Silvia Pereira

Jornalista com 30 anos de experiência em redações e blogueira de cinema, séries e literatura; Silvia Pereira adora ouvir, ler, assistir e - principalmente - escrever histórias.

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‘O segredo de seus olhos’: filmaço!

São muitos os aspectos que me encantaram em “O Segredo de seus olhos”, um dos concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, que tem direção de Juan José Campanella (“O mesmo amor, a mesma chuva” e “O Filho da Noiva”) e co-produção de Espanha e Argentina.

Não se enganem com a simplicidade da sinopse: oficial de Justiça aposentado decide escrever livro sobre um crime que ajudou a esclarecer 25 anos antes.

O grande barato da história está na forma como o protagonista, Benjamin Espósito (Ricardo Darín), tenta, a partir dessa meta, entender o próprio passado e as escolhas que fez – ou deixou de fazer.

Ao longo dessa “re-memória”, resgata outras histórias e paixões vividas pelos personagens que gravitaram em torno daquele crime. Essas histórias se entrelaçam com a sua por meio de analogias, que a gente tem o prazer de ir identificando a conta-gotas, à medida que o roteiro vai nos brindando, sem pressa, com flashes do passado encaixados entre cenas do presente.

Inteligentes e não-lineares, roteiro e montagem não nos entregam facilmente as motivações de Espósito para rememorar fatos tão antigos e nem explica de cara que segredo ou desconforto isso instala entre ele e a amiga de muitos anos, Irene Menendez Hastings (Soledad Villamil) – atual promotora de Justiça e no passado advogada da seção em que ele trabalhava. Nós, espectadores, vamos fazendo as ligações aos poucos, conforme os flashbacks vão dando pistas sobre as causas da sensação de vazio que Espósito tenta explicar a si mesmo.

O segredo referenciado no título é sugerido (em meu entender) pelos olhares silenciosos que eventualmente Espósito e Irene trocam, sem que digam uma palavra fora do roteiro trivial a que se auto-restringiram há 25 anos.

Enfim, quando concluímos que o filme é sobre a dupla investigação de Espósito – a do crime do passado e sobre o que fez de sua vida nesses anos todos-, o roteiro nos brinda com outra surpresa, que, claro, não vou entregar aqui.

O filme acaba fundindo com maestria romance, drama, mistério e (quase ia me esquecendo) humor – particularmente as cenas de Espósito com o amigo Sandoval (Guillermo Francella) são muito engraçadas.

Por isso tudo, à guisa de resumo, “O Segredo de seus olhos” merece o adjetivo: “FILMAÇO”!

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Não alcancei o apelo de ‘Guerra ao Terror’

Guerra ao Terror LEGAcabo de assistir a mais um concorrente ao Oscar na categoria Melhor Filme: “Guerra ao Terror”, de Kathryn Bigelow. Ok, entendi que a diretora e co-roteirista quis ilustrar um novo tipo de doença criado pela guerra: o vício em adrenalina. “Got it… but, so what?”. E daí? De que me serve saber disso mesmo?

Tudo bem, sou uma espectadora suspeita por não morrer de amores por filmes de ação (espetáculos de cenas de perseguição e tiroteio me dão um tédio sem fim). Por isso não descarto a possibiidade de o problema estar em mim, que não alcancei alguma proposta mais profunda do filme.

Mas sou, sim, capaz de me sensibilizar por filmes de guerra que carreguem propostas de reflexão, como “Platoon”, “Apocalipse Now”, “Além da Linha Vermelha”, e não tenho nada contra filmes de ação que também tenham uma história consistente. Prova disso é que adorei dois filmes do gênero já assinados pela própria Kathryn Bigelow: “Caçadores de Emoção” (com Keanu Reeves e Patrick Swayze LINDOS em trajes surfistas) e “Estranhos Prazeres”, que tem um roteiro inteligentíssimo assinado por James Cameron (ex-marido de Kathryn) e Ralph Fiennes como protagonista.

No entanto, me desculpem os votantes da academia hollywoodiana, mas não consegui encontrar neste “Guerra ao Terror” nada de útil sobre o que pensar nem nenhuma grande história para me entreter. A mim parece um filme “sem alma”. Sua primeira metade, em que o trio de soldados de um esquadrão anti-bombas fica só desativando detonações – e dois deles ficam se estranhando o tempo todo, como dois infantilóides – quase me matou de tédio.

O único momento interessante para mim foi uma aparição de Ralph Fiennes, infelizmente muito rápida. Pude reconhecê-lo mesmo antes dele se livrar do turbante árabe que lhe envolvia toda a cabeça, deixando só o olhar livre. Foi o suficiente! (reconheço em qualquer tela aquele par de olhos claros e brilhantes, magnificamente expressivos).

Ok, os americanos devem ter visto algum sentido nisso tudo que não alcancei. Como também não consegui enxergar a “genialidade” que toda a crítica e a academia viram em “Onde os Fracos Não Têm Vez”, dos irmãos Coen, muito premiado no último Oscar.

O fato é que também não consigo alcançar a grande proposta a justificar a indicação de ‘Guerra ao Terror’ ao Oscar. Deve ser um daqueles filmes codificados para só um determinado gênero de platéia (da qual não faço parte) entender… vai saber?!

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Relações desconectadas em ‘Amor sem Escalas’

“Amor sem escalas” começa como um filme cínico, daqueles pensados para dar a sensação de um “soco” no estômago que te faz acordar para a vida real. Quando você menos percebe, o próprio roteiro começa a questionar a validade de toda esta injeção de realidade. Por isso e muito mais mereceu, em minha opinião, o Globo de Ouro de Melhor Roteiro deste ano.

O diretor e co-roteirista, Jason Reitman (de “Juno”), escolheu o ator perfeito para o papel do solteiro convicto Ryan Bingham, um consultor especializado em demitir funcionários para as empresas: George Clooney – o solteiro mais convicto e convincente do show bizz.

Seu personagem também é convincente ao enumerar as vantagens de não ter nada que o prenda a lugar nenhum, nada de pesado para carregar na mochila nem ninguém por quem você seja responsável a ponto de ter que renunciar a qualquer desejo – desde um simples e descompromissado programa até um sonho de vida.

Você até encontra sentido em seu discurso hiperracional e fica tentado a lhe dar razão. Chega a invejar sua liberdade de ir e vir para onde quiser e na hora que quiser, sem dar satisfações ou se preocupar com ninguém. Até que algo nesse discurso perfeito, que ele costuma repetir em palestras a conferências de executivos país afora, começa a fazer água.

Não é nada repentino. Primeiro ele encontra uma atraente executiva, que, além de ter a mesma rotina de viagens que ele, parece comungar seu perfil de desapego ao “sonho americano”. Depois, é confrontado pela companhia e os ideais de vida de uma executiva recém-formada (Anna Kendrick, de ‘Crepúsculo’, desta vez em um papel de maior destaque) que tem de treinar por algumas viagens. A jovem questiona sua postura individualista, mas ele nem gagueja nas respostas. Está seguro de si.

Algo parece começar a mudar só quando o vemos decidir de última hora ir ao casamento da irmã caçula e convidar a tal executiva atraente para ir junto.

É sutil a forma como o roteiro de Reitman (co-assinado por um tal de Sheldon Turner) faz Bingham começar a questionar seu estilo de vida.

Uma cena emblemática mostra-o entrando em seu apartamento de solteiro na volta da viagem que fez para o casamento da irmã. Ele coloca três cabides tirados da mala no guarda-roupa absolutamente vazio – como o de todos os hotéis em que se hospeda -, entra no banheiro de azulejos brancos e neutros como todo o restante do apartamento e, ao pegar a escova de dente, estaca diante de sua imagem no espelho.

Parece que está se olhando de verdade pela primeira vez. Entendemos, por associação, que é a sua vida, neutra e semi-vazia, como aquele apartamento todo branco, que ele está realmente encarando, pela primeira vez com um novo olhar.

Não vou entregar o que ele faz a partir desta tomada de consciência, mas basta saber que ele experimentará uma dose do cinismo que sempre dispensou aos outros.

No final das contas, “Amor sem Escalas” passa uma mensagem muito mais nobre: a de que é preciso coragem, sim, para aceitarmos todo o estresse, todas as renúncias e todo o tédio que vêm junto com a aceitação de laços afetivos para toda a vida, mas que ter pessoas com as quais dividir a vida sempre vale a pena. A diferença é que o filme mostra isso sem adotar os habituais recursos “melosos” dos romances e com um olhar muito adulto e realista. Pontos para seu diretor-roteirista, que parece saber, aos 32 anos, o que seu personagem levou algumas décadas a mais para descobrir: nunca é tarde para reavaliar sua vida.

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‘Batman – O Cavaleiro das Trevas’ mereceu a maior bilheteria da década

Prova de que nem todo o sucesso de público é sinônimo de lixo foi o rankeamento recente de “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan, como a maior bilheteria da década.

Acho o filme genial! E daí que um crítico mau-humorado achou que “para adultos equilibrados o filme não passa de dementes de pijama”? (lembram que escrevo sempre como público?). Concordo é com o outro que escreveu: “sua aparente trivialidade é justamente o que faz com que, enquanto nos diverte, possa levantar questões sérias sobre os valores e os méritos”.

Para mim, o personagem de um dos “dementes de pijama”,  Coringa (Heath Ledger memorável!) foi escrito para nos fazer pensar sobre o quanto tememos o caos, a falta de significação para cada acontecimento ruim, como a morte de um ente querido, as guerras ou uma tragédia. Ele nos faz encarar um medo sobre o qual sequer temos consciência no dia-a-dia. Está lá, escondido atrás das explicações que precisamos encontrar para tudo.

É por conhecer este medo que Batman assume a culpa por crimes que não cometeu. Ao contrário do bom-moço Harvey Kent, ele consegue emergir à dor e à falta de significação para a perda do amor de sua vida. Afinal, já passou por esse tipo de sofrimento antes.

Para mim, o filme fornece a melhor definição de super-herói. O Batman de Nolan merece o título não por voar entre prédios e fazer coisas que seres humanos normais não podem, mas porque – para usar as palavras do oficial Jim Gordon – ele “agüenta”!

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‘Assista’ este livro: Clube do Filme

Deliciosa a experiência de ler “O Clube do Filme”, livro do jornalista canadense David Gilmour que citei na última postagem e sobre o qual meu amigo Eduardo já escreveu neste mesmo blog. Assumo o risco de torrar a paciência do leitor voltando ao assunto para dar minhas próprias impressões sobre a obra.

É uma leitura deliciosa, mesmo para quem não curte tanto cinema quanto eu, pois não se trata só de filmes. É também a história de um pai que decide arriscar-se a respeitar a natureza do filho autorizando-o a deixar a escola -que ele odeia- em troca de um compromisso: assistirem juntos a três filmes por semana, o que inclui conversar e refletir a respeito de cada título após cada sessão.

O que torna esta história mais humana é o fato de o pai nunca admitir que sabe o que está fazendo. Muito pelo contrário. O tempo todo ele se questiona sobre se fez a coisa certa ao seguir seu instinto paterno. Chega a entrar em desespero algumas vezes, imaginando um futuro ruim para o filho por negligência sua.

Mas a história terá um bom final. E até chegar a ele o leitor acompanha as confissões de um pai inseguro sobre a melhor forma de ajudar o filho quando ele passa pelas agruras de alguns ritos de passagem da adolescência, como primeiros amores, primeiras dores-de-cotovelo, primeiras dúvidas sobre o que é “ser homem”, etc.

Ao mesmo tempo, durante as sessões de cinema do Clube – que dura três dos mais cruciais anos da adolescência do filho, Jesse – “bebemos” deliciosos comentários de David sobre filmes dos mais variados gêneros e aprendemos com ele a ver, mesmo a títulos que já assistimos, de outros prismas.

O autor não fala dos filmes com a arrogância e o determinismo dos críticos, mas como um devotado e entusiasmado fã. Dá vontade rever muitos filmes citados por ele que já vimos ou de sair correndo locar os que ainda não assistimos.

Com esta identificação, acabamos por fazer parte, junto com pai e filho, do tal do “Clube do Filme”. Também fiquei desejando conhecer David pessoalmente, para passar algumas horas deliciosas trocando impressões sobre centenas de títulos. Seriam horas prazerosas!

Bom, mas como é improvável que este encontro role de fato, vou me contentar em utilizar uma das idéias de David para a próxima postagem, à qual darei o nome de “Prazeres Culpados” – o nome dado por David a um dos blocos temáticos da programação de filmes que ele preparava para ver com o filho. Este módulo referia-se a filmes que ele tinha vergonha de admitir que gostava, por serem considerados medíocres (Exemplo: “Uma Linda Mulher”).

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O metacinema de Sintonia de Amor

A diretora norte-americana Nora Ephron é mestre em acionar o inconsciente feminino em suas aparentemente superficiais comédias românticas.

Em meu filme preferido dela, “Sintonia de amor”, Nora usa o processo de atração de Meg Ryan por Tom Hanks (uma jornalista que se apaixona por um viúvo após ouvi-lo descrever as saudades da mulher pelo rádio) para um exercício muito divertido de metalinguagem: uma comédia romântica analisando o universo das comédias românticas a partir de uma comédia romântica em particular – “Tarde demais para esquecer”, citada pelos personagens o tempo todo.

Nora brinca com o repertório de símbolos narrativos que, reunidos em um filme, o fazem ser entendido – e consequentemente cultuado – só por mulheres. Exemplo de uma dessas “brincadeiras” é a cena em que o viúvo conta para o casal de cunhados ter recebido carta de uma fã (Meg) sugerindo um encontro às escuras no topo do Empire State Building, em Nova York, no Dia dos Namorados. Na hora a cunhada entende a relação com “Tarde demais para esquecer”, em que os personagens de Debora Kerr e Cary Grant marcam o mesmo encontro. As cenas que se seguem, com cada um descrevendo uma cena de filme que lhe fez chorar, são simplesmente hilárias! Dá pra ver que os atores se divertiram gravando-as .

O filme ainda conta com as atuações pra lá de carismáticas de Tom Hanks e Meg Ryan, que até tentou se livrar do rótulo de atriz de um só gênero atuando em dramas como “Em Carne Viva”, “Coragem sob Fogo” e “O Outro Lado da Nobreza”, entre outros, mas não adiantou. Todos nos lembramos dela por seus papéis em comédias românticas como esta e “Mens@gem pra você”, “Surpresas do Coração”, “Kate & Leopold”, etc.

Só para constar… não pertenço ao fã-clube de “Tarde demais para esquecer” (acho piegas de doer!). Mas, de uma forma geral, ADOOOOORO “filmes de mulherzinha”!

#prontofalei

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Som e clima dos anos 80 em ‘Férias frustradas de verão’

Brincadeiras com luzes estroboscópicas instaladas na parede da varanda, som stéreo de vinis saindo de caixas de som encaixadas nas janelas das salas, luzes apagadas e garrafas de cerveja (latas ainda eram uma extravagância) camufladas entre as de refrigerante nas geladeiras das cozinhas. Nas melhores “brincas”, o som de Crowded House, The Cure, Lou Reed, Simple Minds, Rolling Stones, David Bowie e – claro – U2. Mais do que os cenários e o figurino, as músicas de “Adventureland” ( “Férias frustradas de verão” no Brasil), ambientado em 1987, fizeram-me relembrar os anos e os ambientes de minha adolescência, quando “ficar” ainda era um conceito de vanguarda pouquíssimo praticado e ainda não se ouvia falar em AIDs (música também faz isso com vocês?).

Foi uma boa viagem no tempo conduzida pelo diretor Greg Mottola (do também ótimo “Superbad”) e na companhia dos atores adolescentes Jesse Eisenberg e Kristen Stewart (a Bella da série Crepúsculo dos cinemas) – ele na pele de um nerd romântico, recém formado no ensino médio, que vê seu plano de férias na Europa frustrados quando o pai tem problemas no trabalho. Para levantar recursos para a faculdade, aceita um emprego de verão no parque de diversões do título, onde conhece Emily (Kristen), de quem rapidamente fica amigo.

Aparentemente opostos -ele virgem, ela com uma vida sexual ativa; ele tímido e romântico, e ela popular e cética-, ambos se aproximam aos poucos, de uma forma doce e sem jogos, até que uma revelação coloca em cheque a relação antes mesmo dela engrenar.

O que mais gostei neste e no filme anterior de Greg Mottola, mais do que a história -simples em ambos os casos, mas nem por isso superficiais-, foi a forma original, livre de fórmulas com que é desenvolvida. Não há grandes análises existenciais, mas nem mediocridade… apenas uma forma simples, doce e sincera de se olhar a juventude que o cinema -a sociedade, na verdade- vem perdendo.

Não espere reprodução das “brincas” a que me refiro no início desta postagem (fazem parte da “minha” viagem no tempo… rs), mas curta a sua própria viagem pelos anos 80 ao som da trilha sonora do filme, comandada por gravações de Lou Reed e seu Velvet Underground, entre outros ótimos representantes da época.

Boa pedida para uma Sessão da Tarde!

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Distrito 9 traz frescor ao gênero

Acabo de conferir que os elogios feitos pela crítica especializada a “Distrito 9” não são nem um pouco infundados. Com produção do nada bobo Peter Jackson (diretor da trilogia “Senhor dos Anéis”) a estreia na direção do sul-africano Neill Blomkamp é um misto de ficção científica e thriller social que foge aos padrões, trazendo um sopro de frescor ao gênero.

O filme começa em tom documental, com vários entrevistados – entre sociólogos, assistentes sociais, moradores e agentes governamentais – descrevendo para a câmera porque a formação de uma favela, no centro de Johanesburgo (África do Sul), torna-se uma “pedra nos sapatos” das autoridades. Quando o governo resolve despejar seus moradores e transferi-los para uma área mais distante da cidade, o funcionário público padrão Winkus Van Der Merwe é encarregado da operação, que não se dará sem imprevistos (um deles caro demais a seu perfeito modo de vida).

Até aí, o argumento de “Distrito 9” não soa muito diferente dos de outros dramas com temática social exceto por um detalhe: os tais habitantes dessa favela são alienígenas, cuja nave “encalhou” nos céus da cidade após a perda de um módulo. Numerosos, desnutridos e inexplicavelmente amistosos – já que trazem na bagagem armas de grande poder letal-, eles são encerrados numa região demarcada por cerca eletrificada, que com o tempo vem a se transformar na tal favela.

As armas alienígenas são cobiçadas pelo governo, que tenta a todo custo descobrir uma forma de usá-las, pois sua tecnologia só funciona em contato com o DNA dos “camarões” – termo pejorativo pelo qual os aliens passam a ser chamados.

Claro que não descreverei a sucessão eletrizante de fatos que vêm a seguir, mas adianto que a trama é tão bem amarrada e o ritmo tão eletrizante que quase nem reparamos que os efeitos especiais não são de última geração – mais uma prova de que é a tecnologia que deve servir de suporte a uma [de preferência boa] história e não o contrário.

Também gostei de o filme não assumir ares panfletários e nem pretensões de crítica social. Claro que o espectador medianamente informado sobre as realidades sociais espalhadas mundo afora não terá dificuldade em traçar suas próprias analogias, mas poderá fazê-lo sem nenhum prejuízo do entretenimento. Ou seja, todo mundo ganha, quem assiste a filmes só para fugir da realidade e quem também gosta de pensar.

O final deixa margem a uma continuação. Vou torcer para ela rolar.

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Piratas do Rock: divertidíssimo!

Piratas do rockDIVERTIDÍSSIMO!!!

O adjetivo define o clima de “Os Piratas do Rock” (“The Boat That Rocked”), comédia de Richard Curtis (“Simplesmente Amor” e “Nothing Hill”) que inspirou-se na revolução das rádios piratas britânicas dos anos de 1960 para narrar histórias e aventuras vividas por um grupo de amigos DJs dentro de um navio de pesca transformado em emissora.

Logo na abertura o filme já diz a que veio, tascando o rock “All Day And All Of The Night”, do The Kinks, quando um garoto liga o rádio que tem escondido debaixo do travesseiro. Imediatamente aparecem cenas de ingleses de todas as castas e penteados vintage dançando ao som da Rádio Rock, àquela hora da noite com locução do auto-confiante Count (Phillip Seymour-Hoffman, mais uma vez demonstrando sua versatilidade).

Daí para a frente, acompanhamos a chegada ao navio do adolescente Carl e conhecemos junto com ele a rica variedade daquela “fauna masculina”, formada por DJs de todos os estilos e personalidades – desde o “come-todas” gordinho Dave até o romântico e casto Simon, passando pelo estúpido Kevin.

Destaco a participação – infelizmente muito silenciosa – de Tom Wisdom (quem acompanha o blog lembra-se que dediquei um post a ele assim que o descobri em “Quatro amigas e um jeans viajante 2”), como o DJ Midnight Mark, e do impagável Bil Nighy, veterano ator inglês que nunca precisa fazer muito esforço para ser engraçado. O único elo de ligação entre estes loucos é a grande e intocável paixão em comum pelo rock’n roll, que, aliás, está presente em cada cena do filme.

Aqui a música é um personagem à parte, ilustrando cada cena com clássicos do rock britânico, à época no auge da efervescência. Assim, desfilam pela trilha sonora desde Beach Boys e Cat Stevens até Jimmi Hendrix, passando por Rolling Stones, The Who, Dusty Springfield, entre outros, numa rica demonstração da variedade que o rock da época produziu.

E o filme segue de uma situação engraçada a outra -e um engraçado bem ao estilo do sutil humor inglês- até o final precipitado por uma armação do governo, que passa o filme todo tentando acabar com o combustível das rádios piratas: a popularidade.

Não vou contar mais nada porque também odeio spoilers (estraga-prazeres), mas fica a dica. Assistam e divirtam-se – e se gostarem da trilha sonora tanto quanto eu, comprem o CD.

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Bravo, Patrick!

O que lamento com a morte de Patrick Swayze ontem, vítima de um câncer no pâncreas contra o qual lutou por 20 meses, não é a perda de um grande talento interpretativo – apesar de versátil, não era tão expressivo -, mas de um ótimo ser humano e de um exemplo, cada vez mais raro, de astro que soube passar incólume pela embriaguês da fama, mantendo o ego na medida para conciliar a vida pública e a privada sem excessos ou perda de referenciais.

Bem que o noticiário de celebridades tentou encontrar detalhes que desabonassem a imagem de integridade do ator, casado por 34 anos com a mesma mulher, com quem dividia a vida e a sociedade em uma escola de dança (bailarino desde criança, pela dança chegou a Hollywood).

O “bom-mocismo” transbordava pela personalidade de Swayze e talvez isso explique o carisma, que o fazia conquistar o público mesmo em papéis de vilão (também torci por ele como o surfista assaltante de “Caçadores de Emoções”).

Desde o anúncio de sua morte, todos os noticiários televisivos usam imagens dos filmes mais vistos de Swayze para homenageá-lo: “Dirty Dancing” (que o alçou à fama) e “Ghost – Do outro lado da vida” (que o consagrou de vez). Já eu sempre me lembrarei dele por meio de um filme muito pouco festejado e quase nunca lembrado em sua filmografia, “Para Wong Foo, obrigado por tudo, Julie Newmar”.

No filme em questão, Swayze e os também fantásticos atores John Leguizamo e Wesley Snipes envergam saltos altos, quilos de maquiagem, enchimentos e modelitos esvoaçantes para viverem classudas drag queens, que atravessam os Estados Unidos em um conversível com o objetivo de participar de um concurso de beleza numa metrópole. No meio do caminho, porém, o carro quebra em um vilarejo, onde têm que passar alguns dias esperando a peça necessária ao conserto. Claro que o tempo que passam no local muda para sempre a vida daquela comunidade, que aprende muito sobre ludicidade, auto-estima e amizade com as novas “amigas”.

Sempre revejo o filme e a cada revisão me surpreendo com a delicadeza e entrega com que os três atores interpretam seus papéis, tendo Patrick Swayze à frente. Ali sim ele foi um “grande ator”.

Para mim, foi seu melhor papel… no cinema, porque na vida, acho que desincumbiu-se muito bem de todos que assumiu – de bom marido, bom pai e boa pessoa.

Bravo, Patrick!

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