Silvia Pereira

Jornalista com 30 anos de experiência em redações e blogueira de cinema, séries e literatura; Silvia Pereira adora ouvir, ler, assistir e - principalmente - escrever histórias.

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X-Men Origens: Wolverine está abaixo da franquia

X-Men Origens WolverineFã que sou da série “X-Men”, estava ansiosa para assistir ao último produto da franquia, “X-Men Origens: Wolverine”, com a história pregressa do herói da série. Assisti, mas o filme não me ganhou como os antecessores, apesar de reunir os principais requisitos de um eficiente filme de ação e ficção científica – um galã lindo, viril e carismático; efeitos especiais de última geração e uma história bem amarrada (apesar de improvável como a maioria das ficções científicas).

Para mim, faltou o ingrediente que mais me entusiasmou na trilogia que o antecedeu: uma ou mais questões filosóficas propostas -ou provocadas- por cada trama.

“X-Men – O Filme” nos apresentou pela primeira vez os vários lados de um impasse social. Em um futuro próximo, pessoas cuja carga genética pularam um degrau à frente na escada evolucionária humana são dotadas de algum dom ou poder especial. Chamadas mutantes, elas são temidas pela sua diferença e, por isso mesmo, segregadas, discriminadas, como todas as minorias antes delas na história da humanidade.

Os três filmes da série mostram como diferentes mutantes lidam de diferentes formas com o preconceito de que são vítimas. Na escola para superdotados do Professor Xavier, jovens mutantes são estimulados a compreender o medo que causam e a lidar com a discriminação pelo caminho da tolerância. Fora dali, o temível Magneto, mutante com a capacidade de manipular qualquer metal interpretado pelo excelente Ian McKellen (o Gandalf de “O Senhor dos Anéis”), lidera revoltosos na criação de planos para arrasar com a humanidade que os humilha.

Entre essas duas vertentes, aparece a figura do herói solitário Logan-Wolverine, mutante indestrutível graças ao seu poder de regeneração e a um esqueleto forjado de um metal não encontrado na natureza terrestre, o adamantium. Um mistério ronda sua história, que ele mesmo é incapaz de lembrar.

Enquanto os humanos “normais” votam leis que violam os direitos individuais dos mutantes (qualquer semelhança com a neurose “pós-11desetembro” que acometeu os EUA não é mera coincidência), nos bastidores as duas facções de “enjeitados” travam uma batalha atrás de outra, às vezes em lados opostos -quando a turma de Xavier defende os humanos da turma de Magneto, que quer o extermínio deles-, outras vezes lado a lado, quando têm que defender toda a Terra de uma ameaça em comum. No meio disso tudo, Wolverine encontra tempo para flertar com a professora com poderes telecinéticos interpretada por Famke Janssen.

Cada sequencia com mais imaginação, os três filmes sustentam discussões ricas sobre como lidar com “o diferente que ameaça”. O segundo acrescenta vários pontos de interrogação à história de Wolverine com o aparecimento do vilão Strikker. O terceiro, além de apresentar uma escolha difícil aos mutantes, com a descoberta de uma vacina que faz regredir seus dons, ganha toques de tragédia com a liberação do lado obscuro da personalidade da telecinética de Famke Janssen – a esta altura o grande amor de Wolverine.

Nenhuma das questões filosóficas levantadas – como proceder diante do diferente? (atacando para se defender? Tentando a convivência pacífica? Ficando longe?”); “Como se posicionar sendo diferente?” (vingando-se da segregação? tentando compreender o medo? tentando mostrar que não oferece perigo?); “aceitar ou negar a própria diferença?” – tem uma só resposta e nenhuma das respostas possíveis é simples ou fácil. Reside nisso toda a riqueza da série, que desperta a reflexão, nos incita a nos imaginar nos papéis dos personagens, nos faz pensar e encontrar analogias dessas situações em nossa vida real.

Lembro-me de uma cena de “X-Men 2” em que um jovem aluno da escola de Xavier decide contar aos pais que tem dons mutantes. “Pode ser consertado?”, “É algo que você pode escolher não ser?”, perguntam os pais após o filho “sair do armário”. Acredito que isso tenha lembrado a muitos gays a ocasião em que revelaram sua opção sexual aos familiares.

“X-Men Origens…” (veja trailer abaixo) não propõe muito em que pensar. Sugere fracamente um dilema interior de Wolverine entre ser humano e deixar sua natureza animal aflorar. Nada que encontre similares na realidade ou suscite mais de uma resposta. Em relação aos outros filmes da série, é superficial.

No lugar de uma inteligente e profunda saga de ficção científica, restringe-se a “mais um” filme de ação como as centenas de outros que Hollywood lança todos os meses. Uma pena, já que alguns de nós não quer só “diversão e arte”… quer também pensar enquanto se diverte.

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James McAvoy

James McAvoy 1

Ele é magricela, pálido, tem olhos de “peixe morto” e é mais baixo do que a média masculina dos galãs cinematográficos. Mas assista-o em cenas violentas, emocionalmente intensas ou de diálogos fortes, como a da explosão de ódio com a personagem de Romola Garay, em “Desejo e Reparação”. De repente o tamanho e os traços não têm a menor importância.

As que só notam a aparência que me desculpem, mas atitude, postura, presença de cena, para mim, são fundamentais e isto o britânico (nascido na Escócia) James McAvoy tem de sobra. Hollywood já descobriu isto ou não teriam julgado seu 1,70m à altura da deusa Angelina Jolie, com quem ele protagoniza muitas cenas de ação e outras calientes no thriller “Procurado”.

Como muitos atores ingleses, McAvoy começou na TV e estreou no cinema em pequenos papéis. Seu primeiro protagonista de destaque foi o de “Desejo e Reparação”, em que faz par com outra “queridinha” da indústria -esta inglesa-, Keyra Knightley.

Ah, a cena do café, quando ambos se encontram por breves momentos após anos sem se verem… Difícil cena em que ele tem que passar ao público que tenta camuflar um espírito alquebrado com uma atitude distante com o objetivo de desobrigar a amada de qualquer promessa que a prenda a ele. McAvoy passa um sentimento com os olhos (confira na foto à esquerda) e uma intenção diferente com a voz e os gestos, enquanto os músculos do rosto sustentam uma máscara distante. A careta de choro que ele deixa calculadamente escapar desta máscara sugere a luta interior do personagem, entre sua dor e a intenção de escondê-la. Apesar de sensível e dolorida, nada na cena é derramado. Ao contrário. No melhor estilo inglês, as emoções são sugeridas, mas nem por isso se subestima sua intensidade.

Depois disso, James McAvoy não parou mais de receber papéis de galã, como o Mr. Lefroy, o apaixonado de Jane Austen na biografia ficcional da escritora, que no Brasil recebeu o título de “Amor e Inocência”. Preciso dizer que sua postura no filme nos faz esquecer que ele é mais baixo que a heroína de Anne Hathaway (engraçado ver, em uma cena em que ele aparece de corpo inteiro, subindo escadas, que está usando sapatos de saltos).

No misto de comédia romântica e conto de fadas cinematográfico “Penélope” – um romance completamente fora dos padrões da indústria, que só por isso já merece ser visto-, ele faz um viciado em jogatina contratado para dar um golpe na personagem-título (Christina Ricci impagável com nariz DE PORCO!!!!!!!!!). Claro que ele vai se apaixonar por ela, que acaba lhe ensinando algumas lições sobre coragem e auto-estima.

Desafio você a não ver o que eu vejo neste escocesinho “feioso” após conferir as atuações citadas. Aguardo retornos a respeito.

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Richard Armitage

Richard Armitage

Se você considerar separadamente cada traço do inglês Richard Armitage – os lábios muito finos para o tamanho da arcada (levemente recuada em relação ao queixo meio pontudo), o nariz grande e mal desenhado e os olhos fundos – concordará que ele também não se encaixa no padrão masculino de beleza do cinema.

Mas assista-o utilizando este conjunto na interpretação de uma cena de grande emoção (como a que postei ao final deste texto, por exemplo). O olhos azuis claros adquirem uma intensidade de agulha, os músculos da face se contraem à mercê da expressão e a boca articula com ferocidade e determinação. E a voz…

Ahhhh, a voz de Richard Armitage…! Como no caso de Matthew MacFadyen, é seu grande trunfo, com a diferença de que Armitage é muuuuito melhor ator. A ira de seus personagens dá medo, bem como sua tristeza desperta vontade de niná-lo ou sua expressão amorosa faz derreter. Por este motivo não entendo o porquê de sua carreira continuar restrita à TV inglesa, onde até recentemente ele arrancava suspiros no papel de Guy of Gisborne, do seriado “Robin Hood”.

No “The Internet Movie Database” – o banco de dados mais completo sobre o mundo do entretenimento na rede – consta que ele emenda um trabalho em outro na TV desde 1999, sempre em episódios de minisséries ou seriados. Não encontrei nenhum longa metragem em sua cinematografia, mas o registro de experiências anteriores em teatro e musicais explicam a voz forte e sempre bem colocada, o talento interpretativo, a boa linguagem corporal e a grande presença em cena.

Eu o conheci na pele de John Thornton, protagonista de “Norte e Sul”, adaptação em quatro capítulos feita pela BBC de romance homônimo da inglesa Elisabeth Gaskell, cuja obra se assemelha em muitos pontos à de outra inglesa muito filmada pelo cinema ocidental: Jane Austen.

Assisti à série e A-DO-REI! Principalmente, claro, devido à atuação de Armitage. Entendi porque os fãs de Jane Austen estavam defendendo a sua escolha para o papel de Mr. Knightley na adaptação de “Emma” que a BBC rodou em 2009 (volta-e-meia a emissora inglesa programa uma nova adaptação de uma obra da escritora). Mas o escolhido foi mesmo Johnny Lee Miller, o protagonista da série “Eli Stone”, da Sony, que já viveu antes um personagem de Austen: foi Edmund na versão para o cinema de “Mansfield Park” (que no Brasil passou com o título de “Palácio das Ilusões”). A Emma de 2009 tem a atuação de Romola Garai, a boazinha Amélia de “Feira de Vaidades” e a Briony adulta de “Desejo e Reparação”.

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Ah… esses ‘feios’ irresistíveis!

matthew macfadyen

Matthew Macfadyen

Os três são ingleses e suas aparências não seguem exatamente o modelo de beldade masculina estabelecido pela mídia em geral. Mas uma certa postura confiante em cena, as vozes másculas e sempre bem postadas e um charme que a gente nunca sabe dizer de onde vem compensam com sobras as imperfeições dos traços.

Estou falando de Matthew MacFadyen, James McAvoy e Richard Armitage, que chamo aqui de “feios” para contentar o gosto médio e (mal) acostumado ao padrão hollywoodiano de beleza. Mas, para mim, o “conjunto da obra” desses ingleses pouco ou recém (no caso de McAvoy) descobertos pelo cinemão os torna belíssimos exemplares de seu sexo.

Decidi falar sobre as obras que me chamaram a atenção sobre estes três “colírios” para espairecer após a última postagem densa sobre o filme “Dúvida”. Afinal, ninguém é de ferro, né?

Começo falando de Matthew MacFadyen, que apareceu mais para a platéia ocidental como o Mr. Darcy da última adaptação de “Orgulho e Preconceito” para o cinema, mas ele já acumula uma longa carreira na TV inglesa. No cinema, aparece bissextamente, sempre em produções mais alternativas, como “Um Refúgio no Passado” ou “Crime no Funeral”, e raramente como protagonista. Recentemente também fez uma ponta em “Frost/Nixon”, que perdeu o Oscar de Melhor Filme deste ano para “Quem quer ser um milionário”.

Tudo bem, ele não é assim um Lawrence Olivier da interpretação, mas, bem dirigido, tem seus momentos. Repare, em “Orgulho e Preconceito”, a cena em que ele tenta se declarar e é rejeitado por Keyra Knightley, na pele de Elizabeth Bennet (clique aqui para ver a cena no youtube). Ele passa do sofrimento à surpresa e desta para a raiva contida em segundos e com dosada sutileza, com a câmera pegando em close suas mudanças de expressões. Sua voz, forte e empostada, é seu grande trunfo.

Pena que neste filme ele só tenha ensaiado um sorriso uma única vez (quando apresenta a irmã à sua pretendida Elizabeth). Seu rosto se transforma numa máscara linda e angelical quando sorri.

Para não me estender muito, deixo para escrever sobre James McAvoy e Richard Armitage nas próximas postagens, que prometo para muito breve.

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Dúvida: todas as certezas são frágeis

Dúvida CARTAZ

“Sempre tive medo de pessoas que têm certeza de tudo”. Esta frase, que li há muitos anos, não sei em qual livro ou filme, me marcou para sempre. Hoje sei porque: as pessoas que mais temi na vida exerceram algum tipo de autoridade opressora sobre mim. Não o tipo de autoridade moral que nasce do respeito conquistado ou do reconhecimento – como a de que gozam os (bons) pais, por exemplo. Mas aquela de pessoas que se fazem obedecer pelo medo, que parecem não ter dúvidas sobre nada, que não admitem questionamentos e acham que não devem explicações a ninguém. Acreditam estar invariavelmente certas sobre tudo, sempre.

Este é o tipo de autoridade exercida pela personagem que deu o Oscar de Melhor Atriz deste ano a Meryl Streep no filme “Dúvida”, com ótimos roteiro e direção de John Patrick Shanley (vou procurar mais trabalhos desse cara para ver).

A história é muito simples, mas faz a gente pensar. Meryl interpreta (divinamente, como sempre) uma freira assustadora, que dirige com mãos de ferro um colégio religioso. Quando um padre faz um sermão sobre o tema “Dúvida”, ela passa a desconfiar de que há algo errado com ele. É o bastante para que o acredite capaz de molestar o único garoto negro da escola, que, isolado, recebe deste padre apoio e atenção especiais.

A suspeita parte de fatos vagos relatados pela freira mais jovem da ordem, também muito bem interpretada por Amy Adams, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante – o filme, aliás, rendeu quatro indicações aos Oscars de atuações: para a vencedora Meryl, para Amy e para Viola Davis (também como coadjuvantes) e Phillip Seymour Hoffman (ator), que faz o padre sob suspeita.

A freira passa a perseguir o padre e, no ponto alto da história, trava com ele um duelo fantástico de idéias (e de interpretações). Mesmo sem provas, ela tem certeza de que ele é culpado. Não teme, não vacila, acua-o com suas certezas. Assustadora esta freira que olha nos olhos e diz exatamente o que deve ser feito, que não admite que possa haver outras versões para o que é certo. Você sabe que esta pessoa é capaz de tudo para provar que o seu certo é “O CERTO” e nada vai pará-la.

O desfecho do filme reserva destinos surpreendentes a estes dois antagonistas. Como na vida real, nada é o que parece ser. Concluímos que há algo de frágil na autoridade de quem não admite questionamentos. Se as certezas são sua sustentação, o que acontecerá a essas pessoas quando a mínima dúvida começar a corroer este pilar?

No caso da freira de Meryl Streep, seus próprios medos e não a suspeita de um crime a municiaram contra aquele padre de idéias progressistas, que a ameaçou com a mudança, inimiga da ordem estabelecida… inimiga, portanto, das certezas pelas quais ela se guiou por toda a vida.

Com o tempo, também deixei de temer as pessoas que têm certeza de tudo. Porque, no fundo, todas as certezas são frágeis.

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Terapia de grupo para ‘luluzinhas’

Ele não está tão a fim de você 1

He's Just Not That Into You

No último final de semana tive o prazer -cada vez mais raro- de me divertir com uma comédia romântica que não me fez sentir-me uma descerebrada. É tênue a linha que separa as comédias de fórmulas batidas daquelas que conseguem, de uma forma inteligente, reinventá-las (porque é impossível o gênero desvencilhar-se delas ou não seria um gênero), nos fazendo simplesmente curtir a história leve sem aquela “vergonha alheia” das cenas piegas ou dos desfechos forçados.

Ele não está tão a fim de você BEN e JENNIFERDei boas risadas com as histórias de “Ele não está tão a fim de você”, que faz piadas da tendência feminina em encontrar desculpas e significados ocultos para a covardia masculina em assumir um fora ou um relacionamento, com toda a franqueza que o sexo oposto merece…

Acredito que todas as mulheres no cinema encontraram pelo menos uma situação reproduzida no filme que já tenham vivido. Descobri que pode ser bem catártico permitir-se dar boas gargalhadas ao se ver neste espelho de celulóide que o cinema às vezes propicia. Para mim foi e espero que tenha sido também para minha amiga Karen, que assistiu ao filme na mesma sessão, duas filas acima, cercada por umas cinco colegas. “Terapia de grupo”, brincou ela, dona que é de um humor espirituosíssimo!

Eu admito que FUI (observem o tempo do verbo) a personagem de Ginnifer Goodwin, um imã de homens que querem simplesmente “pegar” o máximo de mulheres que puderem, enquanto ela só “fica” com os que elege como potenciais namorados. E quando esses candidatos não ligam de volta… quantas desculpas e hipóteses absurdas ela levanta para não enxergar que, enquanto ficava fantasiando um relacionamento, para o cara era apenas mais um “amasso”.

Quem faz Ginnifer acordar para estas evidências é o personagem de Justin Long – uma gracinha, de voz linda e muita expressividade facial, que descobri adolescente em um filme independente chamado “Dreamland” (assistam!).

Para a sorte dela, Justin interpreta a encarnação de uma “raríssima” franqueza masculina, por isso passa a ajudá-la a identificar os caras nos quais não vale a pena apostar. E como não dá para renunciar a todas as obviedades das comédias românticas – vá lá, dá para engolir esta -: claaaaaro que vai surgir uma química entre os dois.

Só cito o perfil da personagem de Ginnifer porque é aquele com o qual me identifiquei, mas a partir das experiências das amigas dela, outras situações se ramificam em um mosaico das dúvidas que assombram os relacionamentos modernos. Tenho certeza que todas encontram similares na realidade. Mas desconfio que a coisa toda só terá graça para quem estas situações já ficaram no passado…

Rir de tudo é muito mais fácil quando a doença não está mais instalada.

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Harry Potter: lições que podem salvar uma geração

Tenho uma inveja boa da geração que cresceu assistindo/lendo à série Harry Potter. A minha não contou com um produto dramatúrgico que lhe alcançasse tão certeiramente neste período crucial de passagem da infância para a adolescência. Nada que acompanhasse e espelhasse tão eficientemente as várias fases e transformações – físicas e psicológicas – pelas quais se passa neste período da vida. E ainda conseguindo, para além do espelho, uma simbiose perfeita com a fantasia e todas as suas possibilidades de metaforização, referenciamento e simbolismo.

A série “Harry Potter” é a obra (bem sucedida) de uma geração. E esta é uma ótima notícia!
Quem cresceu com ela pode ter apreendido, com os conflitos enfrentados pelo bruxinho órfão, importantes valores morais por assimilação inconsciente – alguns dos quais vêm se perdendo dentro de famílias em que pais atarefados (ou desinteressados) demais deixam à escola um tipo de formação que deveria vir de casa.

O padrinho Sirius explica a Harry que todos temos o mal e bem dentro de nós e o que define quem somos são nossas escolhas

É grande a carga de lições passadas pela obra da inglesa J.K. Rowling e elas podem salvar uma geração – da tendência atual ao ódio e à intolerância, por exemplo. Entre elas, a de que são as escolhas pessoais e não uma pré-determinação genética ou cármica que definem o tipo de pessoas que somos/seremos. Outra: de que a intolerância está na raiz dos regimes autoritários e de toda guerra. E a mais importante: a empatia, que inspira abnegação e até sacrifícios (qualidades consideradas cafonas no modelo de conduta individualista desta era da informação e de relações fluídas) pode salvar o mundo.

Harry não será o único a dar exemplos dessas qualidades. Como pontua muito bem o crítico de cinema Luiz Carlos Merten, no Caderno 2 do Estadão, a última parte da saga descortina um herói insuspeito, “o verdadeiro herói, que tem que trair para servir o objeto de sua devoção” e que carrega bravamente o ônus da antipatia e do julgamento injusto em nome de uma causa maior que ele mesmo. A motivação não poderia ser outra: o amor.

E correndo o risco de assumir de vez a pecha de cafona, atrevo-me a dizer que ainda não inventaram nenhuma motivação mais legítima para escolher o que é certo (pautando como certo o que é bom para a coletividade) do que “gostar do outro como de si mesmo”. Isso lembra alguma coisa?

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O Casamento de Rachel: de perto nenhuma família é normal

o casamento de rachel

“Todas as famílias felizes se parecem, mas as famílias infelizes o são cada uma a seu modo “, escreveu Leon Tolstói no clássico “Anna Karenina”.

O cinema explora constantemente esta premissa em filmes que adentram a intimidade de famílias exemplares na aparência, mas desfuncionais nos bastidores. Esta modalidade de enredo acaba de ganhar um representante original em “O Casamento de Rachel”, que rendeu a primeira indicação ao Oscar de Melhor Atriz na carreira de Anne Hathaway (“O Diário da Princesa” e “O Diabo Veste Prada”).

Ela faz Kimmy, a caçula de duas irmãs que recebe autorização da clínica de reabilitação onde trata -não pela primeira vez- sua dependência química e de álcool para comparecer ao casamento da mais velha, Rachel. A condição é que se submeta a testes de urina antes e depois do evento e freqüente reuniões diárias do Narcóticos Anônimos pelo tempo que precisar se ausentar.

Logo que é recebida, pelo pai, a madrasta e a irmã noiva, na casa toda preparada para um casamento com tema indiano, percebe-se que o afeto a unir aquela família é genuíno. Mas isso não impede que todos ainda tenham que lidar com as feridas abertas por episódios traumáticos causados pelos vícios de Kimmy. Um pedido de desculpas público em pleno jantar de ensaio do casamento faz emergir em Rachel antigos ressentimentos com os quais todos evitavam lidar, e em Kimmy uma culpa antiga pela qual ela recusa-se a se perdoar.

A câmera de Jonathan Demme (de “O Silêncio dos Inocentes”) acompanha as ações e reações de cada personagem como se o seguisse muito de perto, como em um documentário ou mesmo em um filme caseiro de evento familiar. Isso faz com que tenhamos a impressão de estarmos olhando o que não deveríamos pelo buraco da fechadura.

Talvez a intenção de Demme tenha sido mesmo fazer com que no sentíssemos intrusos, para intensificar a idéia de que estamos assistindo a cenas de profunda intimidade e da conta apenas daquela família.

Ao final, nem todos os ressentimentos são resolvidos e nem todas as culpas perdoadas, mas a mensagem que fica é a de que, mais forte que os dissabores e decepções, o amor tem o poder de manter unidos entes que nem sempre conseguem conviver juntos sem se machucarem. Não é exatamente um final feliz, mas rescinde a esperança, o que não deixa de ser, ao mesmo tempo, realista e auspicioso.

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O nazismo pelos olhos de uma criança

o menino do pijama listradoChamem de inconsciente coletivo do cinema ou simplesmente oportunismo a atual onda de filmes que busca rever o nazismo de pontos de vistas de protagonistas incautos, inocentes, como “Um homem bom”, por exemplo – que mostra a perspectiva de um cidadão de bem seduzido pelo regime do fuher -, e “O menino do pijama listrado”, que assisti semana passada.

Neste último, a perspectiva é a de um garoto de oito anos de idade, que curte feliz a alienação da infância em um bairro nobre de Berlim. Quando seu pai – um militar do qual ele muito se orgulha – é promovido, a família toda se muda para uma região rural. Ali está instalado nada menos que um dos campos de concentração do nazismo, que será gerenciado pelo pai.

Seu contato com uma realidade até então impensável para sua família perfeita se dará através de uma cerca, à margem da qual ele passa a encontrar, todos os dias, um menino mais ou menos de sua idade que, a exemplo dos demais habitantes daquela estranha “fazenda”, só veste pijamas.

Aos poucos ele descobre que os “fazendeiros” não estão ali por escolha, mas como punição por serem judeus, delito cuja gravidade ele jamais entenderá a extensão.

Como em “A Culpa é do Fidel”, o tempo todo o ponto de vista que prevalece é o da criança. Nós, espectadores, sabemos o que cada pista que o menino pesca da realidade à sua volta significa, mas somos forçados a acompanhar pacientemente suas descobertas, o que acaba sendo instrutivo (qualquer novo ângulo de um mesmo problema é revelador).

O desfecho é dramático, como é de se esperar em qualquer filme que toque, ainda que superficialmente, o tema do holocausto.

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Cinema ocidental e cultura indiana: paquera antiga

Driblando o destinoJá havia citado em minha postagem sobre o ótimo “Quem quer ser um milionário” que o encontro entre Bollywood (o cinema de entretenimento indiano) e o cinema ocidental, tão festejado pela imprensa por ocasião desta produção, não é tão novidade assim. Para provar, relaciono abaixo quatro filmes que assisti nos quais a “paquera” entre a cultura indiana e o cinema ocidental resultaram em bom entretenimento (em minha opinião, claro).

“Driblando o destino”, de 2003, tem produção e atores ingleses, mas o roteiro e a direção são assinados por indianos – ou descendentes deles. Sua maior curiosidade é trazer três atores à época ainda pouco festejados, mas que se tornariam, em poucos anos, verdadeiros “queridinhos da indústria”: Keyra Knightley, ainda na puberdade, aparece aqui de aparelhos nos dentes e ainda em um papel secundário; Pasminder Nagra, que em seguida viria a interpretar a médica Neela Rasgotra do seriado E.R. (“Plantão Médico” no Brasil) ainda era uma ilustre desconhecida e Jonathan Rhys Meyers (de “Ponto Final – Match Point” e “O Som do Coração”) nem sonhava em ser escalado para um papel de protagonista em um filme de Woody Allen.

No filme, a personagem principal é a adolescente Jesminder, filha de uma família indiana radicada em Londres que faz questão de seguir, em seu pequeno e fechado círculo social, os mesmos costumes tradicionais do país natal. Isso tem um custo alto para as filhas, divididas entre a obediência aos pais e a atração exercida pelos costumes mais liberais do país em que cresceram.

A noiva e o preconceitoJane Austen na Índia

No ano seguinte, a mesma diretora de “Driblando o destino”, Gurinder Chadha, assinaria uma adaptação “bollywoodiana” do clássico de Jane Austen “Orgulho e Preconceito”. Sob o título de “A Noiva e o Preconceito”, a co-produção anglo-americana resultou em um misto DIVERTIDÍSSIMO de comédia romântica e musical.

A história, quem curte Jane Austen -ou todas as adaptações cinematográficas já feitas de seus livros- já conhece bem: dois amigos ricos chegam à cidade e viram alvo de uma mãe ávida para casar algumas das suas quatro filhas solteiras. No caso de “A Noiva e o Preconceito”, a cidade é Nova Delhi, capital da Índia, os amigos são dois advogados -um americano e o outro indiano em férias no país natal- e a mãe a matriarca de uma tradicional família indiana.

A atriz indiana Aishwarya Raí foi descoberta pelo cinema ocidental neste filme e voltou a protagonizar outra produção anglo-americana com um pé na Índia no ano seguinte. Em “O Sabor da Magia” (título brasileiro para “The Mistress of Spieces”, este sim homônimo ao livro indiano que inspirou o filme), Gurinder Chadha era apenas um dos produtores, e a direção ficou a cargo do desconhecido Paul Mayeda Berges.

Aishwarya interpreta Tilo, dona de uma loja de especiarias em São Francisco (EUA) que possui o dom mágico de transformar seus ingredientes em poções para curar as pessoas. Porém, ela só mantém o dom se mantiver-se fiel às regras sagradas de nunca provar alguma de suas receitas ou se apaixonar, o que -claro- eventualmente acaba ocorrendo.

A força das raízes

“Nome de família” (foto acima), da indiana Mira Nair, é o único drama desta lista. Sensível, mostra a adaptação de um casal indiano aos Estados Unidos, embora sem abrir mão de sua identidade indiana. Em sua segunda parte, o filme enfoca a segunda geração pelos olhos do filho mais velho, Gogol, que passa a buscar sua própria identidade, tendo que lidar com as tradições de sua família e seu direito de nascença americano, em um primeiro momento rejeitando seu próprio nome e as tradições de família. Uma tragédia familiar o fará aceitar e conciliar sua herança cultural com seu histórico de vida.

O que todos esses filmes têm em comum, além de uma pequena amostra dos costumes e cultura indianos, é um modo de filmar bem diferente do modelo hollywoodiano. As histórias são leves, mas nada superficiais e o ritmo mais lento, porém nem um pouco enfadonho. Convidam à contemplação e à reflexão em cada cena.

Para mim, foram ótimo entretenimento.

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