Silvia Pereira

Jornalista com 30 anos de experiência em redações e blogueira de cinema, séries e literatura; Silvia Pereira adora ouvir, ler, assistir e - principalmente - escrever histórias.

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Vamp filosofia

Acabo de assistir ao que acredito seja o ápice da segunda temporada da série “True Blood”, o episódio 9, “I Will Rise Up”. Duvido que algum outro momento da série consiga suplantar a beleza das últimas cenas deste episódio, em que um vampiro milenar e sábio renuncia à eternidade.

Não entrarei em detalhes sobre a cena e nem sobre os últimos dois saborosos episódios que contaram com a presença do personagem Godric, um vampiro de 1.800 anos (não quero estragar o prazer de quem acompanha a série). Basta saberem que fiquei tão tocada com a forma como se deu a saída de cena de tão rico personagem que não resisti a compartilhar.

“True Blood” é mesmo surpreendente. Quando se pensa que trata mais de sexo, surpreende com um romance denso; enquanto em um núcleo costura uma aventura bem amarrada, no outro equilibra referências super atuais de ódio e incompreensão social. E agora surpreende de novo com um personagem que instiga questionamentos filosóficos sobre co-existência neste mundo louco.

Adorei!

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Amor, sexo, tensão social e humor de HQ em ‘True Blood’

“Não repare se, por acaso, eu parecer um pouco… morta”.

 

A frase acima é dita por uma vampira adolescente ao namorado humano, com quem pretende perder a virgindade – mas não antes de render-se ao seu reparador sono diurno. “Fico meio doente de dia”, explica docemente, ainda de presas à mostra.

Esse tipo de humor prevalece em quase todas as cenas de “True Blood“, mais uma série sobre vampiros, estes personagens fantásticos que escritores e roteiristas das mais variadas épocas e mídias adoram explorar dramaturgicamente. Da literatura aos quadrinhos, da TV ao cinema, a lista de produtos envolvendo esse gênero de mortos-vivos é grande. Tanto que dei de ombros quando ouvi falar sobre a série. O argumento de “True Blood”, porém, me surpreendeu.

Aqui os vampiros “saem do armário” (digo, do caixão) e passam a conviver entre humanos após terem seus direitos civis assegurados por lei, mas sob a condição de deixarem de matar para se alimentarem. Isso se torna possível com a produção, em escala industrial, da bebida Tru-Blood (trocadilho com o nome da série, que significa “sangue genuíno”), espécie de sangue artificial que supre as necessidades alimentares dos vampiros.

Mas como estamos falando da sociedade humana, na qual nenhuma transição social se dá sem guerra civil, declarada ou não, algumas parcelas da população discordam da integração e vão à luta. Não por acaso, aliás, o seriado se passa no sul dos EUA, berço da Klu Klux Klan (é impagável assistir a vampiros falarem inglês com sotaque sulista).

Do lado dos vampiros também há os que desprezam a nova política, tornando necessária uma organização social paralela, que pune quem fere os estatutos da espécie. Assim é que a comunidade vampira também tem seus xerifes de área, magistrados, governadores e até uma rainha, que volta e meia vai à TV participar de debates com políticos contrários à integração.

E esta prossegue mesmo aos trancos e barrancos, trazendo em seu bojo – como qualquer mudança – muito preconceito, consequências boas (como a abertura de um novo nicho de mercado para os vampiros, com criação até de quartos de hotéis à prova de sol, por exemplo) e ruins (no mercado negro, comercializa-se sangue de vampiro, que tem nos humanos mais ou menos os mesmos efeitos que a cocaína).

Neste quadro, o amor entre diferentes não podia ficar de fora. A protagonista Sookie, uma humana com poderes telepáticos interpretada por Ana Paquin (Oscar por “O Piano”), vive um caso de amor com o vampiro Bill Compton, interpretado charmosamente pelo inglês Stephen Moyer.

Cenas de sexo são o grande apelo da série – tem, no mínimo uma com nudez explícita por episódio -, mas pelo menos todas estão inseridas dentro de um contexto na história. Não chegam a ser gratuitas, mas obrigam a série a ostentar classificação indicativa para maiores de 18 anos.

O humor, nada convencional, é o melhor trunfo de “True Blood”… depois das questões sociais. É irônico, surreal, muito parecido com o das histórias em quadrinhos. Tanto que desconfio que nem todos os espectadores saberão apreciá-lo. Eu adoro! E recomendo.

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John Hughes: o cineasta da adolescência oitentista

No sentido horário, John Hughes entre Molly Ringwald e Michael Schoeffling de ‘Gatinhas e Gatões’, com Matthew Broderick de ‘Curtindo a vida adoidado” e Anthony Michael Hall na época de “Mulher Nota 1000”.

O cineasta John Hughes (*18/2/1950 – + 6/8/2020) nunca foi um dos favoritos da crítica especializada, que considerava sua obra oportunista, superficial e comercial demais. É verdade que, depois de descobrir um “filão” no segmento de comédias românticas adolescentes, não abandonou mais a receita, mas – vamos combinar!, bendita receita, que emplacou sucessos até hoje presentes na memória afetiva da geração dos 1980.  Estamos falando de “Gatinhas e Gatões” (Sixteen Candles, EUA, 1984, “Mulher Nota 1000”, (Weird Science, EUA, 1985), “Ela Vai Ter Um Bebê” (She’s Having a Baby, EUA, 1988) e os cult “Clube dos cinco” (The Breakfast Clube, EUA, 1985) e “Curtindo a vida adoidado” (Ferris Bueller’s Day Off, EUA, 1986).

Também é verdade, porém, que, mesmo levinhos, seus filmes souberam alcançar o inconsciente coletivo dos jovens da época. Todo garoto sonhava ser Ferris Bueller cantando “Twist and Shout” sobre um carro alegórico, em dia de aula, como na cena clássica de “Curtindo a Vida Adoidado”. E que garota não sonhava ser premiada com a atenção do bonitão da escola exatamente por ser diferente, como a ruivinha Molly Ringwald em “Gatinhas e Gatões”?

O diretor (de jaqueta preta) com o elenco de ‘Clube dos Cinco’

Meu filme preferido de Hughes sempre foi “Clube dos Cinco”, que acompanha  o cumprimento de uma manhã de castigo por cinco alunos do Ensino Médio, cada um desajustado a seu modo. Ao longo do filme, eles  aprendem a conviver, conciliando suas diferenças em favor de lutarem contra um inimigo comum: o inspetor, que simboliza a autoridade contra a qual toda juventude, em qualquer época, precisa se rebelar.

O filme apresentou pela primeira vez alguns dos rostos que marcariam o cinema adolescente do período: além dos já citados Broderick e Ringwald, Judd Nelson, Ally Sheedy, Emilio Estevez e Anthony Michael Hall (muitos deles cairiam no ostracismo a partir da década seguinte). A ruivinha Molly, então, foi a preferida de alguns diretores de comédias adolescentes da época (vide “A Garota de Rosa-Schocking”, “Ligeiramente grávida”, “O Rei da Paquera”). Continuou filmando nas décadas seguintes, mas nunca mais emplacou sucessos tão retumbantes quanto os da adolescência. Suas aparições mais recentes foram em pontas, como na série “Riverdale” e nos filmes “A Barraca do Beijo” (1 e 2), sempre como mãe de alguém.

Judd Nelson e Ally Sheedy filmaram bissextamente ao longo das últimas décadas, a maioria fracassos de bilheteria. A carreira de Emilio Estevez também prosseguiu, como a de Molly, com muito menor visibilidade. Seu pai, o consagrado Martin Sheen, faz mais sucesso que ele e o irmão (Charlie Sheen, de “Two and a half man”) juntos.

Dos cinco do clube, apenas Anthony Michael Hall continuou sendo visto, em filmes e no seriado que protagonizou de 2002 a 2007, “The Dead Zone” (“A Hora da Zona Morta”). De Hughes ele co-protagonizou “Mulher Nota 1000”, uma tremenda bobagem, na qual dois pré-adolescentes nerd criam uma mulher perfeita no computador (a então estonteante Kelly LeBrock, de “A Dama de Vermelho”).

Das estrelas içadas por Hughes, Matthew Broderick foi o que mais se deu bem. Não virou astro de primeira grandeza, mas continuou “aparecendo” em produções de médio porte e fez  muitos trabalhos bem-sucedidos no teatro. Ultimamente, a grande mídia o vê mais como o marido de Sarah Jessica Parker (a Carrie de “Sex and the City”).

Hughes dirigiu muito pouco após sua fértil década de 1980, mas continuou no metier como roteirista. Dá para reconhecer seu estilo nas histórias de “A Garota de Rosa-Schocking”, e nos três “Esqueceram de mim”, só para citar os maiores sucessos de bilheteria que assinou. Todos levinhos e previsíveis… mas divertidíssimos!

Para espairecer, até vale revê-los numa Sessão da Tarde regada a muita pipoca.

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‘Cranford’: adorável como as melhores obras de época

Adoro o modo como as produções de época da BBC reproduzem o clima e as mensagens dos textos que as inspiram. As séries “Cranford” (2007) e “Retorno a Cranford” (2009) – a primeira dividida em cinco episódios de 1h cada e a segunda em dois de 1h30 – são exemplos deliciosos da sutileza com que seus diretores transformam um amontoado de descrições literárias em imagens narrativas.

A primeira, “Cranford”, é uma minissérie em cinco capítulos produzida pela BBC com base em livro homônimo de Elisabeth Gaskell, mostra a vida no pequeno povoado inglês que dá nome à obra, extremamente regrada e conduzida com base em regras rígidas de conduta social.

No começo assistimos com olhar crítico à repetição de costumes tão arraigados naquela sociedade dominada por matronas. Todas as ações são vigiadas e interpretadas segundo regras tácitas de comportamento, que acabam metendo forasteiros como o novo médico do povoado em muitas armadilhas e induzem solteironas mal afeitas a hábitos de outras terras a enganos. Mas à medida que esses enganos e armadilhas vão colocando em apuros seus próprios habitantes, a solidariedade, a generosidade e o espírito de corpo vão se sobrepondo à rigidez dos costumes, revelando uma humanidade até então insuspeita por baixo daquele verniz social.

É um produto leve, bucólico, romântico, ao gosto de quem, como eu, aprecia leituras como as de Jane Austen.

Já em “Retorno a Cranford” (2009) vai na mesma linha e tocou-me, particularmente, com a sequência em que a idosa Miss Mathis aguarda pacientemente, ao lado da afilhada Mary e do empreiteiro Mr. Brown, a chegada de alguns dos mais antigos moradores do vilarejo para uma pequena excursão de locomotiva. Todos são refratários à ideia da ferrovia, que promete mudar o traçado da localidade e – pecado dos pecados! – trazer mudanças àquela sociedade de costumes seculares e inflexíveis.

As cenas da excursão são um primor de simbolismo do que significou para aquela bondosa senhora – e para toda a época e sociedade que ela representa na história – abrir-se para o novo, a mudança.

Por toda a série os moradores do vilarejo são confrontados com questões que opõem tradição e bom senso, convenções e sentimentos, emoção e razão, cada episódio mostrando o quanto a boa vontade e o cuidado para com o outro é capaz de contornar o mais espinhoso problema ou questão social.

Adorável!

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O cinema precisa descobrir Ursula K. Le Guin

Em um dos meus primeiros textos postados neste blog comento que tive acesso a muitas obras literárias graças a filmes que assisti (procurando as obras que os inspiraram ou simplesmente os títulos citados em seus diálogos).

Pois acabo de encontrar outra preciosidade literária, não por acaso citada em uma comédia romântica que flerta descaradamente com a literatura: “O Clube de Leitura de Jane Austen”. Um dos personagens – o único homem em um grupo de mulheres que se reúne mensalmente para comentar os livros da escritora inglesa – passa o filme todo tentando convencer sua paquera a ler a obra de Ursula K. Le Guin, escritora de ficção científica norte-americana sobre quem eu nunca havia ouvido falar antes.

Demorei a me decidir por ler algo de Le Guin porque são poucas as suas obras editadas no Brasil – e as poucas publicadas não estão facilmente disponíveis nos sites em que mais confio para comprar online. Quando, enfim, consegui adquirir “A Mão Esquerda da Escuridão”, sua obra mais elogiada pela crítica, não consegui largar o livro.

É ficção científica que não deixa nada a dever a clássicos como “Admirável Mundo Novo”, por exemplo. Le Guin cria um mundo geologicamente muito semelhante ao que teria sido a Terra na Era Glacial, mas habitado por seres humanos ambissexuais (todos têm os sexos feminino e masculino e podem procriar) e com um código de conduta completamente estranho a tudo o que conhecemos.

Neste mundo pousa um humano do sexo masculino, enviado por uma entidade interplanetária, com o objetivo de propor a seus governantes sua adesão a uma aliança composta já por nove planetas. O humano enfrenta o descrédito, o preconceito, os choques cultural e psicológico e ainda a solidão de pregar novas ideias em um mundo completamente diferente dos que conhece.

Não darei mais detalhes para não estragar a surpresa de quem aceitar a dica, mas posso adiantar que os regimes de governo e as “realidades” inventadas por Le Guin no livro provocam as mais doidas e impensáveis reflexões, mesmo nas mentes mais abertas.

E adooooooro ser surpreendida por novos questionamentos, por isso a ficção me encanta tanto.

Fica a dica de leitura e um desafio maior aos diretores de cinema de todo o mundo que ainda não descobriram a escritora: ATREVAM-SE a filmar Ursula K. Le Guin! É ficção diferente de tudo o que o cinema já filmou antes.

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Com Michael Jackson, a música encontrou a linguagem do cinema

Cena 1:
– Conversível que leva um jovem e bonito casal para, sem gasolina, em uma rua escura;
– Eles saem caminhando e aproveitam para conversar, se declararem.
– O rapaz começa a dizer que não é como os outros caras que ela conhece
– Enquanto isso uma lua cheia sai detrás de um manto de nuvens no céu
– O rapaz começa a contorcer-se em caretas até se transformar em um monstro, diante dos gritos da mocinha;

O que começou como um filme romântico agora parece um thriller de terror.
E é!
Assim começa “Thriller”, de Michael Jackson, o videoclipe com de mais de 13 minutos de duração (até hoje um recorde para o gênero) que revolucionou a forma como se fazia vídeos musicais até então. Depois dele – e de muitos outros clipes de Michael desta época, como “Beat it” – nunca mais esse tipo de produção se restringiria a apenas encadear cenas de shows ao vivo ou de músicos dublando as próprias gravações em um cenário imóvel.

Os clipes de Michael eram diferentes e super-produzidos. Contavam uma história, assemelhando-se por isso a curtas-metragens, mas ao mesmo tempo diferenciando-se deles pela forma fenomenal como combinavam números de dança e música a hipnotizarem o espectador.

Com o sinal verde de Michael para casar da melhor forma a força de sua música à imagem em movimento, os diretores de seus clipes, recrutados no cinema, como John Landis e Spike Lee, deixavam a criatividade rolar, sempre auxiliados pela melhor e mais recente tecnologia que o dinheiro podia pagar. Vide “Black and White”, primeiro clipe a usar o efeito morfo para mostrar imagens de pessoas de várias raças transformando-se umas em outras, ou “Stranger in Moscow”, que usou o recurso da câmera ultra lenta de uma forma inédita para a época.

A lista de videoclipes memoráveis não para aí e inclui, só para ficar entre os meus favoritos, “Smooth Criminal”, “Heal the World”, “Earth Song”, “Childhood” (além dos primeiros citados acima).

Michael Jackson pode não ter sido o idealizador de todas as músicas deliciosamente dançantes ou de todos os clipes fantásticos que protagonizou, mas ter sabido se cercar das melhores cabeças do ramo já era uma prova irrefutável de sua genialidade. Não por acaso tudo o que fazia virava ouro – digo, milhões de dólares.

Mas nem os orçamentos milionários, nem diretores de cinema ou as tecnologias de última geração fariam desses videoclipes o sucesso que são até hoje não fosse um componente fundamental: o TALENTO do próprio Michael Jackson. Fora dos palcos ou das câmeras ele parecia um sujeito mirrado, magricela, de voz infantil e identidade sexual duvidosa, mas à frente deles transformava-se em um gigante, um fenômeno!!! Um showman de carisma, presença e ginga até hoje incomparáveis e sem similares na história da música pop.

Restrinjo-me aqui a comentar apenas a parte de sua carreira que “namorou” com o cinema por motivos óbvios [é um blog de cinema, minha praia…], mas confesso que, a despeito de todas as polêmicas e escândalos que rondaram sua vida pessoal, sempre AAA-DOOO-REEEEI o trabalho de Michael e nunca dei a mínima para os preconceitos dos puristas, sempre contrários, por princípio, a tudo o que faz sucesso em escala de massa.

Não dá para ninguém negar. O cara era talentoso!

Até hoje sinto saudades de como novas músicas e videoclipes seus me faziam sentir.

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Ralph Fiennes: todas as emoções no olhar

Considero Ralph Fiennes um ator completo, por dominar tanto linguagem corporal quanto expressão facial, voz e timing de cena. Mas o que mais me atrai nele é, sem dúvida nenhuma, seu meigo e expressivo olhar, que ele sabe tornar ora sensual, ora doce, às vezes, implacável e, quando preciso, assustador.

Assisti-lo pela primeira vez no cinema como o Heathclif de “O Morro dos Ventos Uivantes” (Wuthering Heights, EUA/ING, 1992, dir: Peter Kosminsky) foi para mim um choque! Perguntei-me na hora “de onde surgiu este ator de traços refinados, que carrega todas as emoções do mundo no olhar?”. Passei a procurar por filmes em que ele atuava e não me decepcionei uma única vez.

Workaholic, Fiennes atua em duas a quatro produções cinematográficas por ano e ainda tem tempo de fazer muito teatro, sua grande paixão. No cinema, não tem medo de aceitar papéis desafiadores, como o mordomo alcoólatra e homossexual de “Bernard e Dóris” ou os vilões do filme “Spider” e da série “Harry Potter” (é ele por trás de toda aquela maquiagem de Lord Voldemort).

Suas atuações conseguem provocar tanto sentimentos de rejeição, como o fez seu perverso Amon Goeth de “A Lista de Schindler” e seu Duque de Devonshire em “A Duquesa”; quanto seus personagens românticos conseguem enternecer em filmes como “Estranhos Prazeres”, “O Paciente Inglês”, “Paixão Proibida” e “Fim de caso”. Sob a direção do brasileiro Fernando Meirelles (de “Cidade de Deus”), ele encantou como o apaixonado protagonista de “O Jardineiro Fiel”.

Sua presença em cena consegue dar dignidade até a personagens improváveis como o político da bobinha comédia romântica “Encontro de Amor” – pobre Jennifer Lopez, desfilando seus limitados dotes dramáticos ao lado de tal ator.

Mas lindo e apaixonadamente vulnerável ele está mesmo em “Paixão Proibida” (título idiota que ganhou no Brasil “Onegin”), adaptação para o cinema da obra clássica “Eugene Onegin”, do russo Aleksandr Pushkin – a mesma da ópera famosa, com músicas de Tchailovski. A irmã de Ralph, Martha Fiennes, estreou na direção de longas com este filme e não fez feio. Ralph muito menos!

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Fracassados que são um sucesso!

Não é preciso assistir a muitos filmes norte-americanos para perceber o quanto o rótulo “looser” (perdedor, fracassado em inglês) é temido como a pior das humilhações nos Estados Unidos. Não a toa uma das trilogias mais festejadas do cinema hollywoodiano, “De Volta para o Futuro“, explora esta fobia americana (viajando para trás ou para a frente no tempo, o jovem Marty McFly tem a chance de checar o quanto suas ações podem, numa reação em cadeia, influenciar o futuro de sua família, de forma a tornar seus integrantes eternos fracassados ou distintos e invejáveis membros da sociedade).

Andie McDowell e James Spader em ‘Sexo, Mentiras e Videoteipes’

Para a nossa sorte, o cinema não é veículo exclusivo do status quo ou morreríamos de um tédio sem fim ao pé da tela grande, já que o circuito comercial brasileiro é mais de 70% abastecido pela indústria cinematográfica norte-americana. Uma corrente iniciada no cinema independente, com “Sexo, mentiras e videoteipes” (1989) – a estreia de um então jovem e promissor Steven Soderbergh (“Erin Brockovich” e “Che”) – tem redimido os “loosers” ou, político-corretamente falando, este perfil de norte-americano fora dos padrões.

Em “Sexo, mentiras…”, Graham (James Spader, lindo por volta de seus 30 anos) é um desempregado que tem como hobby coletar depoimentos em vídeo de desconhecidos sobre suas relações com o sexo. Tornou-se um “looser” por opção depois que a noiva o traiu às vésperas do casamento deles, nove anos antes. Desde então, ele se distancia das pessoas e de qualquer tipo de relacionamento ou intimidade por não aguentar mais conviver com as mentiras que acompanham a vida em sociedade. Seu reencontro com o amigo de infância John (Peter Galagher), perfeitamente adequado ao “sonho americano” e um mentiroso de carteirinha, vai provocar uma revolução na família deste.

Muitos anos depois de “Sexo, Mentiras e Videoteipes“, um de meus diretores preferidos, Cameron Crowe, conseguiria a proeza de, em um filme comercial, dar tratamento de herói a um protagonista rotulado como looser (ainda conseguir ótima bilheteria!!!).

É verdade que ajudou ter sido Tom Cruise a dar vida ao personagem-título de “Jerry MaGuire” (foto à esquerda), um executivo até então carreirista que, num surto de humanidade, passa a ser frito na empresa em que trabalha depois de distribuir um manifesto pregando um tratamento mais humano aos clientes. Colegas e clientes, com exceção de uma secretária idealista e um cliente também com complexo de “perdedor”, passam a fugir dele como o diabo da cruz. Claro que ele encontrará uma forma de se reinventar, como profissional e ser humano.

Já “Pequena Miss Sunshine” conquistou público e crítica com a história de uma família inteira de fracassados, formada por um pai metido a coach motivador, um avô viciado em heroína, um adolescente depressivo que não fala há nove meses, um tio gay que acaba de tentar suicídio, uma dona-de-casa insatisfeita e uma filha gorducha e míope – única a dar aulas de auto-estima a todos. É a pequena quem motiva a família toda a atravessar o país numa Kombi velha para levá-la participar do concurso que dá nome ao filme. Nas situações inusitadas e hilárias que ocorrem pelo caminho, eles descobrem uma nova forma de agir como família e, de quebra, nos fazem refletir sobre a complexidade e as armadilhas que encerram os conceitos de “fracasso” e “sucesso”.

Adoro quando ótimos entretenimentos também nos incentivam a pensar.

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Sobre Shirley, Rosalba e Mercedes

A inglesa Pauline Collins no papel de Shirley Valentine

Se não sabe a quem diabos me refiro no título deste texto, não se preocupe. Shirley, Rosalba e Mercedes são personagens femininas de filmes com pegada mais independente (portanto menos distribuídos que os “arrasa-quarteirões” da indústria), produzidos com baixo orçamento, de uma as três décadas atrás – “Shirley Valentine” (Inglaterra, 1989 – inspirado em peça teatral homônima), “Pão e Tulipas” (Itália, 2000) e “Divã” (Brasil, 2009 – também egresso do teatro), respectivamente.

Foram exatamente estes os motivos que me fizeram escrever sobre elas, pois acho um desperdício personagens tão inspiradoras não serem revisitadas com a mesma frequência que uma “mulher maravilha” – o que, aliás, elas também são a seus modos.

A inglesa Shirley, a italiana Rosalba e a brasileira Mercedes têm de diferente a nacionalidade e a década em que foram apresentadas ao público ocidental, mas se assemelham em quase tudo o que é importante. São amorosas, dedicadas, inteligentes e, acima de tudo, corajosas!

A italiana Licia Maglietta como Rosalba

Na pele das atrizes Pauline Collins, Licia Maglietta e Lília Cabral, respectivamente,  elas empreendem lindas viagens – literais e interiores – em busca das próprias identidades, que perderam enquanto assumiam (e se perdiam dentro de) papeis de mães e esposas. E vocês sabem: quando o mundo começa a confundir nossa identidade com os papeis que assumimos é quase certo que nós também nos confundiremos – por isso se chama “crise de identidade”.

Shirley e Rosalba resolveram suas próprias crises viajando. A primeira aceitou o convite de uma amiga para passar férias na Grécia após constatar que, para os filhos e o marido, representava pouco mais do que um móvel da casa. A segunda foi aprender a viver sozinha em Veneza depois de ter sido esquecida pela família em um posto de gasolina durante uma viagem de férias. Já para  a brasileira Mercedes, a viagem foi interior e começou no divã de um psicanalista, que ela resolve procurar “por curiosidade”, pois está convencida de ter uma vida feliz.

A brasileira Lília Cabral é Mercedes

Assisti às três questionarem a vida que construíram até ali e traduzirem suas reflexões em atitudes é redentor!

Longe de seus papéis de mães e esposas, as três personagens se auto-conhecem novamente e descobrem-se como seres humanos mais complexos do que aqueles a que os papéis que assumiram durante a vida as reduziram. São mães e esposas, sim – com muito orgulho! -, mas também muito mais!

Nenhuma delas perde tempo jogando a culpa de suas rotinas alienantes em outras pessoas. Sabem que não há vítimas onde existem escolhas. Foram elas que escolheram seus papeis e se acomodaram neles, a ponto de, em dado momento, deixarem-se confundir com eles.

Shirley, Rosalba e Mercedes escolhem agir sem ódios nem rancores e mudar suas vidas radicalmente porque entendem que podem escolher sempre. Escolheram ser inteiras!

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‘X-Men Origens: Wolverine’ fica aquém da franquia

Fã que sou da série “X-Men”, estava ansiosa para assistir ao produto da franquia que conta a história pregressa do seu herói mais carismático. Mas “X-Men Origens: Wolverine” (Men Origins: Wolverine, EUA, 2009) me decepcionou, apesar de reunir os principais requisitos de um eficiente filme de ação. Para mim, a produção fica aquém da proposta maior da série, de provocar reflexão sobre os vieses inconscientes que nos levam a temer e segregar o diferente.

Não que a ação seja o ponto fraco dos produtos anteriores da série – “X-Men” (2000), “X-Men 2″ (2003) e “X-Men 3: O Confronto Final” (2006) – muito pelo contrário! A diferença é que neles, esta pegada é tratada como um entre muitos recursos à favor de contar histórias com um propósito: provocar reflexões sobre os mecanismos do preconceito.  Seus roteiros tecem alegorias de situações de intolerância com as quais convivemos no dia a dia, às vezes sem percebermos. Oo espectador fisgado pela ação acaba convidado a, subliminarmente, refletir sobre de que lado dos conflitos entre mutantes e não-mutantes estaria: dos que lidam com o preconceito dando o exemplo da tolerância com a qual não contam, ou dos que escolhem se vingar e subjugar quem os segrega.

Já o filme sobre Wolverine sobrevoa a questão ao contar sua história pessoal, que começa em 1880, quando ele nasce filho de ricos fazendeiros de Alberta (Canadá), e vai até o momento em que, adulto e amargurado pelo assassinato da esposa, aceita ser cobaia em um projeto secreto do governo. Finalmente descobrir como Stryker – o militar sem escrúpulos que conhecemos mais velho em “X-Men 3 – comandou a experiência de fortalecer o esqueleto de Logan com adamantium, e como este ganhou o condinome Wolverine são pontos a favor da história. Até concedo que, em dado momento, o roteiro sugere um dilema interior do herói, entre ser humano e deixar sua natureza animal aflorar, mas nada que encontre similares na realidade pra instigar a reflexão.

“X-Men Origens: Wolverine” acaba fazendo dos recursos de ação da franquia a própria razão do espetáculo. Agrada, claro, aos fãs do gênero, com suas lutas, assassinatos espetaculares e perseguições, mas perde os espectadores que, para além da experiência sensorial, valorizam as perguntas que uma boa história é capaz de suscitar. Somando tudo, resulta em um ótimo filme de ação! Mas só.

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