína).

True Blood (cena sexo) LEG corteNeste quadro, o amor entre diferentes não podia ficar de fora. A protagonista Sookie, uma humana com poderes telepáticos interpretada por Ana Paquin (Oscar por “O Piano”), vive um caso de amor com o vampiro Bil Compton (interpretado charmosamente pelo inglês Stephen Moyer), com quem, inclusive, perde a virgindade. Aliás, cenas de sexo são o que não faltam na série -no mínimo uma com nudez explícita por episódio-, mas pelo menos todas estão inseridas dentro de um contexto na história. Não chegam a ser gratuitas, mas obrigam a série a ostentar classificação indicativa para maiores de 18 anos.

Mas não é o erotismo e sim o humor, nada convencional, o melhor trunfo de True Blood, depois das questões sociais. O humor aqui não tem nada de besteirol. É irônico, surreal, muito parecido com o das histórias em quadrinhos. Tanto que desconfio que nem todos os espectadores saberão apreciá-lo. Eu recomendo.

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John Hughes: o cineasta da adolescência oitentista

O cineasta John Hughes, que faleceu esta semana de ataque cardíaco, aos 59 anos, nunca foi um dos favoritos da crítica especializada, que considerava sua obra oportunista, superficial e comercial demais. É verdade que, depois de descobrir um “filão” no segmento adolescente, ele nunca mais abandonou a receita, emplacando sucessos como “Clube dos cinco”, “Gatinhas e Gatões”, “Mulher Nota 1000”, e o inesquecível, impagável e unanimemente festejado “Curtindo a vida adoidado”.

Mas também é verdade que, mesmo bobinhos e comerciais, seus filmes marcaram os jovens da década de 80, o suficiente para que pelo menos um deles se transformasse em cult de geração – ainda não conheci ninguém na minha faixa etária que não vibre ao lembrar “Curtindo a vida adoidado”, principalmente a clássica cena em que Matthew Broderick dança e dubla John Lennon em “Twist and Shout” , de cima de um carro alegórico.

Na pele de Ferris Bueller, Broderick personificava as aspirações do adolescente oitentista (que sequer sonhava remotamente com o advento da internet). Como não invejar um jovem carismático e bonito, com ousadia para cabular aula e passar o dia se divertindo pela cidade, com o melhor amigo e a namorada, a bordo de uma Ferrari “emprestada”? Tudo isso após montar os mais sofisticados esquemas para convencer pais, professores e colegas de que passaria o dia de cama. E ainda era sortudo o suficiente para colocar em apuros o diretor da escola e a irmã invejosa, que passam o filme inteiro tentando desmascará-lo.

Confesso que, romântica que sou, não tinha em “Curtindo a vida adoidado” meu filme preferido de John Hughes. Sempre gostei mais de “Clube dos Cinco”, que acompanhava cinco colegiais – cada um desajustado a seu modo- cumprindo um sábado de castigo na escola. Ao longo do dia, eles não só aprendem a conviver como acabam se unindo contra um inimigo comum: o inspetor, que simboliza, no caso, a autoridade contra a qual a juventude sempre adorou se rebelar.

Clube dos cincoO filme apresentou pela primeira vez alguns dos rostos que marcariam o cinema

adolescente do período – Judd Nelson, Ally Sheedy, Emilio Estevez, Anthony Michael Hall e Molly Ringwald – mas que também cairiam no ostracismo a partir da década seguinte. A ruivinha Molly, por exemplo, que foi a preferida de alguns diretores à época (vide “A Garota de Rosa-Schocking”, “Ligeiramente grávida”, “O Rei da paquera”), continuou filmando nas décadas seguintes, mas nunca mais emplacou sucessos tão retumbantes quanto os da adolescência. Tanto que a platéia ocidental costuma pensar que ela nunca mais fez filmes após os anos 80 (fez muitos, como você confere aqui, mas todos pouco vistos).

Judd Nelson e Ally Sheedy filmaram bissextamente ao longo das últimas décadas, a maioria fracassos de bilheteria. A carreira de Emilio Estevez também continuou como a de Molly: muitos filmes, pouquíssima visibilidade. Seu pai, o consagrado Martin Sheen, faz mais sucesso que ele e o irmão, Charlie Sheen (de “Two and a half man”), juntos.

Dos cinco do clube, apenas Anthony Michael Hall continuou sendo visto, em filmes e no seriado que protagoniza desde a década de 90, “The Dead Zone” (“A Hora da Zona Morta”, no Brasil). De Hughes ele ainda co-protagonizou “Mulher Nota 1000”, uma tremenda bobagem, na qual dois pré-adolescentes nerds criam uma mulher perfeita no computador (a então estonteante Kelly LeBrock, de “A Dama de Vermelho”).

Se deu bem

Das estrelas içadas por Hughes, Matthew Broderick foi o que mais se deu bem. Não virou astro de primeira grandeza, mas continuou “aparecendo” em produções de médio porte e fez trabalhos no teatro. Ultimamente, a grande mídia o vê mais como o marido de Sarah Jessica Parker (a Carrie de “Sex and the City”).

Hughes dirigiu muito pouco após sua fértil década de 80, mas continuou no metier como roteirista. Dá para reconhecer seu estilo nas histórias de “A Garota de Rosa-Schocking”, “Ela vai ter um bebê” e nos três “Esqueceram de mim”, só para citar os maiores sucessos de bilheteria que assinou. Todos levinhos e previsíveis… mas divertidíssimos! Para espairecer, até vale revê-los numa Sessão da Tarde regada a muita pipoca.

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‘Cranford’: leve e romântico

“Cranford”, minissérie em cinco capítulos produzida pela BBC com base em livro homônimo de Elisabeth Gaskell, , mostra a vida no pequeno povoado inglês que dá nome à obra, extremamente regrada e conduzida com base em regras rígidas de conduta social.

No começo assistimos com olhar crítico à repetição de costumes tão arraigados naquela sociedade dominada por matronas. Todas as ações são vigiadas e interpretadas segundo regras tácitas de comportamento, que acabam metendo forasteiros como o novo médico do povoado em muitas armadilhas e induzem solteironas mal afeitas a hábitos de outras terras a enganos.

Mas à medida que esses enganos e armadilhas vão colocando em apuros seus próprios habitantes, a solidariedade, a generosidade e o espírito de corpo vão se sobrepondo à rigidez dos costumes, revelando uma humanidade até então insuspeita por baixo daquele verniz social.

“Cranford” é um produto leve, bucólico, romântico, do gosto de quem, como eu, aprecia leituras como as de Jane Austen.

Destaque para as atuações acima da média de todo o conjunto do elenco.

Recomendo.

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O cinema precisa descobrir Ursula K. Le Guin

Em um dos meus primeiros textos postados neste blog comento que tive acesso a muitas obras literárias graças a filmes que assisti (procurando as obras que os inspiraram ou simplesmente os títulos citados em seus diálogos).

Pois bem! Acabo de encontrar outra preciosidade literária, não por acaso citada em uma comédia romântica que flerta descaradamente com a literatura: “O Clube de Leitura de Jane Austen”. Um dos personagens – o único homem em um grupo de mulheres que se reúne mensalmente para comentar os livros da escritora inglesa – passa o filme todo tentando convencer sua paquera a ler a obra de Ursula K. Le Guin, escritora de ficção científica norte-americana sobre quem eu nunca havia ouvido falar antes.

Demorei a me decidir por ler algo de Le Guin porque são poucas as suas obras editadas no Brasil – e as poucas publicadas não estão facilmente disponíveis nos sites em que mais confio para comprar online. Quando, enfim, consegui adquirir “A Mão Esquerda da Escuridão”, sua obra mais elogiada pela crítica, não consegui largar o livro, a não ser para trabalhar.

É ficção científica da melhor qualidade, que não deixa nada a dever a clássicos como “Admirável Mundo Novo”, por exemplo. Le Guin cria um mundo, geologicamente muito semelhante ao que teria sido a Terra na Era Glacial, habitado por seres humanos ambissexuais (todos têm o sexo feminino e masculino e podem procriar) e com um código de conduta completamente estranho a todos os que conhecemos.

Neste mundo pousa um humano do sexo masculino, enviado por uma entidade interplanetária com o objetivo de propor a seus governantes sua adesão à aliança, composta já por nove planetas. O humano enfrenta o descrédito, o preconceito, os choques cultural e psicológico e ainda a solidão de pregar novas idéias em um mundo completamente diferente dos que conhece.

Não darei mais detalhes para não estragar a surpresa de quem aceitar a dica, mas posso adiantar que os regimes de governo e as “realidades” inventadas por Le Guin no livro vão provocar as mais doidas e impensáveis reflexões, mesmo nas mentes mais abertas.

E adooooooro ser surpreendida por novos questionamentos, por isso a ficção -e todas as suas metáforas- me encantam.

Fica a dica de leitura e um desafio maior aos diretores de cinema de todo o mundo: ATREVAM-SE a filmar Ursula K. Le Guin.

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Com Michael Jackson, a música encontrou a linguagem do cinema

Cena 1:

O conversível que leva um jovem e bonito casal pára, sem gasolina, em uma rua escura;- Eles saem caminhando e aproveitam para conversar, se declararem..

– O rapaz começa a dizer que não é como os outros caras que ela conhece

– Enquanto isso uma lua cheia sai detrás de um manto de nuvens no céu

– De repente, o rapaz começa a contorcer-se em caretas até se transformar em um monstro, diante dos gritos da mocinha;O que começou como um filme romântico agora parece um thriller de terror.

E é.

Assim começa “Thriller”, de Michael Jackson, o clipe com de mais de 13 minutos de duração (até hoje um recorde para o gênero) que revolucionou a forma como se fazia vídeos musicais até então. Depois dele -e de muitos outros clipes de Michael desta época, como “Beat it”- nunca mais estas produções se restringiriam a apenas encadear cenas de shows ao vivo ou de músicos dublando as próprias gravações em um cenário imóvel.

Os clipes de Michael eram diferentes e superproduzidos. Contavam uma história, assemelhando-se por isso a curtas-metragens, mas ao mesmo tempo diferenciando-se deles pela forma fenomenal como combinavam números de dança e música, que hipnotizavam o espectador.

Com o sinal verde de Michael para casar da melhor forma a força de sua música à imagem em movimento, os diretores de seus clipes -recrutados no cinema, como John Landis e Spike Lee- deixavam a criatividade rolar, sempre auxiliados pela melhor e mais recente tecnologia que o dinheiro podia pagar (vide “Black and White”, primeiro vídeo a usar o efeito morfo para mostrar imagens de pessoas de várias raças transformando-se umas em outras, ou “Stranger in Moscow”, que usou o recurso da câmera lenta de uma forma inédita para a época). A lista de videoclipes memoráveis não para aí e inclui, só para ficar entre os meus favoritos, “Smooth Criminal”, “Heal the World”, “Earth Song”, “Childhood” (além dos primeiros citados acima).

Michael Jackson pode não ter sido o idealizador de todas as músicas deliciosamente dançantes ou de todos os clipes fantásticos que protagonizou, mas ter sabido se cercar das melhores cabeças do ramo já era uma prova irrefutável de sua genialidade. Não por acaso tudo o que fazia virava ouro – digo, milhões de dólares.

Mas nem os orçamentos milionários, nem diretores de cinema ou as tecnologias de última geração fariam dos clipes de Michael Jackson o sucesso que são até hoje não fosse um componente fundamental: o TALENTO do próprio Michael Jackson. Fora dos palcos ou das câmeras ele parecia um sujeito mirrado, magricela, de voz infantil e identidade sexual duvidosa, mas à frente deles transformava-se em um fenômeno!!! Um showman de carisma, presença e ginga até hoje incomparáveis e sem similares na história da música pop.

Restrinjo-me aqui a comentar apenas a parte de sua carreira que “namorou” com o cinema por motivos óbvios [é um blog de cinema, minha praia…], mas confesso que, a despeito de todas as polêmicas e escândalos que rondaram sua vida pessoal, sempre AAA-DOOO-REEEEI o trabalho de Michael e nunca dei a mínima para os preconceitos dos puristas, sempre contrários, por princípio, a tudo o que faz sucesso em escala de massa.

Não dá para ninguém negar. O cara era talentoso!

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Ralph Fiennes: todas as emoções no olhar

O destaque no olhar do ator Ralph Fiennes tem uma razão de ser. Embora eu o considere um ator completo, por dominar tanto linguagem corporal quanto expressão facial, voz e timing de cena, considero seu olhar são o ponto alto de sua expressividade (e da beleza).

Perceba que em cada uma das imagens de seus olhos ele passa uma expressão diferente, ora sensual, ora doce, em uma implacável, em outra assustador.

Assisti-lo pela primeira vez no cinema como o Heathclif de “O Morro dos Ventos Uivantes” (versão de Peter Kosminsky, de 1992, com Juliette Binoche no papel de Kathy) foi para mim um choque! “De onde surgiu esse ator de traços refinados, mas fortes que carrega todas as emoções do mundo no olhar?”, perguntei-me.

Desde então passei a procurar por filmes em que ele atuava e não me decepcionei uma única vez

Workaholic, Fiennes atua em duas a quatro produções cinematográficas por ano e ainda tem tempo de fazer muito teatro, sua grande paixão.

No cinema, não tem medo de aceitar papéis desafiadores, como o mordomo alcoólatra e homossexual de “Bernard e Dóris” ou os vilões de “Spider” e da série “Harry Potter” (é ele por trás de toda aquela maquiagem de Lord Voldemort).

Suas atuações conseguem provocar tanto sentimentos de ódio, como o fez seu perverso Amon Goeth de “A Lista de Schindler”; de asco, como no caso de seu Duque de Devonshire em “A Duquesa”; quanto seus personagens românticos conseguem enternecer em filmes como “Estranhos Prazeres”, “O Paciente Inglês”, “Paixão Proibida” e “Fim de caso”.

Sob a direção do brasileiro Fernando Meirelles (de “Cidade de Deus”) também encantou como o protagonista de “O Jardineiro Fiel”.

Sua presença em cena consegue dar dignidade até a personagens improváveis como o político da bobinha comédia romântica “Encontro de Amor” – pobre Jennifer Lopez, desfilando seus limitados dotes dramáticos ao lado de tal ator.

Mas lindo ele está mesmo em “Paixão Proibida” (título idiota que ganhou no Brasil “Onegin”), adaptação para o cinema da obra clássica “Eugene Onegin”, do russo Aleksandr Pushkin – a mesma da ópera famosa, com músicas de Tchailovski. A irmã de Ralph, Martha Fiennes, estreou na direção de longas com este filme e não fez feio. Ralph muito menos.

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Fracassados que são um sucesso!

Não é preciso assistir a muitos filmes norte-americanos para perceber o quanto o rótulo “looser” (perdedor, fracassado em inglês) é temido como a pior das humilhações nos Estados Unidos. Chame um norte-americano assim e garanta um inimigo para a vida toda (para você) e uma conta de anos em terapia (para ele).

Não é a toa que uma das trilogias mais festejadas do cinema, “De Volta para o Futuro“, explora esta fobia americana. Viajando para trás ou para a frente no tempo, o jovem Marty McFly tem a chance de checar o quanto suas ações podem, numa reação em cadeia, influenciar o futuro de sua família, de forma a tornar seus integrantes eternos fracassados ou distintos e invejáveis membros da sociedade.

Para a nossa sorte, o cinema não é veículo exclusivo do status quo ou morreríamos de um tédio sem fim ao pé da tela grande, já que o circuito comercial brasileiro é mais de 70% abastecido pela indústria cinematográfica norte-americana. Uma corrente iniciada no cinema independente, com “Sexo, mentiras e videoteipes” (1989) -a estreia de um então jovem e promissor Steven Soderbergh (“Erin Brockovich” e “Che”) no cinema-, tem redimido e dado o devido valor a este perfil de norte-americano fora dos padrões.

O Graham (James Spader, lindo no auge de sua juventude) de “Sexo, mentiras…” é um desempregado que tem como hobby coletar depoimentos em vídeo de desconhecidos sobre suas relações com o sexo. Looser por opção e ainda machucado pela traição da noiva às vésperas do casamento, nove anos antes, ele se distancia das pessoas e de qualquer tipo de relacionamento pessoal ou intimidade por não aguentar mais conviver com as mentiras que acompanham a vida em sociedade. Seu reencontro com o amigo de infância John (Peter Galagher) – perfeitamente adequado ao “sonho americano” e um mentiroso de carteirinha-, vai provocar uma revolução na família deste.

Muitos anos depois de “Sexo, Mentiras e Videoteipes“, um de meus diretores preferidos, Cameron Crowe, conseguiria a proeza de, em um filme comercial, dar tratamento de herói a um protagonista rotulado de looser (e ainda conseguir boa bilheteria!!!).

É verdade que ajudou ter sido Tom Cruise a dar vida ao personagem-título de “Jerry MaGuire” (foto à esquerda), um executivo até então carreirista que, num surto de humanidade, passa a ser frito na empresa em que trabalha depois de distribuir um manifesto pregando um tratamento mais humano aos clientes. A partir de então, colegas e clientes -com exceção de uma secretária idealista e um cliente também com complexo de “perdedor”- passam a fugir dele como se tivesse uma doença contagiosa.

Pequena Miss Sunshine” também conquistou público e crítica com a história de uma família inteira de fracassados – um pai motivador cujas receitas de sucesso nunca dão certo, um avô viciado em heroína, um adolescente depressivo que não fala há nove meses, um tio homossexual e suicida, uma dona-de-casa insatisfeita e uma filha gorducha e míope – que decide atravessar o país numa Kombi velha para levar a caçula participar do concurso que dá nome ao filme. Nas situações inusitadas e hilárias que ocorrem pelo caminho, eles descobrem uma nova forma de agir como família e, de quebra, nos fazem refletir sobre a complexidade e armadilhas que encerram os conceitos de “fracasso” e “sucesso”.

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Às Shirleys, Rosalbas e Mercedes

A nacionalidade e a década em que foram apresentadas ao público ocidental são o que a inglesa Shirley, a italiana Rosalba e a brasileira Mercedes têm de diferente. No mais, estas icônicas personagens femininas assemelham-se em quase tudo. A primeira no filme “Shirley Valentine” (de 1989, inspirado em peça homônima), a segunda em “Pão e Tulipas” (2000) e a terceira em “Divã” (brasileiro atualmente em cartaz em Araraquara e também egresso do teatro), as três catalisam frustrações e aspirações de um sem número de mulheres maduras que descobrem-se oprimidas pela própria realidade quando chegam a certa idade. Com suas surpreendentes “viradas de mesa”, elas ofereceram deliciosas catarses a milhões de espectadoras cinemas afora. Assisti-las questionar suas vidas de donas-de-casas e traduzir isso em atitudes e mudanças dentro e fora de si mesmas é redentor.

Na pele das atrizes Pauline Collins, Licia Maglietta e Lília Cabral, respectivamente, Shirley, Rosalba e Mercedes empreendem lindas viagens interiores em busca de suas próprias identidades, que perderam enquanto assumiam, incondicionalmente, os papéis de mães e esposas. E vocês sabem, quando o mundo começa a confundir nossa identidade com os papéis que assumimos é quase certo que nós também nos confundiremos (é o que comumente chamamos “crise de identidade”).

Shirley e Rosalba resolveram as suas viajando mesmo – literal e figurativamente. A primeira aceitou o convite de uma amiga para passar férias na Grécia após constatar que, para os filhos e o marido, representava pouco mais do que um móvel da casa. E a segunda foi aprender a viver sozinha em Veneza (chato, não?) depois de ter sido esquecida pela família em um posto, durante uma viagem de férias.

Já para Mercedes a viagem interior começa de uma forma mais óbvia, no divã de um psicanalista, que ela resolve procurar “por curiosidade”, pois está convencida de ter uma vida feliz. Longe de seus papéis de mães e esposas, as três se auto-conhecem novamente e descobrem-se como seres humanos mais complexos do que aqueles a que os papéis que assumiram durante a vida as reduziram. São mães e esposas, sim -com muito orgulho!-, mas também muito mais… O que é melhor nos três filmes é que essas mulheres não perdem tempo jogando a culpa de suas rotinas alienantes em ninguém – nem nos familiares, que mais se beneficiaram disso. Sabem que não há vítimas onde existem escolhas. E foram elas quem escolheram seus papéis e, em algum momento, deixaram-se confundir com eles. Shirley, Rosalba e Mercedes preferiram agir sem ódios nem rancores e mudaram suas vidas porque descobriram que podem escolher sempre. Escolheram ser inteiras.

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X-Men Origens: Wolverine fica abaixo da franquia

Fã que sou da série “X-Men”, estava ansiosa para assistir ao último produto da franquia, “X-Men Origens: Wolverine”, com a história pregressa do herói da série. Assisti, mas o filme não me ganhou como os antecessores, apesar de reunir os principais requisitos de um eficiente filme de ação e ficção científica – um galã lindo, viril e carismático; efeitos especiais de última geração e uma história bem amarrada (apesar de improvável como a maioria das ficções científicas).

Para mim, faltou o ingrediente que mais me entusiasmou na trilogia que o antecedeu: uma ou mais questões filosóficas propostas -ou provocadas- por cada trama.

“X-Men – O Filme” nos apresentou pela primeira vez os vários lados de um impasse social. Em um futuro próximo, pessoas cuja carga genética pularam um degrau à frente na escada evolucionária humana são dotadas de algum dom ou poder especial. Chamadas mutantes, elas são temidas pela sua diferença e, por isso mesmo, segregadas, discriminadas, como todas as minorias antes delas na história da humanidade.

Os três filmes da série mostram como diferentes mutantes lidam de diferentes formas com o preconceito de que são vítimas. Na escola para superdotados do Professor Xavier, jovens mutantes são estimulados a compreender o medo que causam e a lidar com a discriminação pelo caminho da tolerância. Fora dali, o temível Magneto, mutante com a capacidade de manipular qualquer metal interpretado pelo excelente Ian McKellen (o Gandalf de “O Senhor dos Anéis”), lidera revoltosos na criação de planos para arrasar com a humanidade que os humilha.

Entre essas duas vertentes, aparece a figura do herói solitário Logan-Wolverine, mutante indestrutível graças ao seu poder de regeneração e a um esqueleto forjado de um metal não encontrado na natureza terrestre, o adamantium. Um mistério ronda sua história, que ele mesmo é incapaz de lembrar.

Enquanto os humanos “normais” votam leis que violam os direitos individuais dos mutantes (qualquer semelhança com a neurose “pós-11desetembro” que acometeu os EUA não é mera coincidência), nos bastidores as duas facções de “enjeitados” travam uma batalha atrás de outra, às vezes em lados opostos -quando a turma de Xavier defende os humanos da turma de Magneto, que quer o extermínio deles-, outras vezes lado a lado, quando têm que defender toda a Terra de uma ameaça em comum. No meio disso tudo, Wolverine encontra tempo para flertar com a professora com poderes telecinéticos interpretada por Famke Janssen.

Cada sequencia com mais imaginação, os três filmes sustentam discussões ricas sobre como lidar com “o diferente que ameaça”. O segundo acrescenta vários pontos de interrogação à história de Wolverine com o aparecimento do vilão Strikker. O terceiro, além de apresentar uma escolha difícil aos mutantes, com a descoberta de uma vacina que faz regredir seus dons, ganha toques de tragédia com a liberação do lado obscuro da personalidade da telecinética de Famke Janssen – a esta altura o grande amor de Wolverine.

Nenhuma das questões filosóficas levantadas – como proceder diante do diferente? (atacando para se defender? Tentando a convivência pacífica? Ficando longe?”); “Como se posicionar sendo diferente?” (vingando-se da segregação? tentando compreender o medo? tentando mostrar que não oferece perigo?); “aceitar ou negar a própria diferença?” – tem uma só resposta e nenhuma das respostas possíveis é simples ou fácil. Reside nisso toda a riqueza da série, que desperta a reflexão, nos incita a nos imaginar nos papéis dos personagens, nos faz pensar e encontrar analogias dessas situações em nossa vida real.

Lembro-me de uma cena de “X-Men 2” em que um jovem aluno da escola de Xavier decide contar aos pais que tem dons mutantes. “Pode ser consertado?”, “É algo que você pode escolher não ser?”, perguntam os pais após o filho “sair do armário”. Acredito que isso tenha lembrado a muitos gays a ocasião em que revelaram sua opção sexual aos familiares.

“X-Men Origens…” (veja trailer abaixo) não propõe muito em que pensar. Sugere fracamente um dilema interior de Wolverine entre ser humano e deixar sua natureza animal aflorar. Nada que encontre similares na realidade ou suscite mais de uma resposta. Em relação aos outros filmes da série, é superficial.

No lugar de uma inteligente e profunda saga de ficção científica, restringe-se a “mais um” filme de ação como as centenas de outros que Hollywood lança todos os meses. Uma pena, já que alguns de nós não quer só “diversão e arte”… quer também pensar enquanto se diverte.

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