Categoria: COLABORAÇÕES

Textos de cronistas convidados do blog.

‘Green Book’, o filme

por Évanes Pache.    

Fiz questão de ir para o cinema virgem de opiniões, com a mente livre de adjetivos. Escolhi o filme sem ler a sinopse e sem saber exatamente do que se tratava. Nas primeiras cenas pensei: 

“Putz, mais um personagem machista, racista, mal educado com aquele olhar obsoleto que, pra mim, não cabe mais no mundo”.

Foi se descortinando um roteiro clássico de Hollywood e eu já estava quase me arrependendo de estar ali.  

Green Book” conta um pouco sobre a vida do pianista Donald Shirley e mostra, com uma história real que ocorre nos anos 1960, que é possível transformar padrões e formas de atuar no mundo.

Ao longo do filme, e da jornada do herói vivida pelo personagem Tony Vallelonga (Viggo Mortensen), experimentei momentos de tensão, de compaixão, de empatia, que me levaram à gargalhadas e também, às lágrimas. O diretor e roteirista americano, Peter Farrely, compôs climas emocionais com pontos de virada que me levaram a uma entrega à história.

NO PÁREO: Mahershala Ali e Viggo Mortensen concorrentem, ambos, a prêmios de interpretação no Oscar deste ano

“Green Book” cativa e ativa a memória sobre alguns modos de desumanização ainda atuais. Traz a caricatura das ruas quando propõe um personagem principal que despreza qualquer delicadeza, que conhece apenas o cenário onde as relações são espaços para exercitar um universo interno rude, estúpido e deselegante. 

Falo isso porque acho importante assumir todo o meu preconceito e intolerância sobre os preconceituosos e intolerantes. Me exercito muito para não deixar isso me tomar, mas a verdade é que ainda me toma.

Gosto de pensar que podemos ser tragados pela gentileza com doçura e firmeza ao mesmo tempo. No filme, essa forma pessoal de pensar e desejar a vida se realiza. Tudo de um jeito sutil e envolvente. As emoções do espectador são conduzidas de um jeito fino e doce. 

“Green Book” fala sobre criar vínculos, sobre parceria, de real interesse e sobre se importar de verdade com o outro. Fala de uma amizade que se constrói de forma autêntica e com uma afetividade desinteressada. Isso tudo de maneira delicada e divertida, sem cair em clichês panfletários. 

O filme não tem parafernálias técnicas. O que me encantou foi a maneira gentil de mostrar um recorte dolorido da vida de Donald Shirley e a beleza de ser humano.

 

Évanes Pache é jornalista, especialista em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz e palavreira sensível

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Extravagância e sensibilidade

por José Eduardo Gomes de Carvalho      


O filme mais ambicioso do grego Yorgos Lánthimos, ou, ao menos, o destinado a chegar a um público mais amplo, é um antigo projeto sobre a rainha Anne Stuart, sob cujo reinado Inglaterra e Escócia se unem depois de um transformador período para que possa nascer a atual Grã-Bretanha, com todas suas mazelas. A época de “A Favorita” não podia ser mais turbulenta, incluindo uma guerra secular com a França, tema secundário durante a trama. O que o espectador precisa ter em consideração, porém, é que o próprio Lánthimos relativizou a precisão histórica em suas entrevistas sobre a produção. Não é uma aula de história e, sim, um panorama humano sobre os costumes de uma época.

“Não é uma aula de história e, sim, um panorama humano sobre os costumes de uma época”

A britânica Olivia Colman personaliza Anne, uma mulher de saúde frágil, que comandava o país a partir de seus aposentos reais, onde recebia, com os devidos filtros de seus interlocutores, informações sobre o conflito contra os franceses. Uma íntima amiga e confidente da rainha, Sarah Churchill, é o termômetro do exercício de poder e quem, desde sua capacidade para cooptar a monarca utilizando seus diversos dotes, mexe com as estruturas da corte. A personagem é encarada por Rachel Weisz em uma de suas mais brilhantes interpretações, o que não surpreende. Mas há um terceiro vértice do triângulo palaciano exclusivamente feminino, protagonizado por Abigail Masham, prima distante de Sarah, que sabe perfeitamente como escalar com solidez a pirâmide social. É interpretada por Emma Stone, enquadrada com soberba fluidez na trama, do alto de um perfeito sotaque britânico. A frugal atriz, que já se vestiu de namoradinha da América em várias ocasiões, enfim cumpriu um pós-doutorado.

 

BRIGA BOA: Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz concorrem, as três, a Oscars de interpretação neste ano

A força de poder na Grã-Bretanha de então emanava das mulheres, um aparente anacronismo histórico que ajusta com mais precisão a lenda de que o poder feminino era uma ilusão nos tempos aristocráticos. As mulheres sabiam e podiam mandar. Tal realidade surpreendeu o próprio Lánthimos ao esmiuçar a história curta e intensa de Anne e de suas lugares-tenentes. O trabalho do diretor foi estruturar o enredo para que se centrasse na vida pessoal – e nos métodos – dessas três mulheres no centro de decisões da monarquia. O diretor grego admitiu que não ampliou sua precisão histórica para se concentrar no espaço entre o mental e o físico onde se escondem os principais segredos de alcova de uma corte em tempos agitados, o que resultou em uma obra sobre as relações entre poder e convivência, entre ambição política e afeto.

Loucos paradoxos

A rivalidade entra Sarah e Abigail não tarda em surgir, como ponta de lança da trama para que uma delas ocupe o posto de favorita da rainha, cada uma a sua maneira. O resultado é um paradoxo que alterna o sutil e o contundente para revelar três majestosas interpretações, em torno de marcantes relacionamentos humanos que jogam com amor e poder em um insólito universo de domínio feminino para a época. Para tanto, o diretor grego não hesitou em carregar no latente clima de homossexualidade que permeia o filme, para ressaltar o relacionamento humano em si, ainda que tenha cometido outra imprudência histórica – os estudiosos do período não são suficientemente convictos de que Anne Stuart se tratasse de uma homossexual.

“O resultado é um paradoxo que alterna o sutil e o contundente para revelar três majestosas interpretações”

O encontro interpretativo das três atrizes revela interessantíssimos confrontos, de onde brota esse espaço íntimo no qual se jogam importantes questões no aspecto pessoal de uma época tão estudada no nível das consequências histórico-sociais, mas pouco esmiuçada nas questões ligadas às relações humanas. Ou seja, ao mesmo tempo em que se manejava o destino de um país, as favoritas montavam um incendiário duelo emocional em torno da rainha, alternando o sublime e o perverso, o vale-tudo descarado e a sutileza das pequenas armadilhas emocionais da nobreza. Tudo isso em um período, o século 18, no qual as cortes europeias viam como a sexualidade – e em alguns casos a promiscuidade – era um componente nevrálgico das relações palacianas em torno ao poder político e aos mecanismos de expansão das nações.

O diretor exagera bastante nas tomadas com grande angular e no contra plongée, além de abusar da espetacular trilha sonora como apoio ao suspense ou à tensão em determinados momentos argumentativos. É claro que Bach e Schubert caem com perfeição no ambiente palaciano, mas há uma certa overdose sonora no balanço final (que ninguém se espante, inclusive, com “Skyline Pigeon”, de Elton John, nos letreiros de encerramento – é só mais um anacronismo).

O fato é que, por dominar plenamente o ofício, Lanthimos passa um pouco da linha em seus excessos com a câmera, utilizando técnicas de publicidade, um ambiente que profissionalmente conhece bem, e de peças musicais, algo ligado à sua formação no mundo do espetáculo, que inclui uma participação importante na montagem do show de abertura na Olimpíada de Atenas/2004. São virtudes que o recomendam, nunca desabonam, mas que deixam o filme por momentos um pouco espesso, elevando além da conta a sensação térmica de extravagância em determinadas cenas. O principal, porém, a obra conseguiu: retratar o caudaloso ambiente palaciano da chamada “Inglaterra profunda” com transparência e sensibilidade, sem abrir mão de matizes de crueldade, ironia e tragédia. Aliás, esse foi o segundo maior mérito de Lánthimos – o primeiro, obviamente, foi reunir três atrizes excepcionais.

 

José Eduardo Gomes de Carvalho é jornalista, cinéfilo, corintiano roxo e amigo para todas as horas

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Fui ali ser feliz…

Saiu.

Foi assim, sem aviso ou despedida, que ela não mais voltou.

Antes, havia revelado para poucos que estava muito doente. Sofria de ódio. Disse que era uma dor infame que lhe aplacava todos os dias e que não sabia se começava nela ou se era algo que vinha no ar.

Na memória vinham cenas de momentos em que havia se sentido depreciada e diminuída, excluída e desamparada. Disse que essa dor foi, e é, terrível e que gerava nela algumas reações (não era bonito).

Contou ainda outros episódios em que suspeita onde pode ter ocorrido a contaminação. Mensagens. Foram muitas mensagens e posts.

Às vezes, contou ela, “podia perceber algo diferente em meu corpo ao ler. Meus olhos abriam mais do que o necessário, sentia um aperto no peito e o estômago ardendo. Travava os dentes e notava as narinas com abas mais abertas.”

Mas achou que não era nada. Com o tempo foi perdendo alguns movimentos. Ir e vir já não era tão fácil. Se sentia um tanto acuada. A voz começou a se tornar mais fraca. A garganta doía, a cabeça pesava e seu grito ficou mudo.

Perdeu coisas, como pessoas que chamava de amigos. Outras que chamava, parentes. Gente que não se importou com as dores que lhe causavam.

Confusa, não sabia se o que sentia vinha de fora ou de dentro. No primeiro momento, estava certa de que a contaminação havia lhe tomado inadvertidamente. Ela se sabia saudável e tinha todos os exames em dia.

Ingênua, não havia notado que o vírus do ódio é algo que vem programado em todos e que é sistêmico. Atinge fortemente, nesse momento, todo o país, quiçá o planeta, e faz parte de uma faceta humana.

Depois de algum tempo, ela se deu conta de que a doença que tomava como sua já era uma epidemia e os jornais falavam sobre vários casos de morte. Todos os dias as notícias traziam situações de ataques e contaminações.

A dor foi se ampliando e, aos poucos, se tornando insuportável.

Num domingo de sol, já torpe e surda, veio a decisão inadiável. Rompeu com os grilhões do medo de não fazer parte do sistema e saiu.

Determinada, decretou: Vou ser feliz!

P.S. 1: Pensou em si mesma. No entanto, a decisão agravou os sintomas de alguns. Episódios de inveja aguda foram relatados ao ouvirem-na cantar suas raízes: “Quem é que sobe a ladeira, do curuzu? […] Não me pegue não, não, não / Me deixe à vontade / Não me pegue não, não, não / Me deixe à vontade / Deixe eu curtir o Ilê / O charme da liberdade / Como é que é? / Deixe eu curtir o Ilê / O charme da liberdade.”

P.S. 2: Terminou dizendo: “Fui. Beijo, me liga”.

 

 

Évanes Pache é jornalista e especialista em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz


 

Crônica da seção Palavreiros, do blog, que traz colaborações de convidados com temas livres. O convite é extensivo a todos que gostam de “palavrear” a vida na forma escrita.

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Quem são eles?

Em algum momento, lá onde as tribos nômades começaram as batalhas por territórios, aprendemos um conceito equivocado que até hoje guia a humanidade. Nós OU eles. E nós somos sempre os bons, nós somos sempre os certos, nós somos os melhores e mais bem intencionados. Nós somos os escolhidos que sabem o caminho melhor do que os outros.

Bad news!

Assim como não existe jogar o lixo fora porque não existe fora desse planeta, não existem eles.

Eles todos somos nós. E todos nós temos as mesmas necessidades de pertencimento, de amor, de compreensão, carinho, de conexão.

Todos nós temos necessidade de nos sentirmos respeitados.

O mundo está em convulsão. Terremotos, manifestações de indignação e revolta, tempestades, inundações, vulcões acordando… e um clima extremamente tenso no ar.

Isso acontece no panorama externo para que tenhamos atenção ao interno. A violência interna (e tudo o mais que estiver guardado em nós) gera a violência externa. Quando nos alimentamos de cenas, palavras e pensamentos violentos criamos essa atmosfera. Isso é lei, uma lei hermética chamada ressonância.

Não importa se acreditamos ou não. Lei é lei. Como a lei da gravidade, não vemos e, para que ela aconteça, não precisa acreditar. O que está em cima está embaixo, assim como o que está dentro está fora.

Como disse uma amiga (Andrea Honaiser) hoje em seu post, “tem horas que, se não existe nada de bom a acrescentar, melhor calar”.

Nesses tempos acirrados entre o bem e o mal, entre bandidos e mocinhos, vejo a exaltação da violência feita sem a menor responsabilidade nas redes sociais. Conhecidos, amigos, parentes, que antes não verbalizavam suas posições extremas se regozijam ao rivalizar com outras pessoas, muitas vezes, apenas para destilar ódio e vingança. Têm um prazer em inferiorizar o outro, em apontar as falhas, diminuir, em se colocarem como os certos da história seja ela qual for.

Bad news! Não existem “eles”.

“Eles” todos somos nós.

 

Évanes Pache é jornalista e especialista em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz


 

Crônica da seção Palavreiros, do blog, que traz colaborações de convidados com temas livres. O convite é extensivo a todos que gostam de “palavrear” a vida na forma escrita.

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Mãe solteira procura…

“Mãe, compra um suco?”. Já viram o preço de um copo de suco num restaurante comum? Em Brasília, custa em média R$ 6 o copo.

“Mãe, compra cartas Pokémon?”. Depois que passou a febre das figurinhas da copa, ele voltou a fuçar a caixa que guarda mais de 200 cartas desses bichinhos esquisitos.

“Mas, mãe, só custa R$ 6”. Paro, respiro, penso e tento explicar que é quase o valor de uma passagem de ida para o trabalho. O ticket de metrô em Brasília custa R$ 5.

Dias atrás, ele chorou quando me despedi para ir ao trabalho. Pedi calma. “Logo as coisas se resolvem e consigo organizar melhor a logística para ter mais tempo”, disse eu.

Há dois anos deixei o jornalismo para trabalhar como artista em eventos. Passei a ter mais flexibilidade de horário, porém, abri mão de certos luxos. Deixamos o carro, evitamos comer em restaurantes, quase não compramos roupas. Cinema é raro. Viagens nem se fala.

O primeiro mês foi surpreendente. Recebi melhor do que quando era jornalista. No segundo, não foi tão bom, mas o primeiro mês compensou. Daí para frente, só malabarismo com a vida. Alguns meses tranquilos, outros uma corrida contra o tempo para conseguir o suficiente para pagar as contas.

Quando percebi estava trabalhando mais do que trabalhava antes como jornalista. Eventos nos fins de semana e escolas durante a semana. Isso porque o aluguel aumentou, a conta de luz subiu, a vizinha que dividia a internet desistiu por conta da péssima qualidade do serviço da Vivo, além da compra no supermercado que ficou mais cara.

“Mãe, minha cabeça está doendo.”

“Leva no oftamo”, aconselham.

“Mãe, tem um dente nascendo por cima do outro.”

“Ixi, vai precisar de aparelho de dentes”, ressaltam.

“Mãe, não consigo respirar.”

“Puxa, é alergia!”, afirmam.

“Tô pirando”, desabafo.

“Psiquiatra, nêga. Remédio ajuda. Tem convênio?”, perguntam. Imagina! Convênio? Desde quando isso faz parte da realidade de um autônomo?

Há meses tento uma brecha de tempo para enfrentar a fila do SUS e marcar tantas consultas.

Dia desses ele chorou de novo quando me despedi para ir dar aulas.

“Filho, eu preciso pagar as contas. Temos que nos ajudar”, expliquei. E entrei no metrô, cabeça a mil. Parei na frente da escola. Travei. Naquele dia eu iria trabalhar 8 horas, com crianças do berçário e do maternal. Já tentou conseguir a atenção de crianças de 1, 2 anos? E de várias delas ao mesmo tempo? Tentou?

Da mesma forma que eu, elas estão ali por falta de opção. Na verdade, preferiam estar em casa com seus pais, num ambiente seguro e confortável e não sendo obrigadas a fazer atividades de circo, inglês, nutrição, música, pintura, colagem, massinha, etc, por tempo integral. “Pelo amor de Deus, são bebês”, gritei internamente… e não entrei na escola.

Voltei para o metrô e surpreendi meu filho em casa. Com olhos cheios de lágrimas, ele gritou: “Mãe! Não acredito. Você voltou”.

Não é de cortar o coração? Avisei na escola que não poderia continuar o trabalho. Chorei e questionei o sistema. “Não existe outra forma. Você tem que aceitar!”, afirmaram. Bati o pé, gritei, dormi e acordei… “Quem vai pagar o suco, presentear com a carta Pokémon, pagar os aparelhos de dentes, os remédios da alergia? Quem?”.

Bem, sou mãe solteira (sem pensão), jornalista com dez anos de experiência, artista com dois anos de erros e acertos. Sou idealista e questionadora. Estou à procura de um emprego que me permita ter tempo para o meu filho e ainda assim ter condições de pagar além do básico. Temas como feminismo, igualdade, direitos humanos, pedagogia alternativa e arte me interessam. Você, empregador ou empregadora que se interessa por esse perfil ou conhece alguém que se interesse, entre em contato.

Acho que não é pedir demais… É?

Carol Oliveira
Jornalista, artista e mãe solo

 

Esta crônica integra a série “Vozes que pariram“, deste blog de crônicas, que tira da invisibilidade histórias de lutas de mães com o objetivo de provocar debate, reflexão e, quiçá, mudanças de mentalidade que melhorem as relações. Envie sua contribuição para silviapereira@palavreira.com.br se conhecer uma história que promova o objetivo do projeto.

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Sou uma mãe ‘do caralho’

Voz a quem pariu (apresentação da série)

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Sou uma mãe ‘do caralho’!

Eu me formei jornalista aos 22 anos. Viajei para Europa para um intercâmbio de dois anos, com o intuito de me especializar e ter mais oportunidades na minha profissão.  No entanto, em apenas três meses de aventura eu descobri que estava grávida e decidi voltar para o Brasil.

Os anos seguintes foram de muita luta. Tentava conciliar estudo para concurso com trabalho e cuidados com a cria. Sentia muito cansaço, ansiedade, preocupação.

Trabalhei na Câmara dos Deputados, em alguns ministérios como assessora de imprensa. Aguentei humilhações e assédio sexual. Tinha que deixar meu filho tempo integral na creche.

Eu não tinha muita motivação, nem energia para ir além. O pai biológico do Miguel havia decidido não participar e colocou a culpa em mim por eu ter decidido voltar ao Brasil.

No Brasil, retomei uma relação com um ex, que insistiu em formarmos uma família – eu, ele e meu filho (ainda na barriga).

Durante os primeiros aninhos do Miguel, mesmo com esse companheiro, era eu quem acordava todas as madrugadas (afinal não podia exigir muito de alguém que escolheu ser pai de um filho de outro).

Quem pagava escola e comprava remédio e roupas e brinquedos era eu. Quem deixava na creche e buscava, era eu. Quem abriu mão de especialização, academia, fui eu.

O “pai” fazia muay thai, musculação, cursos, natação, trabalhava em dois empregos.

O pai biológico, nem sinal. Enviei uma foto do Miguel com 1 ano e 6 meses. Ele pediu: “não faça mais isso. Sofro quando vejo”. Nunca mais enviei.

O “pai” tinha carro (dado pelo pai) e moto. Eu andava cerca de 20 minutos com Miguel no colo e no sol para deixá-lo na creche. Um dia perguntei a ele por que não me emprestava o carro e ele ia de moto para o trabalho. Ele respondeu: “Porque você tem que lutar por suas próprias coisas”.

Na época, eu trabalhava como assessora de imprensa por míseros R$ 2 mil, com um deputado corrupto que pedia todo dia, em tom de “brincadeira”, que eu chupasse seu pau. Isso na frente de todos os assessores, que riam (aliás, ele foi preso por suspeita de estupro em seu Estado e solto por falta de provas).

Eu chegava em casa chorando e esse companheiro dizia: “você tem que correr atrás de outro emprego. Não posso fazer muito por você”.

Ainda fiquei dois anos nesse gabinete (enquanto procurava por outro emprego), “aprendendo a lidar”, como me diziam para fazer.


O “pai” tinha carro (dado pelo pai) e moto. Eu andava cerca de
20 minutos com Miguel no colo e no sol para deixá-lo na creche


Um dia, entre amigos, esse companheiro, para se vangloriar, falou em voz alta que sua renda estava em torno de R$ 10 mil. Eu fiquei chocada, porque eu não sabia nada sobre. Eu pagava metade do nosso aluguel, da nossa alimentação, R$ 800 reais de creche e, quando saíamos, metade da conta.

Eu fiquei tão triste e me sentindo tão imbecil que fui embora de casa sem dizer nada.

Até hoje ele pega Miguel em suas folgas. Claro que depois do seus esportes, viagens e trabalho. Por uns três anos, após eu pedir, ele pagou por algumas atividades extras do Miguel. Depois que casou, sua esposa o proibiu e também pediu que ele diminuísse o contato. Ele aceitou e me disse: “não me casei no papel para separar”.

Opiniões sobre esse caso existem milhares. A maioria “ME” julgando.

O que sei é que sou uma mãe “do caralho”, que evolui à medida que a energia vital deixava.

Ontem Miguel passou o dia com o “pai”, que permiti estar na vida dele só por ele, meu filho, que o ama muito e até adoeceu quando tentei afastar.

Não tive bom exemplo de avô (era um louco, violento, alcoólatra, escroto do caralho). Tive um pai extremamente desequilibrado (e ainda assim, sofro horrores com a sua falta). Não tive a oportunidade de oferecer um bom exemplo de pai para meu filho, mesmo ele dizendo para as pessoas que tem dois.

E no fim dessa história toda, ainda sei que a maior parte dos questionamentos será a respeito da minha conduta e não desses trastes.

Desejo parabéns a todas as mulheres que abdicaram de especializações, de saúde com o corpo, de viagens e momentos para si com o intuito de cuidar dos filhos.

E aos pais que são pais de verdade, que compartilham a responsabilidade ao invés de “ajudar”… vocês não fazem mais que a obrigação.

 


Carol Oliveira é mãe orgulhosa do Miguel

 

 

‘Voz a quem pariu’

A intenção da série “Vozes que pariram“, deste blog de crônicas, é tirar da invisibilidade histórias de lutas de mães, para provocar debate, reflexão e, quiçá, mudanças de mentalidade que melhorem as relações. Clique na foto da mãe com bebê para ler o texto de apresentação e envie sua contribuição se conhecer uma história que promova o objetivo deste projeto.

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Voz a quem pariu

A garota de 20 anos estava escondida no quarto de casal da madrinha, enquanto esta conversava com o pai do bebê que crescia em seu útero. Só se lembra do homem por quem era apaixonada dizer, sem gaguejar, que não queria aquela criança… não assumiria. Simples assim.

Em outro dia foi a mãe dele que visitou a sua para dizer que o bebê podia ser de qualquer um.

Anos depois, quando já existia o exame de DNA, a mãe provou a paternidade do pai ausente, mas ele assumiu, pra si e para a própria família, que foi forjado… e sumiu no mundo para não pagar pensão.

Quando reapareceu, foi porque a avó do já pré-adolescente engoliu o orgulho em favor do desejo do neto de conhecer o pai e o procurou. A mãe concedeu. Pai e filho se conheceram. E só.

Não sei se foi falado a este pai sobre os anos de trabalho em dois empregos da mãe, do filho sendo criado por todos, dos conflitos que a criança vivenciou, dos perrengues financeiros que a família toda passou… só sei que ele ganhou de presente um filho crescido, que passou a ver de vez em quando.

Acompanhei de perto este caso, que é de minhas relações, mas preservo as identidades em respeito à relação entre pai e filho, que só agora começa a se consolidar.

Conheço muitos outros casos de pais que só se tornaram “presentes” depois dos filhos criados. Eles nunca são cobrados  pelos anos de ausência porque as mães amam demais seus filhos para privá-los do pai “pródigo”. Engolem seus sacrifícios mais uma vez…

Até quando? Eu me pergunto sempre que assisto a mais uma reportagem sobre a questão do aborto.

Nessas discussões, que sempre opõem religião x direitos femininos, nunca – salvo um comentário da amiga Márcia Intrabartollo em rede social – vi questionarem o papel do “doador do esperma” nas situações que levam uma mulher a tomar a dificílima­­­, dolorida (física e emocionalmente) e perigosa (clínica e criminalmente) decisão de abortar.

Até onde me informei até hoje, na maioria dos casos de aborto há por trás uma mãe abandonada ou um pai que fez pressão para não assumir mais uma boca para alimentar na família. Onde está a criminalização deles?

Tenho em torno de mim, em diferentes níveis de relações, vários casos de mulheres que assumiram os filhos sozinhas, e de outras que têm o pai de seu filho presente, mas “nos termos deles”.

São mulheres que têm jornadas triplas: no trabalho formal, em casa e na criação dos filhos. Algumas transformam-se irremediavelmente, como a do caso que narro no início deste texto. A jovem sonhadora e romântica deu lugar a uma mulher dura, irascível, implacável em suas relações. Forte sim… mas a que custos!

Recentemente, o depoimento de uma colega de profissão numa rede social me lembrou o quanto os sacrifícios da mulher na criação dos filhos ainda são invisíveis!

Decidi aí iniciar um trabalho para torná-los mais visíveis para, talvez – quem sabe? – contribuir para alguma conscientização e, quiçá, mudança de mentalidades (ah… esperanças… o que somos sem elas?).

A partir de agora, o blog “Palavreira” está aberto a depoimentos de mães que queiram contar suas histórias de lutas. Pretendo reuni-los numa seção que chamarei “Vozes que pariram“.

Quaisquer mães… solteiras, casadas, com pais presentes ou não, com parceiros que dividam ou não as alegrias (são muitas também, acredito!) e dificuldades de criar outro ser humano, que sintam-se discriminadas no trabalho, no grupo social ou o que o valha…

Não precisam se identificar. Podem usar codinomes (desde que eu saiba quem são) ou não usarem nome nenhum…

E se não se sentirem à vontade para escrever de próprio punho, me chamem. Vou até onde estiverem ouvir suas histórias para reproduzi-las em texto.

Só quero dar-lhes vozes, ampliá-las, fazê-las ouvidas…

Passou da hora!

 

P.S. Para me contatar, use o link para meu e-mail à direita na página.

Leia o primeiro depoimento da série

Sou uma mãe ‘do caralho’! (Carol Oliveira)

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Tão simples que parece complicado

José Eduardo Gomes de Carvalho*

A ansiedade digital do século 21 fez da gente comum que sonha em ser feliz um alvo fácil para processos estressantes de sobrevivência, que geram pessoas crispadas e agressivas – e, portanto, infelizes. Daí que é automático concluir que a busca pela felicidade mais parece uma lenda. E o próximo passo é virar mito.

A desenfreada procura do ser humano pelo prazer e pela satisfação, ou pela felicidade, enfim, é tão antiga quanto a descoberta do fogo. É verdade que, em certos momentos de nossa vida, falar de felicidade parece um delírio diante dessa necessidade de terminar cada dia, cada mês, mas retomar essa busca sistematicamente pode ser uma saída para os males imediatos, nem que seja por míseros instantes.

Sábios pré-socráticos, filósofos de todas as correntes, acadêmicos e religiosos de vários matizes tentaram ao longo dos séculos dimensionar e tornar palpáveis fórmulas de felicidade, segredos da busca pela realização pessoal e pela convivência feliz. Foram esforços, na maioria, em vão, incluindo as peripécias dos milhares de picaretas da autoajuda, praga típica do mundo contemporâneo, instantâneo e fugaz.

Pois um psicólogo norte-americano, Daniel Gilbert, desconstrói alguns dogmas e derruba barreiras seculares para elaborar um plano de felicidade que não requer habilidades especiais nem grandes posses materiais. Gilbert, além de tudo um exímio argumentador, não se baseia em suposições, mas em minuciosos estudos de comportamento que tornaram as conclusões de suas pesquisas um conjunto de observações com alicerces na Ciência e não em pirotecnias impalpáveis.

PhD em Princeton e professor de Harvard, 60 anos, este pesquisador que abomina os manuais de autoajuda transformou-se num concorridíssimo consultor internacional de vários segmentos, em especial depois do mais lido de seus inúmeros livros publicados, que no Brasil, aliás, recebeu um título empapado de autoajuda, “O que nos faz felizes” (Editora Campus-Elsevier). No original se chama “Tropeçando na Felicidade” (Stumbling on Happiness).

Gilbert não faz suposições nem análises subjetivas. Seus levantamentos são diretos, atingem os alvos sem muito trololó, como a pesquisa com cinco mil pessoas de todas as idades e classes sociais que respondiam coisas como “o que faria você feliz neste exato momento?”, após um telefonema de surpresa – no trabalho, de madrugada, durante as férias. Para o cientista, não se trata de desprezar o que já foi feito por grandes cérebros da história. Ele preza demais, por exemplo, as distintas correntes hedonistas, que basicamente defendem a “felicidade que é simples”, a realização do indivíduo com as coisas básicas a seu alcance e sem nenhum malabarismo financeiro. Mas pondera que os estudos acadêmicos do mundo moderno, individualista e tecnológico, foram revelando, nem sempre para o bem, as atitudes de pessoas de todas as idades, crenças e situações sociais.

Do ponto de vista científico, que é o que interessa a Gilbert, é possível detectar perfeitamente, com os instrumentos à disposição dos estudiosos, o que é o conceito de bem-estar que mais se aproxima do mundo real. E as conclusões apontam para um panorama de surpreendente simplicidade para que a maioria das pessoas se sintam de fato felizes.

Nos resultados da equipe do especialista, quatro pontos são levantados como fundamentais para se atingir um estado seguro de felicidade: exercício físico, conversas/reuniões com amigos, música e sexo. São atividades que elevam corpo e espírito a um patamar de satisfação suficiente para compensar, com lucro, as mazelas da vida e abrir caminho para o equilíbrio pessoal.

Todos os outros itens eram de alguma forma ligados aos temas principais, tais como viajar, passear e conversar com os filhos, curtir os animais de estimação, consumir a comida preferida.

Do escopo da pesquisa não constavam questões nem respostas de alta especificidade, mas coisas como dinheiro, poder/prestígio, uma casa na praia, consumo exagerado ou um carrão da moda pouco apareceram quando as pessoas se referiam à felicidade duradoura.

Nas conclusões do grupo de Daniel Gilbert, o que ficou de mais representativo foi que todos os quatro requisitos para ser feliz podem ser atingidos a custo zero. Ao contrário, ficaram em segundo plano grande parte dos prazeres efêmeros/materiais, estes, sim, que podem custar o olho da cara.

Trata-se da velha diferença entre ter e ser. Tão escandalosamente simples que até parece complicado. É ou não para se pensar?

 

* José Eduardo Gomes de Carvalho é jornalista, “explorador do mundo”, mentor e amigo para toda a vida


 

Toda semana, às quartas, o blog traz a crônica de um(a) ‘palavreiro(a)’ convidado(a). O convite é extensivo a todos que gostam de palavrear a vida em forma de crônicas.

VEM PALAVREAR COM A GENTE!’

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Passarinha, suricata ou um ventilador

Acordei de madrugada e me dei conta de que aquela era a 28ª cama diferente em que dormia nos últimos 28 dias, e a última. Não havia mais o que andar. Na manhã seguinte pegaríamos o caminho de volta ao Brasil.

Depois de ter passado por beliches, camas de campanha e de solteiro, a 28ª era de casal, como a primeira, e de certa forma essa situação fechava o ciclo. A mesma colega do primeiro dia dormia comigo, mas diferente da noite em Aosta em que tremi de medo, agora eu pensava na guinada que minha vida dera: estava “grávida”.

As estrelas me viam como um pontinho na cama de um B&B em Siena, na Itália, em um dos cinco continentes, na Terra, que pouco representa no Universo. Eu era nada mais do que um pó perdido de felicidade porque estava em uma cidade medieval incrível e tudo tinha dado certo. Não havia conseguido vencer o medo, mas o domara; não havia conseguido ser engraçada, mas estava mais leve; minha rigidez se movera só alguns milímetros, mas foi a brecha para uma expansão. E tinha pego barriga, estava prenhe daquela outra “eu”.

Fechei os olhos e me lembrei de dois dias antes, quando deixamos San Gimignano para trás. Andávamos de madrugada por uma cidade que se conservava igual há séculos, e eu pensava se outros peregrinos que pisaram aquele chão de 63 anos antes de Cristo tinham se metamorfoseado.

Agora também é muito cedo e desperto do primeiro sono de volta ao Brasil. Meu marido dorme. Fecho os olhos e San Gimignano volta: lá o céu enluarado estaria mudando de cor, passando de carbono a um azul Bic, com nuances cor-de-rosa. Uma ou outra padaria já começaria a abrir, enquanto grandes arbustos verdes já estariam se revelando nas muralhas.

É bonito ver a mudança de geografia, o sol nascer, o dia se pôr. A gente passa, o dia passa, o tempo passa, tudo vai mudando e a gente pensa que está igual. Daqui para frente, serão só lembranças e os cuidados com essa bebê que fica sendo constantemente gerada e parida. Chegará o dia em que só haverá sombra da Márcia anterior.

Para mim, a peregrinação pela Francígena foi um ritual de passagem. Eu andava frustrada com a comodidade que tinha dado para minha vida. Mantinha presa em uma torre a passarinha que eu sonhara ser. Naquele março de 2017, abri a porta da gaiola, pus uma mochila nas costinhas dela e mandei-a passear.  Foi para a Itália disposta a renascer.

Quando já tinha se passado um ano, meu sobrinho disse que pareço uma suricata. Uma semana depois, minha enteada afirmou que eu lembro um ventilador de piso. Dá na mesma… passarinha, suricato ou ventilador, um ou outro fica retinho e girando a cabeça de lá para cá, tentando dar conta de tudo.

Fiquei orgulhosa de passar essa imagem pois parece que estou conseguindo “ter o pasmo essencial que tem a criança, se ao nascer, percebesse que nascera deveras”. O Fernando Pessoa fala bem lindamente dessas coisas, mas, Lucas e Nágila, vocês foram tão certeiros e modernos que vou preferir as definições de vocês. Ganharam o dia, agora me aguentem…

Sigo em frente, e é para valer.


Queridos leitores que acompanharam carinhosamente a série Pé Dá Letra,

amigas peregrinas Adriana, Kele, Regiane, Renata, Sheila e Vera,

Silvia Pereira, que me abriu este valioso espaço no Palavreira,

minha mãe e meu amor:

agradeço a todos pelo apoio na minha jornada de autora!

Márcia Intrabartollo é jornalista, peregrina e
aprendiz de escritora


 

Esta é a última crônica da série Pé Dá Letra, publicada aqui no Palavreira toda quarta-feira, com histórias inspiradas na peregrinação de sete brasileiras pela Via Francígena, em 2017. Para saber mais sobre a viagem que inspirou esta história, visite o Peregrinas Mundo Afora no Facebook.

Para ler a crônica anterior da série, Eu Vi Gigantes, clique aqui.

 

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Eu Vi Gigantes!

Quero me redimir da culpa de ter usado o nariz do Pinocchio para contar algumas histórias. Saibam que se misturei realidade com mentirinhas foi unicamente com a boa intenção de imprimir nelas um pouco da magia que permeava nossos passos. E já que estamos na penúltima crônica da série, vou revelar a vocês uma verdade sólida.

Eu vi Gigantes. Juro por tudo o que é mais sagrado.

Acharão que estou de brincadeira, mas não. Saibam que eles foram o acontecimento mais real e forte de tudo o que foi contado até agora. São mais vastos que os Apeninos, e têm nomes de mortais comuns: Karl e Vincent.

Karl jantou conosco em Chatillon e andamos juntos por dois trechos. Quando falou de nós em uma de suas postagens, disse ter dúvidas se éramos um grupo de brasileiras ou uma banda. Isso porque ele testemunhou momentos em que estávamos animadíssimas para cantar e dançar enquanto andávamos.

Karl é um Gigante inglês de presumíveis 65 anos, casado e pai de uma paratleta acometida por paralisia cerebral. Ao aposentar-se, impôs a si mesmo o desafio de andar 3.200 quilômetros de Windsor (Reino Unido) até Atenas (Grécia) para, com tal feito, angariar recursos para duas instituições: Cancer Research UK e Chance for Childhood. Andar por caridade era o que fazia por ali. Com posts e vídeos, chamava a atenção dos seus seguidores. Um Lord!

Diante de um coração tão generoso, fiquei miúda. Diante de alguém com um propósito tão forte de doação, que cede e faz pelo outro, pensei no quanto é possível se expandir.

Foi o primeiro Gigante. Veio para ensinar.

Como os semelhantes se atraem, não demorou para o segundo gigante juntar-se a nós.

O Vincent era um holandês que apareceu do nada no trecho de Vèrres. O lógico seria que nos ultrapassasse e seguisse seu rumo. Devia ter uns 30 anos ou nem isso. Depois explicou que reduziu seu ritmo ao mínimo porque estava precisando da alegria que tínhamos de sobra. Isso fez com que andasse conosco um dia e meio, até desistir de nossa lerdeza.

Vincent era o Gigante maior porque estava lutando por sua própria vida. Tinha uma doença grave que o obrigava a tomar medicamentos diariamente, pois seu intestino não absorvia os nutrientes. Ele podia passar mal a qualquer momento, mas estava andando sozinho e percorria cerca de 50 km por dia.

Tinha fé –  muita fé – de que se saísse da Holanda e seguisse até Jerusalém, abrindo mão da medicação no trajeto, se curaria.

Você já olhou nos olhos de alguém de pupilas pretas que brilham quando diz que tem fé de que vai se curar enquanto anda, prescindindo dos remédios, arriscando-se a não ter socorro caso passe mal? Já sentiu que sua alegria efêmera podia ser um bálsamo para alguém vivendo tamanho drama pessoal? Já torceu intensamente para que o Deus dos Gigantes ouvisse aquelas preces?

Mais uma vez, diante de um coração tão valente quanto aquele, fiquei miúda. Diante de alguém com o forte propósito de defesa de sua vida, que enfrenta os problemas e age por si mesmo, pensei no quanto é possível expandir-se.

Foi o segundo Gigante. Veio para ensinar.

Pinocchio, aqui a magia deu-se por outras vias. Conhece Belchior, seu filho de carpinteiro? Dizia ele que “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”. Deve ter visto gigantes também.

 

 

Márcia Intrabartollo é jornalista, peregrina e
aprendiz de escritora


 

Esta é a nona e penúltima crônica da série Pé Dá Letra, publicada aqui no Palavreira toda quarta-feira, com histórias inspiradas na peregrinação de sete brasileiras pela Via Francígena, em 2017. Para saber mais sobre a viagem que inspirou esta história, visite o Peregrinas Mundo Afora no Facebook.

Para ler a crônica anterior da série, Carta para a Menina Helena, clique aqui.

 

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